Pular para o conteúdo principal

Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — INSTITUTO AOCP 2025

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
qa670151
Banca
INSTITUTO AOCP
Órgão
IF MS
Ano
2025
Cargo
PEBTT ( )

Variação linguística

   

O termo variação se aplica a uma característica das línguas humanas que faz parte de sua própria natureza: a heterogeneidade. A palavra língua nos dá uma ilusão de uniformidade, de homogeneidade, que não corresponde aos fatos. Quando nos referimos ao português, ao francês, ao chinês, ao árabe etc., usamos um rótulo único para designar uma multiplicidade de modos de falar decorrente da multiplicidade das sociedades e das culturas em que as línguas são faladas. Cada um desses modos de falar recebe o nome de variedade linguística. Por isso, muitos autores definem língua como “um conjunto de variedades” e substituem a noção da língua como um sistema pela noção da língua como um polissistema, formado por essas múltiplas variedades.

 

A variação linguística se manifesta desde o nível mais elevado e coletivo – quando comparamos, por exemplo, o português falado em dois países diferentes (Brasil e Angola) – até o nível mais baixo e individual, quando observamos o modo de falar de uma única pessoa, a tal ponto que é possível dizer que o número de “línguas” num país é o mesmo de habitantes de seu território. Entre esses dois níveis extremos, a variação é observada em diversos outros níveis: grandes regiões, estados, regiões dentro dos estados, classes sociais, faixas etárias, níveis de renda, graus de escolarização, profissões, acesso às tecnologias de informação, usos escritos e usos falados.

 

A consciência de que a língua é variável remonta à Antiguidade, quando os primeiros estudiosos da língua grega tentaram sistematizá-la para o ensino e para a crítica literária. Eles, no entanto, fizeram uma avaliação negativa da variação, que viram como um obstáculo para a unificação territorial e para a difusão da língua. Foi nessa época (século III a.C.) que surgiu a disciplina chamada gramática, dedicada explicitamente a criar um modelo de língua que se elevasse acima da variação e servisse de instrumento de controle social por meio de um instrumento linguístico. A consequência cultural desse processo histórico é que o termo língua passou a ser usado, no senso comum, para rotular exclusivamente esse modelo idealizado, literário, enquanto todos os usos reais, principalmente falados, foram lançados à categoria do erro.

   

Com os avanços das ciências da linguagem, essa visão foi abandonada: o exame minucioso de cada variedade linguística revela que ela tem sua própria lógica gramatical, é tão regrada quanto a língua literária idealizada, e serve perfeitamente bem como recurso de interação e integração social para seus falantes. Diante disso, um novo projeto de educação linguística vem se formando: é preciso ampliar o repertório e a competência linguística dos aprendizes, levá-los a se apoderar da escrita e dos muitos gêneros discursivos associados a ela, sem contudo desprezar suas variedades linguísticas de origem, valorizando-as, ao contrário, como elementos formadores de sua identidade individual e social e como patrimônio cultural do país.

 

BAGNO, Marcos. Variação linguística. Glossário Ceale – Centro de Alfabetização, Leitura e Escrita. Universidade Federal de Minas Gerais, 2013. Disponível em: https://www.ceale.fae.ufmg.br/glossarioceale/verbetes/preconceito- linguistico. Acesso em: 21 mar. 2025.

Leia o Texto I, a seguir, para responder à questão

 

Texto I

   

Com base no Texto I e nos estudos sobre o assunto, analise as assertivas e assinale a alternativa que aponta a(s) correta(s).

 

I. A gramática normativa foi historicamente concebida como um modelo que eleva a língua acima da variação, servindo a interesses de unificação e controle social.

 

II. A rejeição das variedades linguísticas não está relacionada a fatores culturais ou políticos, mas, principalmente, a critérios técnicos de inteligibilidade e clareza.

 

III. A perspectiva do texto propõe que toda variedade linguística, mesmo divergente da norma padrão, possui uma estrutura interna coerente e funcional.

 

IV. A concepção de língua como polissistema, adotada por diversos autores, reforça a ideia de que a heterogeneidade linguística é uma falha a ser corrigida pelo ensino.


  1. AApenas I e III.
  2. BApenas II e IV.
  3. CApenas III.
  4. DApenas I, II e IV.
  5. EI, II, III e IV.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoA — Apenas I e III.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Análise das assertivas sobre variação linguística

Gabarito: letra A (Apenas I e III). A assertiva I está correta porque o texto afirma que a gramática foi criada para "criar um modelo de língua que se elevasse acima da variação e servisse de instrumento de controle social"; a III está correta porque o texto defende que "cada variedade linguística [...] tem sua própria lógica gramatical, é tão regrada quanto a língua literária idealizada". A assertiva II é falsa porque inverte a relação de causa: o texto atribui a rejeição das variedades a fatores históricos, culturais e políticos, não a critérios técnicos. A assertiva IV é falsa porque o texto apresenta o polissistema como uma concepção positiva, que reconhece a heterogeneidade como natural, e não como falha a ser corrigida.

O comando

A questão pede que você analise quatro assertivas e assinale a alternativa que aponta a(s) correta(s). Trata-se de uma questão de compreensão (informações explícitas no texto), não de inferência. Portanto, cada assertiva deve ser verificada diretamente no texto, sem acrescentar ideias de fora. O comando "com base no Texto I e nos estudos sobre o assunto" indica que a resposta deve estar ancorada no que o autor escreveu, não no que você sabe sobre variação linguística.

O texto

O texto de Marcos Bagno tem como tese central que a variação linguística é uma característica natural das línguas, e não um defeito. O autor percorre um caminho: (1) define variação e variedade linguística; (2) mostra como a variação se manifesta em diferentes níveis; (3) explica que a gramática normativa foi historicamente criada para combater a variação, com interesses de unificação e controle social; (4) defende que, com os avanços da ciência, essa visão foi abandonada, pois cada variedade tem sua própria lógica e valor. A resposta mora principalmente no 3º e 4º parágrafos.

A técnica

Para cada assertiva, pergunte: o texto autoriza esta afirmação? Se a assertiva parafraseia o texto, está correta; se acrescenta, restringe ou inverte algo, está errada. As armadilhas mais comuns são: extrapolação (ir além do que o texto diz), restrição (usar palavras como "apenas", "sempre", "nunca" que limitam o alcance), inversão de causa e efeito (trocar o motivo apontado pelo autor) e opinião embutida (atribuir ao texto um juízo que ele não faz).

1Natureza
Característica natural das línguas
Cada variedade tem lógica própria
2Gramática normativa
Criada para elevar-se acima da variação
Instrumento de controle social
Interesses de unificação
3Polissistema
Língua = conjunto de variedades
Heterogeneidade é natural
Não é falha a corrigir
Variação linguística (Bagno)
LEVELsoulevel.com.br
Variação linguística (Bagno): Natureza (Característica natural das línguas, Cada variedade tem lógica própria); Gramática normativa (Criada para elevar-se acima da variação, Instrumento de controle social, Interesses de unificação); Polissistema (Língua = conjunto de variedades, Heterogeneidade é natural, Não é falha a corrigir)

Assertiva I — ✅ Correta

"Foi nessa época (século III a.C.) que surgiu a disciplina chamada gramática, dedicada explicitamente a criar um modelo de língua que se elevasse acima da variação e servisse de instrumento de controle social por meio de um instrumento linguístico."

A assertiva I diz que a gramática normativa foi "historicamente concebida como um modelo que eleva a língua acima da variação, servindo a interesses de unificação e controle social". Isso é uma paráfrase fiel do trecho: "elevasse acima da variação" = "eleva a língua acima da variação"; "servisse de instrumento de controle social" = "servindo a interesses de [...] controle social". O texto também menciona "unificação territorial" no parágrafo anterior, o que sustenta "interesses de unificação". Portanto, correta.

Assertiva II — ❌ Incorreta

"Eles, no entanto, fizeram uma avaliação negativa da variação, que viram como um obstáculo para a unificação territorial e para a difusão da língua."

A assertiva II afirma que "a rejeição das variedades linguísticas não está relacionada a fatores culturais ou políticos, mas, principalmente, a critérios técnicos de inteligibilidade e clareza". Isso contradiz o texto. O texto diz que a avaliação negativa foi motivada por "unificação territorial" e "difusão da língua", que são fatores políticos e culturais, não técnicos. A palavra "não está relacionada" é uma negação que inverte o sentido. Além disso, o texto não menciona "critérios técnicos de inteligibilidade e clareza" em nenhum momento. Portanto, incorreta — erro de contradição e extrapolação.

Assertiva III — ✅ Correta

"o exame minucioso de cada variedade linguística revela que ela tem sua própria lógica gramatical, é tão regrada quanto a língua literária idealizada, e serve perfeitamente bem como recurso de interação e integração social para seus falantes."

A assertiva III diz que "toda variedade linguística, mesmo divergente da norma padrão, possui uma estrutura interna coerente e funcional". Isso é uma paráfrase de "tem sua própria lógica gramatical" (estrutura interna coerente) e "serve perfeitamente bem como recurso de interação e integração social" (funcional). O texto não faz exceção para variedades divergentes da norma padrão — pelo contrário, afirma que cada variedade tem essa lógica. Portanto, correta.

Assertiva IV — ❌ Incorreta

"Por isso, muitos autores definem língua como 'um conjunto de variedades' e substituem a noção da língua como um sistema pela noção da língua como um polissistema, formado por essas múltiplas variedades."

A assertiva IV afirma que "a concepção de língua como polissistema [...] reforça a ideia de que a heterogeneidade linguística é uma falha a ser corrigida pelo ensino". Isso contradiz o texto. O texto apresenta o polissistema como uma concepção positiva que reconhece a heterogeneidade como natural ("faz parte de sua própria natureza"). O texto também defende que o ensino deve "ampliar o repertório" sem "desprezar suas variedades linguísticas de origem, valorizando-as". Portanto, a heterogeneidade não é vista como falha, mas como patrimônio. A assertiva inverte o sentido — erro de contradição.

Conclusão

As assertivas corretas são I e III, portanto a alternativa correta é a letra A. A banca tentou confundir com a assertiva II, que inverte a causa da rejeição, e com a IV, que distorce o conceito de polissistema. Lembre-se: toda assertiva deve ser verificada no texto, sem opiniões pessoais ou conhecimentos externos.

Gabarito: letra A

Link permanente: /questoes/qa670151