Morar é humano. Animais selvagens têm ninhos, gado tem estábulos, carruagens encaixam‑se em galpões, e existem garagens para automóveis. Apenas humanos moram. Morar é uma arte. Toda aranha nasce com uma compulsão para tecer um tipo específico de teia. Aranhas, como todos os animais, são programadas por seus genes. O humano é o único animal que é um artista, e a arte de morar é parte da arte de viver. Uma morada não é um ninho nem uma garagem.
A maior parte das línguas usa viver no sentido de morar. Fazer a pergunta “onde você vive?” é perguntar qual é o lugar onde sua existência diária dá forma ao mundo. Diga‑me como moras e te direi quem és. Essa equação de morar e viver remonta a tempos nos quais o mundo ainda era habitável e os humanos eram habitantes. Morar, então, significava habitar os próprios traços, deixar a vida cotidiana escrever as teias e nós de sua biografia na paisagem. Essa escrita poderia ser gravada em pedra por sucessivas gerações ou rabiscada novamente a cada temporada de chuvas com alguns juncos e folhas. Os traços habitáveis do homem eram tão efêmeros quanto seus habitantes.
Ivan Illich. No espelho do passado. São Paulo: n‑1 edições, 2024.
Texto para o item.
Em relação aos aspectos gerais do texto, julgue o item abaixo.
A palavra “então” indica uma ideia de causa.
CCerto
EErrado
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GabaritoE — Errado
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Valor semântico de "então" no texto
Gabarito: E (Errado). A palavra "então" não indica causa; ela introduz uma conclusão (ou consequência) do que foi dito antes. No trecho, "Morar, então, significava habitar os próprios traços..." o "então" retoma a ideia anterior de que "morar" equivale a "viver" e conclui: se morar é viver, então morar significava deixar a vida escrever a biografia. A relação é de conclusão, não de causa.
"Morar, então, significava habitar os próprios traços, deixar a vida cotidiana escrever as teias e nós de sua biografia na paisagem."
Aqui, "então" poderia ser substituído por "portanto", "por conseguinte", "logo" — todos conclusivos. Causa seria expressa por "porque", "visto que", "já que", "uma vez que". A banca explora a confusão comum entre causa e consequência: a conclusão é o efeito lógico, não a causa.
O comando
A questão pede para julgar uma afirmação sobre o valor semântico de "então". Isso é uma questão de interpretação de texto aliada à morfologia (conjunção). O candidato deve identificar a relação lógica que o conectivo estabelece no contexto, não apenas decorar a classe gramatical.
O texto
O texto "Morar" defende que morar é uma arte humana, distinta de ninhos e garagens. No segundo parágrafo, o autor aproxima "morar" de "viver": "A maior parte das línguas usa viver no sentido de morar." A partir dessa premissa, ele conclui: "Morar, então, significava habitar os próprios traços...". O "então" marca exatamente essa passagem da premissa para a conclusão.
A técnica
Para resolver, pergunte: qual é a relação entre a oração anterior e a que contém "então"? Se a oração anterior é a causa (ou premissa) e a seguinte é o efeito (ou conclusão), o conectivo é conclusivo. Se a oração anterior fosse o efeito e a seguinte a causa, seria causal. Aqui, a ideia de que "morar = viver" (premissa) leva à conclusão de que "morar significava habitar os próprios traços". Portanto, "então" é conclusivo.
Conectivos
1Conclusivos
então
portanto
logo
por conseguinte
2Causais
porque
visto que
já que
uma vez que
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Alternativa E — ❌ Incorreta ⟵ GABARITO
A afirmação "A palavra 'então' indica uma ideia de causa" é falsa. No texto, "então" tem valor conclusivo, equivalente a "portanto". A banca tenta confundir com a relação de causa e consequência, mas a causa seria expressa por conectivos como "porque" ou "visto que". Como a banca pediu para julgar o item, e o item está errado, o gabarito é E (Errado).
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre causa e consequência. Lembre: "então" é conclusivo; "porque" é causal. No texto, a premissa (morar = viver) é a causa lógica, e a conclusão (morar significava...) é o efeito. O conectivo "então" introduz o efeito, não a causa.
PEGA ESSA DICA!
Ao identificar o valor de um conectivo, substitua mentalmente por outros da mesma classe: se "portanto" funciona, é conclusão; se "porque" funciona, é causa. Teste sempre no contexto.