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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — Instituto Consulplan 2024

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
qa593710
Banca
Instituto Consulplan
Órgão
CM BH
Ano
2024
Cargo
Tec Leg II ( )

O fim do mundo

 

A primeira vez que ouvi falar no fim do mundo, o mundo para mim não tinha nenhum sentido, ainda; de modo que não me interessavam nem o seu começo nem o seu fim. Lembro-me, porém, vagamente, de umas mulheres nervosas que choravam, meio desgrenhadas, e aludiam a um cometa que andava pelo céu, responsável pelo acontecimento que elas tanto temiam.

 

Nada disso se entendia comigo: o mundo era delas, o cometa era para elas: nós, crianças, existíamos apenas para brincar com as flores da goiabeira e as cores do tapete.

 

Mas, uma noite, levantaram-me da cama, enrolada num lençol e, estremunhada, levaram-me à janela para me apresentarem à força ao temível cometa. Aquilo que até então não me interessara nada, que nem vencia a preguiça dos meus olhos, pareceu-me, de repente, maravilhoso. Era um pavão branco, pousado no ar, por cima dos telhados? Era uma noiva, que caminhava pela noite, sozinha, ao encontro da sua festa? Gostei muito do cometa. Devia sempre haver um cometa no céu, como há lua, sol, estrelas. Por que as pessoas andavam tão apavoradas? A mim não me causava medo nenhum.

 

Ora, o cometa desapareceu, aqueles que choravam enxugaram os olhos, o mundo não se acabou, talvez tenha ficado um pouco triste – mas que importância tem a tristeza das crianças?

 

Passou-se muito tempo. Aprendi muitas coisas, entre as quais o suposto sentido do mundo. Não duvido de que o mundo tenha sentido. Deve ter mesmo muitos, inúmeros, pois em redor de mim as pessoas mais ilustres e sabedoras fazem cada coisa que bem se vê haver um sentido do mundo peculiar a cada um.

 

Dizem que o mundo termina em fevereiro próximo. Ninguém fala em cometa, e é pena, porque eu gostaria de tornar a ver um cometa, para verificar se a lembrança que conservo dessa imagem do céu é verdadeira ou inventada pelo sono dos meus olhos naquela noite já muito antiga.

 

O mundo vai acabar, e certamente saberemos qual era o seu verdadeiro sentido. Se valeu a pena que uns trabalhassem tanto e outros tão pouco. Por que fomos tão sinceros ou tão hipócritas, tão falsos ou tão leais. Por que pensamos tanto em nós mesmos ou só nos outros. Por que fizemos votos de pobreza ou assaltamos os cofres públicos – além dos particulares. Por que mentimos tanto, com palavras tão judiciosas. Tudo isso saberemos e muito mais dos que cabe enumerar numa crônica.

 

Se o fim do mundo for mesmo em fevereiro, convém pensarmos desde já se utilizamos este dom de viver da maneira mais digna.

 

Em muitos pontos da terra há pessoas, neste momento, pedindo a Deus – dono de todos os mundos – que trate com benignidade as criaturas que se preparam para encerrar a sua carreira mortal. Há mesmo alguns místicos – segundo leio – que, na Índia, lançam flores ao fogo, um rito de adoração.

 

Enquanto isso, os planetas assumem os lugares que lhes competem, na ordem do universo, neste universo de enigmas a que estamos ligados e no qual por vezes nos arrogamos posições que não temos – insignificantes que somos, na tremenda grandiosidade total.

 

Ainda há uns dias para a reflexão e o arrependimento: por que não os utilizaremos? Se o fim do mundo não for em fevereiro, todos teremos fim, em qualquer mês...

 

(MEIRELES, Cecília. 1901-1964. Escolha o seu sonho: crônicas. 26ª Ed. Rio de Janeiro: Record, 2005.)

A crônica de Cecília Meireles versa a respeito do fim do mundo. Nela, é possível notar que a autora não dá tanta importância em ver o seu planeta acabar por completo. Tal fato pode ser claramente comprovado através do fragmento textual:
  1. AAprendi muitas coisas, entre as quais o suposto sentido do mundo.”
  2. BSe o fim do mundo for mesmo em fevereiro, convém pensarmos desde já se utilizamos este dom de viver da maneira mais digna.”
  3. CDeve ter mesmo muitos, inúmeros, pois em redor de mim as pessoas mais ilustres e sabedoras fazem cada coisa que bem se vê haver um sentido do mundo peculiar a cada um.”
  4. DA primeira vez que ouvi falar no fim do mundo, o mundo para mim não tinha nenhum sentido, ainda; de modo que não me interessavam nem o seu começo nem o seu fim.”
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GabaritoD — “A primeira vez que ouvi falar no fim do mundo, o mundo para mim não tinha nenhum sentido, ainda; de modo que não me interessavam nem o seu começo nem o seu fim.”

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

A indiferença da narradora diante do fim do mundo

Gabarito: letra D. A passagem que comprova a pouca importância dada pela autora ao fim do mundo é: "A primeira vez que ouvi falar no fim do mundo, o mundo para mim não tinha nenhum sentido, ainda; de modo que não me interessavam nem o seu começo nem o seu fim." Nela, a narradora afirma explicitamente que o fim do mundo não lhe interessava, pois o mundo ainda não tinha sentido para ela. As demais alternativas ou tratam de outros aspectos (como o sentido do mundo ou a reflexão sobre a vida) ou não expressam diretamente essa indiferença.

O comando da questão pede que se identifique o fragmento que comprova claramente a tese de que a autora "não dá tanta importância em ver o seu planeta acabar por completo". Isso é uma tarefa de compreensão/recorrência: a resposta deve estar explícita no texto, não ser uma dedução. A alternativa correta é aquela que contém uma afirmação direta da narradora sobre seu desinteresse pelo fim do mundo.

No texto, a narradora descreve sua reação inicial ao ouvir falar do fim do mundo: ela era criança e o mundo não fazia sentido para ela. A passagem da alternativa D é a única que declara abertamente esse desinteresse: "não me interessavam nem o seu começo nem o seu fim". As outras alternativas, embora façam parte do texto, não expressam essa indiferença de forma direta.

A técnica para resolver é simples: localizar a ideia central do enunciado (indiferença) e encontrar o trecho que a expressa literalmente. A alternativa D é a única que contém a palavra "não me interessavam", que é a expressão direta da falta de importância. As demais alternativas, embora façam parte do texto, não contêm essa afirmação explícita de desinteresse pelo fim do mundo.

Alternativa A — ❌ Incorreta

"Aprendi muitas coisas, entre as quais o suposto sentido do mundo."

Este trecho fala sobre o aprendizado da narradora e o sentido do mundo, mas não menciona o fim do mundo nem expressa indiferença em relação a ele. A alternativa tangencia o tema, pois trata de um assunto relacionado (o sentido do mundo), mas não comprova a tese pedida.

Alternativa B — ❌ Incorreta

"Se o fim do mundo for mesmo em fevereiro, convém pensarmos desde já se utilizamos este dom de viver da maneira mais digna."

Aqui, a narradora sugere uma reflexão sobre a vida digna, mas não demonstra indiferença em relação ao fim do mundo. Pelo contrário, ela propõe uma ação (pensar sobre a vida), o que contradiz a ideia de desinteresse. A alternativa extrapola ao interpretar a reflexão como indiferença.

Alternativa C — ❌ Incorreta

"Deve ter mesmo muitos, inúmeros, pois em redor de mim as pessoas mais ilustres e sabedoras fazem cada coisa que bem se vê haver um sentido do mundo peculiar a cada um."

Este trecho discute a multiplicidade de sentidos do mundo, mas não aborda o fim do mundo nem a reação da narradora a ele. A alternativa foge ao tema central da questão, que é a indiferença diante do fim do mundo.

Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO

"A primeira vez que ouvi falar no fim do mundo, o mundo para mim não tinha nenhum sentido, ainda; de modo que não me interessavam nem o seu começo nem o seu fim."

Este trecho é a única passagem que expressa diretamente a indiferença da narradora: ela afirma que o mundo "não tinha nenhum sentido" para ela e que "não me interessavam nem o seu começo nem o seu fim". A expressão "não me interessavam" é a prova literal da falta de importância atribuída ao fim do mundo.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão entre trechos que falam sobre o mundo (sentido, reflexão) e o trecho que fala especificamente sobre a indiferença ao fim do mundo. A alternativa D é a única que contém a negação explícita de interesse.

PEGA ESSA DICA!

Ao resolver questões de compreensão, grife no enunciado a ideia-chave (aqui, "não dá importância") e procure no texto a palavra ou expressão que a traduz literalmente (aqui, "não me interessavam").

Gabarito: letra D — a única alternativa que comprova, de forma explícita, a indiferença da narradora diante do fim do mundo.

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