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Questão de Português — Colocação Pronominal — Instituto Consulplan 2024

PortuguêsColocação Pronominal
Código
qa593709
Banca
Instituto Consulplan
Órgão
CM BH
Ano
2024
Cargo
Red ( )
Ética e a vocação para a excelência


       Realização, felicidade. Quem não quer? Mas como chegar lá sem saber exatamente no que consistem a realização e a felicidade? Diversos sistemas filosóficos se ocuparam deste tema e ofereceram as mais diversas respostas, muitas vezes opostas entre si. Para uns, a felicidade estaria na fruição ilimitada dos prazeres; para outros, na negação completa destes mesmos prazeres. Para uns, a felicidade de uma pessoa é indissociável da felicidade dos demais; para outros, a felicidade individual pode justificar até mesmo que se passe o outro para trás. Em comum entre todas essas noções está a constatação de que a felicidade e a realização passam pelo modo como nos comportamos.
 
          Atualmente, fala-se em ética quase tanto quanto em felicidade ou realização. E a ética é frequentemente associada a um conjunto de normas, uma lista de “certos” e “errados” que balizam nosso comportamento no relacionamento conosco mesmos, com nossa família, nossos círculos de amigos e de trabalho, e no espaço público. Ser uma pessoa “ética” significaria se comportar de acordo com essas normas. Não é exatamente uma maneira errada de enxergar a questão, mas é uma maneira insuficiente.

      Uma ética entendida assim, em termos normativos, tende a se tornar uma ética negativa, uma ética de limites, em que a grande preocupação é traçar (e testar) a linha do “não pode”, o limite que separa o certo do errado, com a convicção implícita de que simplesmente estar do lado “bom” desse limite será suficiente. Para fazer uma analogia com a vida escolar, é claro que ser aprovado com a média mínima exigida pode ser aceitável quando a disciplina é especialmente difícil. Mas deveríamos transformar o “passar raspando” em um ideal, na chave da realização de um estudante? Deveríamos nos contentar em “passar raspando” pela vida?

      E a consequência de pensar na ética como a delimitação de linhas separando o certo e o errado é acabar olhando as situações no esquema “preto ou branco”: matar uma pessoa num acidente de trânsito se torna tão grave quanto ordenar um genocídio; uma “mentirinha social”, como aquele elogio nada sincero, é tão condenável quanto uma traição. A vida não é assim: dentro das ações condenáveis, há aquelas mais ou menos graves, e o mesmo vale para os atos louváveis.

      Uma ética normativa tende também a ser vista como um saber de especialistas, de experts, que sabem lidar com um complexo de normas, interpretá-las e aplicá-las às situações concretas. Ora, a experiência universal nos mostra que pessoas muito simples, sem qualquer formação especial, são com frequência muito mais retas que outras que usam sua formação para distorcer e justificar o injustificável. Por fim, para cada um de nós, uma moral entendida assim, em termos normativos, acaba dando à ética a condição de algo útil, necessário, mas “que me limita”. Ou seja, como uma exigência externa, requerida pela vida em sociedade, mas não tão grata, nem tão iluminadora da minha existência.

        Mas haveria alguma alternativa a essa visão, limitada e pouco atraente, que é a mais difundida e que chamamos de normativa?

      Sim, mas é preciso um bom recuo no tempo. É entre os antigos gregos que se encontra uma intuição acerca da moral que nos parece fascinante. Vários de seus mais ilustres pensadores viam essa questão – e influenciaram amplamente seus contemporâneos – de um modo bastante diverso do que apresentamos acima. Quando, entre eles – e entre os antigos em geral –, se refletia acerca do que depois se passou a chamar de ética, não se pensava em um conjunto de regras, em um emaranhado de normas que importasse conhecer.

       Em que se pensava? Em excelência, na busca do melhor e mais perfeito. Pensava-se na ciência da indagação sobre o que o homem está chamado a ser, sobre o que é a realização integral e plena do homem. A ética não era questão de cumprir normas, de se perguntar “posso ou não posso?”. Entendia-se a ética como a resposta à pergunta “o que devo ser?”. E a resposta, simples, mas profunda, era: o indivíduo é chamado a ser o melhor que ele puder ser; a não se contentar com menos do que com a excelência.

        De que excelência se tratava? A que, especificamente, a palavra arete (excelência moral) se referia? A todas as que podem ser alcançadas pelo homem? No estudo, no trabalho, em um hobby, enfim, em qualquer atividade humana? Não precisamente. Há muitas “excelências”: no esporte, na arte, nos estudos, na ciência. Mas o desempenho excepcional em certos campos não está ao alcance de todos: poucos serão, um dia, campeões olímpicos ou prêmios Nobel. Mais do que isso, ainda: o fato de se alcançar tal nível de performance nesses campos parciais, setorizados, não torna uma pessoa necessariamente melhor como pessoa. Todos temos experiência e notícia de como muitos gênios são canalhas.

          A ética, portanto, não trata dessas “excelências”, mas de um tipo muito específico de excelência que, sim, está à mão de todo homem ou mulher, e que, sim, os torna melhores como pessoas. Quem no-la descreve é um autor estoico do século 3º, o imperador romano Marco Aurélio: “muitas coisas dependem por inteiro de ti: a sinceridade, a dignidade, a resistência à dor, (...) a aceitação do destino, (...) a benevolência, a liberalidade, a simplicidade, a seriedade, a magnanimidade. Observa quantas coisas podes já conseguir sem que caiba alegar pretextos de incapacidade natural ou inaptidão, e por desgraça permaneces voluntariamente por baixo das tuas possibilidades. Por acaso te vês obrigado a murmurar, a ser avaro, a adular, a culpar o teu corpo, a dar-lhe satisfações, a ser frívolo e a submeter a tua alma a tanta agitação, porque estás defeituosamente constituído? Não, pelos deuses! Faz tempo que podias haver-te afastado desses defeitos”.

         Marco Aurélio está se referindo às virtudes, e a famosa obra de Aristóteles Ética a Nicômaco é exatamente isso: um tratado sobre as diferentes virtudes, qualidades que se adquirem, que se forjam e que, em todas as épocas, foram admiradas (ainda que por vezes se desse mais atenção a umas que a outras). A elas se refere à ética e, para toda a experiência do ocidente e boa parte do oriente, as virtudes foram vistas como o fim da educação do homem.

       E isso nos traz de volta ao tema da realização e da felicidade, que, para Aristóteles, consiste em ser aquilo para o qual se foi chamado – o famoso “torna-te aquilo que és” do poeta Píndaro. Isto é, justamente a excelência na virtude. O homem cabal é, sobretudo, o homem virtuoso, mesmo quando seus dotes intelectuais ou sua formação cultural não sejam os melhores ou mais completos. E, se as virtudes são inúmeras, ainda mais variados são os caminhos para a excelência – tantos quantos há seres humanos, poderíamos dizer. Cada pessoa, com seus talentos e circunstâncias, tem sua maneira particular de atingir este ideal. O que une todos esses caminhos é a certeza de que na vivência das virtudes em alto nível (a eupraxia, ou o agir bem) está o caminho para a felicidade. Recuperar essa ética da excelência é um passo importantíssimo se queremos construir uma sociedade preocupada com o bem comum.




(Disponível em: gazetadopovo.com.br. Acesso em: 10/02/2024.)

Em relação à colocação do pronome oblíquo e às flexões verbais em “[...] torna-te aquilo que és [...]”, assinale a alternativa correta.

  1. APróclise. Futuro do pretérito e futuro do indicativo.
  2. BPróclise. Presente do indicativo nas duas situações.
  3. CÊnclise. Imperativo afirmativo e presente do indicativo sucessivamente.
  4. DMesóclise. Infinitivo pessoal e presente do subjuntivo sequencialmente.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — Ênclise. Imperativo afirmativo e presente do indicativo sucessivamente.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Colocação pronominal e flexão verbal em “torna-te aquilo que és”

Gabarito: letra C. No trecho, “torna-te” apresenta o pronome oblíquo depois do verbo (ênclise) e o verbo “tornar” está no imperativo afirmativo; já “és” está no presente do indicativo. A alternativa C é a única que combina corretamente os dois fenômenos, como se comprova pela análise morfológica e pela regra de colocação pronominal.

O comando pede que você identifique, no trecho citado, a posição do pronome oblíquo e o tempo/modo dos verbos. Isso é uma questão de gramática aplicada ao texto: não se trata de interpretar o sentido, mas de reconhecer a estrutura morfossintática. Para resolvê-la, é preciso dominar dois pontos: (1) as três posições do pronome átono (próclise, ênclise, mesóclise) e (2) a conjugação dos verbos “tornar” e “ser” no trecho.

No trecho, “torna-te” é uma forma do verbo “tornar” na 2ª pessoa do singular do imperativo afirmativo (tu). O pronome “te” está após o verbo, unido por hífen, o que caracteriza a ênclise. Não há palavra atrativa antes do verbo que justifique a próclise, e o verbo não está no futuro (o que descarta a mesóclise). Já “és” é a 2ª pessoa do singular do presente do indicativo do verbo “ser”. Portanto, a sequência é: ênclise + imperativo afirmativo + presente do indicativo.

A banca explora duas confusões clássicas: (a) achar que “torna-te” é futuro do presente (o que levaria à mesóclise, como em “tornar-te-ás”) e (b) confundir “és” com outra forma verbal. Para evitar essas armadilhas, lembre-se: o imperativo afirmativo de “tu” em verbos regulares é idêntico à 3ª pessoa do singular do presente do indicativo (torna, come, parte), e o pronome oblíquo átono fica depois do verbo (ênclise) quando não há palavra atrativa. Já o presente do indicativo de “ser” na 2ª pessoa é “és”, forma que não se confunde com o imperativo.

PEGA ESSA DICA!

Ao analisar a colocação pronominal, verifique primeiro se há palavra atrativa (advérbio, pronome relativo, conjunção subordinativa, palavra negativa). Se não houver, a ênclise é a regra. E para identificar o tempo/modo, pergunte: “qual é a forma do verbo no infinitivo?” e “em que pessoa está?”.

Colocação pronominal
  • 1Próclise (antes do verbo)
    • Palavra atrativa
  • 2Ênclise (depois do verbo)
    • Sem palavra atrativa
  • 3Mesóclise (meio do verbo)
    • Futuro do presente
    • Futuro do pretérito
  • 4Análise do trecho
    • "torna-te"
      • Ênclise
      • Imperativo afirmativo
    • "és"
      • Presente do indicativo
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Alternativa A — ❌ Incorreta

Afirma próclise e futuro do pretérito e futuro do indicativo. O pronome está depois do verbo (ênclise), e “torna” não é futuro — é imperativo. A banca tenta confundir com a forma “tornar-te-ás” (futuro do presente), que seria mesóclise. Erro: troca de conceito (confunde ênclise com próclise e imperativo com futuro).

Alternativa B — ❌ Incorreta

Afirma próclise e presente do indicativo nas duas situações. O pronome está em ênclise, não próclise. Além disso, “torna” é imperativo, não presente do indicativo (embora a forma seja idêntica, o modo é diferente). Erro: troca de conceito (confunde a posição do pronome e o modo verbal).

Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Afirma ênclise, imperativo afirmativo e presente do indicativo sucessivamente. Exatamente o que ocorre: “torna-te” (ênclise, imperativo afirmativo) e “és” (presente do indicativo). A alternativa está correta e é a única que descreve com precisão os dois fenômenos.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Afirma mesóclise e infinitivo pessoal e presente do subjuntivo sequencialmente. A mesóclise só ocorre com verbos no futuro do presente ou do pretérito do indicativo, o que não é o caso. “Torna” não é infinitivo, e “és” não é subjuntivo. Erro: troca de conceito (confunde mesóclise com ênclise e os modos verbais).

Conclusão: a questão testa dois pontos básicos da gramática: a posição do pronome oblíquo átono e a flexão verbal. A alternativa C é a única que acerta ambos. Lembre-se: ênclise = pronome depois do verbo (sem palavra atrativa); mesóclise = pronome no meio do verbo (futuro do presente/pretérito); próclise = pronome antes do verbo (com palavra atrativa). E “és” é sempre presente do indicativo. Gabarito: letra C.

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