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Questão de Português — Outras Questões de Semântica — FURB 2024

PortuguêsOutras Questões de Semântica
Código
qa607015
Banca
FURB
Órgão
Pref Florianópolis
Ano
2024
Cargo
Enf (Florianópolis)

Sinais de consentimento forçado

 

O esforço do geneticista e bioinformata Yves Moreau, da Universidade Católica de Leuven, na Bélgica, já levou à retratação de 30 artigos científicos desde 2019. Em comum, os estudos cancelados utilizavam dados genéticos ou biométricos de minorias étnicas e grupos populacionais vulneráveis da China, cuja coleta foi realizada em condições nebulosas. Em alguns casos, não foi possível assegurar que os sujeitos da pesquisa forneceram material biológico de forma voluntária ou que o estudo foi aprovado pelo comitê ético de alguma instituição científica reconhecida. Já outros papers estão lastreados por termos de consentimento informado, nos quais os participantes declaram que foram avisados sobre o escopo da pesquisa e que aceitaram participar dela, mas há a possibilidade de que a coleta de dados tenha sido forçada e os documentos de anuência obtidos sob coação, o que os tornaria inúteis. Essa suspeita se baseia no ambiente de repressão política em que as pesquisas foram feitas e na presença de agentes de segurança do Estado entre os coautores dos artigos.

 

Segundo Moreau, a polícia chinesa se vale de uma base de dados nacional de DNA, de informações biométricas e de métodos de vigilância − tais como câmeras de vídeo e reconhecimento facial − para monitorar a minoria muçulmana uigur na província de Xinjiang, no noroeste do país. A mesma estratégia vale para os habitantes das montanhas do Tibete, região controlada pela China desde a década de 1950. "Isso faz parte da arquitetura do controle social e é uma ferramenta de pressão psicológica eficaz", disse Moreau ao jornal The Washington Post.

 

Em fevereiro, a revista Molecular Genetics & Genomic Medicine anunciou a retratação de 18 artigos apontados como suspeitos por Moreau, reconhecendo "inconsistências entre a documentação de consentimento e a pesquisa relatada". Outra retratação recente envolveu um trabalho publicado em 2022 na revista PLOS ONE, em que pesquisadores chineses coletaram amostras de sangue de centenas de tibetanos e concluíram que marcadores genéticos de seus cromossomos X poderiam ser úteis para identificação forense e testes de paternidade. Moreau alertou os editores da PLOS ONE que forças de segurança chinesas podem ter participado da coleta de dados, uma vez que organizações de defesa dos direitos humanos haviam denunciado a existência de um programa de coleta compulsória de amostras de DNA de populações tibetanas. O pesquisador pediu que investigassem se houve mesmo o consentimento informado dos indivíduos que cederam amostras de sangue. O artigo foi retratado apenas três meses após o alerta. Segundo nota divulgada pelo periódico, documentos fornecidos pelos autores não foram suficientes para afastar dúvidas sobre a autenticidade do consentimento informado e garantir que o estudo recebeu aprovação ética de comitê regularmente estabelecido.

 

A rapidez da PLOS ONE em analisar o caso não é um padrão entre as revistas científicas. Moreau e seu grupo fizeram alertas semelhantes sobre mais de uma centena de artigos e ao menos 70 deles seguem sendo investigados há mais de dois anos, sem que as publicações cheguem a uma conclusão sobre se devem ser retratados − o argumento é de que os casos são complexos. "A demora excessiva de editores em proferir decisões equivale à má conduta editorial", disse Moreau, em uma longa reportagem sobre seu trabalho publicada em janeiro na revista Nature.

 

Houve casos em que os editores consideraram a suspeita infundada e encerraram as investigações. A editora MDPI declarou não ter encontrado falhas éticas em sete artigos questionados por Moreau, publicados na revista Genes. Um dos artigos investigou as origens genéticas do povo Hui, outro grupo étnico muçulmano do norte da China. Vários autores trabalham para a Academia de Ciências Forenses de Xangai, que é parte do Ministério da Justiça da China. Em um outro artigo, autores eram afiliados ao Departamento de Investigação Criminal da província de Yunnan e ao Gabinete de Segurança Pública da cidade de Zibo, na China. "Não é incomum que a polícia ajude a facilitar a pesquisa forense de genética populacional", afirmou à Nature Dennis McNevin, da Universidade de Tecnologia de Sydney, na Austrália, coautor de um artigo apontado como suspeito por Moreau. O trabalho em questão foi publicado em 2018 na revista Scientific Reports e se baseava na análise genética de 1.842 pessoas de quatro grupos étnicos da China. O artigo segue válido, mas em 2022 a editora Springer Nature fez uma correção removendo dados (anonimizados) de participantes que constavam nas informações suplementares do paper, porque não havia consentimento para divulgá-los.

 

O engajamento de Moreau no combate ao que ele chama de "vigilância genômica" de minorias étnicas começou em 2016, quando soube que o governo do Kuwait lançara um programa para coletar e catalogar perfis genéticos de seus cidadãos e de visitantes. Ele levou o caso à Sociedade Europeia de Genética Humana e pediu que se pronunciasse contra a medida. Com a repercussão negativa, o programa acabou revogado pelo Parlamento do país. No mesmo ano, foi informado de que um programa de catalogação de DNA estava sendo implantado como parte do processo de registro de passaporte em Xinjiang, onde os uigures têm sido alvo de vigilância e detenções em massa. Ele fez um levantamento da literatura científica e encontrou dezenas de artigos que descrevem o perfil genético de grupos étnicos minoritários na China. Também observou que mais de 20% das pesquisas publicadas sobre genética forense populacional na China entre 2011 e 2018 concentraram-se nos uigures, embora eles representem menos de 1% da população.

 

Retirado e adaptado de: MARQUES, Fabrício. Sinais de consentimento forçado. Revista Pesquisa FAPESP.

Disponível em: https://revistapesquisa.fapesp.br/sinais-de-consentimento -forcado/ Acesso em: 19 abr., 2024.

 

Texto 02:

 

Trecho da Resolução n.º 466, de 12 de dezembro de 2012

 

[...] II - DOS TERMOS E DEFINIÇÕES

 

A presente Resolução adota as seguintes definições:

 

II.2 - assentimento livre e esclarecido - anuência do participante da pesquisa, criança, adolescente ou legalmente incapaz, livre de vícios (simulação, fraude ou erro), dependência, subordinação ou intimidação. Tais participantes devem ser esclarecidos sobre a natureza da pesquisa, seus objetivos, métodos, benefícios previstos, potenciais riscos e o incômodo que esta possa lhes acarretar, na medida de sua compreensão e respeitados em suas singularidades [...];

 

II.5 - consentimento livre e esclarecido - anuência do participante da pesquisa e/ou de seu representante legal, livre de vícios (simulação, fraude ou erro), dependência, subordinação ou intimidação, após esclarecimento completo e pormenorizado sobre a natureza da pesquisa, seus objetivos, métodos, benefícios previstos, potenciais riscos e o incômodo que esta possa acarretar [...];

 

II.10 - participante da pesquisa - indivíduo que, de forma esclarecida e voluntária, ou sob o esclarecimento e autorização de seu(s) responsável(eis) legal(is), aceita ser pesquisado. A participação deve se dar de forma gratuita, ressalvadas as pesquisas clínicas de Fase I ou de bioequivalência [...];

 

II.12 - pesquisa - processo formal e sistemático que visa à produção, ao avanço do conhecimento e/ou à obtenção de respostas para problemas mediante emprego de método científico [...];

 

II.14 - pesquisa envolvendo seres humanos - pesquisa que, individual ou coletivamente, tenha como participante o ser humano, em sua totalidade ou partes dele, e o envolva de forma direta ou indireta, incluindo o manejo de seus dados, informações ou materiais biológicos [...];

 

II.23 - Termo de Consentimento Livre e Esclarecido - TCLE - documento no qual é explicitado o consentimento livre e esclarecido do participante e/ou de seu responsável legal, de forma escrita, devendo conter todas as informações necessárias, em linguagem clara e objetiva, de fácil entendimento, para o mais completo esclarecimento sobre a pesquisa a qual se propõe participar;

 

II.24 - Termo de Assentimento - documento elaborado em linguagem acessível para os menores ou para os legalmente incapazes, por meio do qual, após os participantes da pesquisa serem devidamente esclarecidos, explicitarão sua anuência em participar da pesquisa, sem prejuízo do consentimento de seus responsáveis legais.

 

II.25 - vulnerabilidade - estado de pessoas ou grupos que, por quaisquer razões ou motivos, tenham a sua capacidade de autodeterminação reduzida ou impedida, ou de qualquer forma estejam impedidos de opor resistência, sobretudo no que se refere ao consentimento livre e esclarecido.

 

Retirado e adaptado de: BRASIL. Ministério da Saúde. RESOLUÇÃO Nº 466, DE 12 DE DEZEMBRO DE 2012.

Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/cns/2013/res0 466_12_12_2012.html Acesso em: 20 abr., 2024.

O texto seguinte servirá de base para responder à questão abaixo.

 

A respeito da relação entre o Texto 01 e o Texto 02, analise as afirmativas a seguir:

 

I.Os textos se relacionam ao tocar na mesma temática, mas consistem em textos independentes entre si.

 

II.Os textos são interdependentes, pois para que se compreenda um deles, você precisa conhecer o outro.

 

III.O Texto 01 é dependente do Texto 02 na medida em que, para compreender o foco do Texto 01, você precisa conhecer conceitos apresentados no Texto 02, como é o caso de "vulnerabilidade".

 

IV.O Texto 02 é dependente do Texto 01, pois os conceitos que são explicados precisam da contextualização oferecida no Texto 01, como no conceito de "consentimento".

 

É correto o que se afirma em:

  1. AI e II, apenas.
  2. BI, apenas.
  3. CIII e IV, apenas.
  4. DI, II, III e IV.
  5. EII, III e IV, apenas.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoB — I, apenas.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Relação entre os Textos 01 e 02: Independência Temática

Gabarito: letra B. A única afirmativa correta é a I, pois os textos compartilham a mesma temática (consentimento livre e esclarecido em pesquisas com seres humanos), mas são independentes entre si: cada um se sustenta sozinho, sem que a compreensão de um exija a leitura do outro. As afirmativas II, III e IV erram ao afirmar uma relação de dependência que não existe — o Texto 01 é uma reportagem jornalística autossuficiente, e o Texto 02 é um trecho de norma técnica que se basta em suas definições.

O Comando: Relação entre Textos

A questão pede que você analise como os dois textos se relacionam — se são independentes, interdependentes, ou se um depende do outro. Isso é uma questão de compreensão global e de relação intertextual. O verbo "analise" indica que você deve julgar cada afirmativa com base no que os textos realmente fazem, não no que seria plausível. A chave é perceber que independência não significa falta de relação temática: dois textos podem tratar do mesmo assunto sem que um precise do outro para ser entendido.

O Texto: Dois Gêneros, Um Tema

O Texto 01 é uma reportagem sobre o trabalho do geneticista Yves Moreau, que denuncia a coleta forçada de dados genéticos de minorias étnicas na China. Ele narra casos concretos, cita retratações de artigos e discute a demora das revistas em investigar. O Texto 02 é um trecho da Resolução nº 466/2012, que define termos como "consentimento livre e esclarecido", "vulnerabilidade" e "participante da pesquisa".

A relação entre eles é temática: ambos tratam do consentimento em pesquisas. Mas a relação é de independência funcional:

  • O Texto 01 não cita o Texto 02, nem precisa dele para ser compreendido. A reportagem explica o que é consentimento informado no próprio corpo do texto, como se vê no trecho:

"Já outros papers estão lastreados por termos de consentimento informado, nos quais os participantes declaram que foram avisados sobre o escopo da pesquisa e que aceitaram participar dela"

  • O Texto 02 não cita o Texto 01, nem precisa dele. A resolução define os termos de forma autônoma, como em:

"II.5 - consentimento livre e esclarecido - anuência do participante da pesquisa e/ou de seu representante legal, livre de vícios (simulação, fraude ou erro), dependência, subordinação ou intimidação"

Cada texto tem seu próprio contexto de produção e sua própria finalidade. A reportagem informa; a resolução normatiza. Um não é pré-requisito do outro.

A Técnica: Independência vs. Dependência

A armadilha central desta questão é a confusão entre relação temática e relação de dependência. A banca quer que você perceba que:

  • Textos independentes: podem ser lidos e compreendidos isoladamente, mesmo que tratem do mesmo assunto.

  • Textos interdependentes: um só faz sentido completo se o outro for lido antes (ex.: um texto que remete explicitamente a outro, ou que usa conceitos definidos apenas no outro).

A afirmativa III, por exemplo, diz que o Texto 01 depende do Texto 02 para compreender o conceito de "vulnerabilidade". Mas o Texto 01 não usa a palavra "vulnerabilidade" em nenhum momento. Ele fala de "minorias étnicas" e "grupos populacionais vulneráveis", mas não define o termo nem remete à resolução. O leitor entende a reportagem sem precisar da definição técnica.

A afirmativa IV diz que o Texto 02 depende do Texto 01 para explicar "consentimento". Mas a resolução define o termo de forma completa e autônoma, sem precisar de exemplos concretos. A definição normativa se basta.

Análise das Afirmativas

1Independência temática
Mesmo assunto
Cada um se basta
2Dependência
Remissão explícita
Conceito definido só no outro
3Análise das afirmativas
I — [+] Independentes
II — [-] Interdependentes
III — [-] Texto 01 depende do 02
IV — [-] Texto 02 depende do 01
Relação entre textos
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Relação entre textos: Independência temática (Mesmo assunto, Cada um se basta); Dependência (Remissão explícita, Conceito definido só no outro); Análise das afirmativas (I — [+] Independentes, II — [-] Interdependentes, III — [-] Texto 01 depende do 02, IV — [-] Texto 02 depende do 01)

Afirmativa I — ✅ Correta

"Os textos se relacionam ao tocar na mesma temática, mas consistem em textos independentes entre si."

Correta. Os dois textos tratam do consentimento em pesquisas com seres humanos. O Texto 01 aborda casos de coleta forçada; o Texto 02 define o que é consentimento válido. Mas são independentes: cada um se sustenta sozinho. O Texto 01 explica o que é consentimento informado no próprio texto ("nos quais os participantes declaram que foram avisados sobre o escopo da pesquisa"), e o Texto 02 define o termo de forma autônoma ("anuência do participante da pesquisa... livre de vícios"). Nenhum remete ao outro.

Afirmativa II — ❌ Incorreta

"Os textos são interdependentes, pois para que se compreenda um deles, você precisa conhecer o outro."

Incorreta. Esta afirmativa extrapola a relação real entre os textos. Não há nenhuma remissão explícita de um texto ao outro. O Texto 01 é uma reportagem jornalística completa, com começo, meio e fim; o Texto 02 é um trecho de norma técnica com definições autônomas. Um leitor que ler apenas o Texto 01 entenderá perfeitamente a denúncia sobre coleta forçada de DNA; um leitor que ler apenas o Texto 02 entenderá as definições legais. Não há dependência.

Afirmativa III — ❌ Incorreta

"O Texto 01 é dependente do Texto 02 na medida em que, para compreender o foco do Texto 01, você precisa conhecer conceitos apresentados no Texto 02, como é o caso de 'vulnerabilidade'."

Incorreta. Esta afirmativa extrapola ao inventar uma dependência que não existe. O Texto 01 não usa a palavra "vulnerabilidade" — ele fala de "minorias étnicas" e "grupos populacionais vulneráveis", mas não define o termo nem remete à resolução. O foco do Texto 01 é a denúncia da coleta forçada, e isso é compreendido sem qualquer conceito do Texto 02. A reportagem se basta.

Afirmativa IV — ❌ Incorreta

"O Texto 02 é dependente do Texto 01, pois os conceitos que são explicados precisam da contextualização oferecida no Texto 01, como no conceito de 'consentimento'."

Incorreta. Esta afirmativa inverte a relação e extrapola. O Texto 02 define "consentimento livre e esclarecido" de forma completa e autônoma, sem precisar de exemplos concretos. A definição normativa é auto-suficiente: "anuência do participante da pesquisa... livre de vícios (simulação, fraude ou erro), dependência, subordinação ou intimidação". O Texto 02 não cita o Texto 01, não remete a ele, e não precisa dele para ser compreendido.

Conclusão

A única afirmativa correta é a I. As afirmativas II, III e IV erram ao criar relações de dependência que não existem. A regra de ouro: dois textos podem tratar do mesmo tema sem que um dependa do outro. A independência é a regra quando não há remissão explícita ou uso de conceitos definidos apenas no outro texto.

PEGA ESSA DICA!

Ao analisar a relação entre textos, pergunte: "um texto cita o outro? Um usa conceitos que só o outro define?" Se a resposta for não, os textos são independentes, mesmo que compartilhem o mesmo tema.

Gabarito: letra B

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