Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — Instituto Consulplan 2025
Português›Interpretação de Textos (Compreensão)
Código
qa666877
Banca
Instituto Consulplan
Órgão
TJ RO
Ano
2025
Cargo
TJ ( )
Com licença poética
Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas, o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
– dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida, é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.
(PRADO, Adélia. Poesia reunida. São Paulo: Siciliano, 1995, p.11.)
No verso “– dor não é amargura.”, a palavra “dor” adquire um sentido:
ANegativo, associado à derrota e à resignação.
BEstritamente físico, associado ao sofrimento corporal.
CDenotativo, destacando o significado literal do vocábulo.
DSarcástico, expressando ironia sobre a condição humana.
ESimbólico, relacionado à capacidade de criação e resiliência.
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GabaritoE — Simbólico, relacionado à capacidade de criação e resiliência.
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Sentido da palavra "dor" no poema de Adélia Prado
Gabarito: letra E. No verso “– dor não é amargura.”, a palavra "dor" adquire sentido simbólico, relacionado à capacidade de criação e resiliência — e não um sentido literal, físico ou negativo. A passagem que ancora essa leitura é o conjunto do poema, especialmente os versos finais: "Mulher é desdobrável. Eu sou." e a estrofe anterior: "Inauguro linhagens, fundo reinos – dor não é amargura.".
A questão pede que você identifique o sentido contextual da palavra "dor" — ou seja, o valor que ela assume dentro do poema, não o significado de dicionário. Isso é típico de questões de conotação: a palavra sai do seu sentido literal (sofrimento físico) e passa a carregar um valor simbólico, construído pelo texto.
No poema, a eu lírica — uma mulher — afirma que carrega uma bandeira, que aceita os subterfúgios que lhe cabem, que não é feia que não possa casar, que acha o Rio de Janeiro uma beleza, que crê em parto sem dor. Mas, sobretudo, diz: "Mas, o que sinto escrevo. Cumpro a sina." A dor, aqui, não é algo que a derrota ou a amargura; ao contrário, é matéria-prima da criação: "Inauguro linhagens, fundo reinos – dor não é amargura." A dor é o que a faz escrever, fundar, criar. E o poema fecha com a imagem da mulher que se desdobra: "Mulher é desdobrável. Eu sou." — ou seja, a dor não a limita; ela se multiplica, se reinventa.
A técnica para resolver: pergunte-se qual é o efeito de sentido que a palavra produz no contexto. Se a palavra "dor" fosse tomada em sentido literal (físico), o verso "dor não é amargura" seria uma constatação médica — o que não faz sentido no poema. O texto a transforma em símbolo: a dor é o que alimenta a criação e a resiliência da mulher. É exatamente isso que a alternativa E afirma.
PEGA ESSA DICA!
Em questões de sentido figurado, desconfie de alternativas que oferecem o significado literal (denotativo) ou que impõem uma leitura negativa sem apoio no texto. O sentido simbólico é construído pelas imagens e pela tese do poema — procure a ideia central que o autor defende.
Sentido de "dor" no poema: Denotativo (literal) (Sofrimento físico); Conotativo (figurado) (Símbolo de criação, Resiliência, Superação ("dor não é amargura")); Âncoras textuais ("Inauguro linhagens, fundo reinos", "Mulher é desdobrável. Eu sou.")
Alternativa A — ❌ Incorreta
Erro: extrapolação. O texto não associa "dor" a derrota ou resignação. Pelo contrário, a eu lírica afirma que "dor não é amargura" e que ela "inaugura linhagens, funda reinos" — a dor é superada e transformada em potência. A alternativa projeta uma leitura negativa que o poema não sustenta.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Erro: contradiz o texto (sentido literal). A palavra "dor" não é usada em sentido físico; o poema a utiliza metaforicamente, como experiência existencial e criativa. A alternativa tenta fixar o sentido denotativo, mas o contexto exige o figurado.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Erro: contradiz o texto (denotação). Afirmar que "dor" está em sentido denotativo (literal) é ignorar o uso poético. No poema, "dor" não é um sintoma corporal; é um símbolo da condição feminina e da criação. A alternativa nega exatamente o que o texto faz.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Erro: extrapolação (ironia). Não há ironia ou sarcasmo no verso. A eu lírica fala com seriedade e até com certa doçura: "dor não é amargura" é uma afirmação de superação, não uma zombaria. A alternativa inventa um tom que o texto não apresenta.
Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Correta. A palavra "dor" assume valor simbólico: representa o sofrimento que, em vez de amargurar, impulsiona a criação e a resiliência. O verso "dor não é amargura" é a chave: a dor é resignificada como força criativa, e o poema termina com a imagem da mulher que se desdobra — "Mulher é desdobrável. Eu sou." — confirmando a capacidade de superação.
Conclusão: a questão testa a diferença entre denotação (sentido literal) e conotação (sentido figurado). A palavra "dor" é usada conotativamente, como símbolo de criação e resiliência. Ao marcar a alternativa E, você reconhece que o texto transforma a dor em potência — e não em amargura.