Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — Quadrix 2024
Português›Interpretação de Textos (Compreensão)
Código
qa596640
Banca
Quadrix
Órgão
CAU RN
Ano
2024
Cargo
Ana Fisc ( )
Lições da arquitetura
No ombro do planeta
(em Caracas)
Oscar depositou
para sempre
uma ave uma flor
(ele não faz de pedra
nossas casas:
faz de asa)
No coração de Argel sofrida
fez aterrissar uma tarde
uma nave estelar
e linda
como ainda há de ser a vida
(com seu traço futuro
Oscar nos ensina
que o sonho é popular)
Nos ensina a sonhar
mesmo se lidamos
com matéria dura:
o ferro o cimento a fome
da humana arquitetura
nos ensina a viver
no que ele transfigura:
no açúcar da pedra
no sonho do ovo
na argila da aurora
na pluma da neve
na alvura do novo
Oscar nos ensina que a beleza é leve
Ferreira Gullar. Poesia completa, teatro e prosa.
Texto para o item.
Quanto aos aspectos gerais do texto, julgue o item a seguir.
O verso “como ainda há de ser a vida” revela uma esperança do eu poemático diante de uma vivência que deve estar sofrida.
CCerto
EErrado
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GabaritoC — Certo
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Interpretação de texto: a esperança no poema de Ferreira Gullar
Gabarito: C (Certo). O item é uma inferência legítima ancorada no verso “como ainda há de ser a vida”, que projeta um futuro melhor em contraste com a “Argel sofrida” mencionada no poema. A esperança não é uma dedução solta: ela está marcada linguisticamente no texto, que contrapõe a vivência sofrida (Argel) à beleza futura (a nave estelar “linda / como ainda há de ser a vida”).
O comando: compreensão ou inferência?
O enunciado pede que se julgue se o verso “revela uma esperança do eu poemático diante de uma vivência que deve estar sofrida”. Isso é uma questão de interpretação/inferência: não está escrito literalmente “eu tenho esperança”, mas o texto autoriza essa conclusão por meio de pistas linguísticas. A banca não pede uma paráfrase direta, e sim que se depreenda um sentimento a partir das palavras.
O texto: tema, tese e o movimento argumentativo
O poema “Lições da arquitetura” celebra o arquiteto Oscar Niemeyer, que transforma matéria dura (ferro, cimento) em beleza e sonho. O eu poemático destaca que Oscar “nos ensina a sonhar / mesmo se lidamos / com matéria dura” e que “a beleza é leve”. No trecho central, lemos:
“No coração de Argel sofrida / fez aterrissar uma tarde / uma nave estelar / e linda / como ainda há de ser a vida”
Aqui, Argel é qualificada como “sofrida” — uma vivência marcada pelo sofrimento. A “nave estelar e linda” representa algo belo e futurista, e a comparação “como ainda há de ser a vida” projeta essa beleza para o futuro: a vida ainda há de ser assim, ou seja, ainda não é, mas poderá vir a ser. Essa projeção para o futuro, em contraste com o presente sofrido, é exatamente o que chamamos de esperança.
A técnica que decide: pressuposição e inferência
A palavra “ainda” é a chave. Ela pressupõe que algo não aconteceu até agora, mas que há expectativa de que aconteça. No contexto, “ainda há de ser a vida” significa que a vida ainda não é linda como a nave, mas há de ser — há uma projeção otimista. Essa projeção, somada ao contraste com “Argel sofrida”, é a pista linguística que autoriza a inferência de esperança.
PEGA ESSA DICA!
Em questões de inferência, procure marcas linguísticas como “ainda”, “já”, “mas”, “porém” — elas carregam pressupostos. “Ainda” indica que algo não ocorreu, mas é esperado; “já” indica que algo ocorreu antes do esperado.
Análise do item
Item — ✅ Certo
O item afirma que o verso “revela uma esperança do eu poemático diante de uma vivência que deve estar sofrida”. Isso é exatamente o que o texto sustenta:
“Argel sofrida” → a vivência é sofrida (presente).
“como ainda há de ser a vida” → projeção de um futuro melhor (esperança).
A esperança é inferida da contraposição entre o presente sofrido e o futuro idealizado. Não há extrapolação: a pista está no próprio verso. Portanto, o item está certo.
Conclusão
A questão ensina que inferência legítima é aquela que se apoia em pistas do texto, como o advérbio “ainda” e o adjetivo “sofrida”. Quando a banca pede “revela”, ela quer que você depreenda um sentimento a partir de marcas linguísticas — e aqui a esperança está marcada na comparação com o futuro. Gabarito: C (Certo).