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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — INSTITUTO AOCP 2025

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
qa670200
Banca
INSTITUTO AOCP
Órgão
IF MS
Ano
2025
Cargo
PEBTT ( )

A SELVA DOS TEMPOS VERBAIS

 

Alessandro Boechat de Medeiro

 

No português e em muitas línguas, verbos expressam tempo. Por exemplo, na frase (1) abaixo, sabemos pela terminação do verbo comprar que a ação que ele designa ocorreu no passado, ou seja, antes do momento em que a frase foi dita:

 

(1) Mario comprou uma vara de pesca.

 

A terminação -ou, que exprime esse passado, é adicionada à raiz verbal compr-, raiz de um verbo regular de primeira conjugação da língua. Sabemos das nossas aulas de português na escola que essa terminação não codifica somente o tempo passado, mas também outras coisas importantes, como a concordância com o sujeito, o aspecto e o modo, pelo menos.

 

As línguas do mundo variam no que diz respeito ao que “colocam” no verbo. Por exemplo, além do tempo e do aspecto, os verbos podem carregar concordâncias de sujeito e objeto – como é o caso da língua georgiana, língua caucasiana meridional falada na Geórgia. Podem expressar inúmeras coisas através de partículas ou morfemas acoplados: concordâncias, advérbios, objetos indiretos etc. – como é o caso da língua terena, língua aruak falada principalmente no Mato Grosso do Sul. Podem simplesmente não expressar tempo algum nem concordâncias com afixos, recorrendo, para a veiculação do tempo dos acontecimentos descritos, a advérbios ou partículas, que podem estar em outras partes da frase – como acontece com o mandarim, língua sino-tibetana falada por mais ou menos 850 milhões de pessoas na China. Contudo, grande parte das línguas estudadas pelos linguistas e antropólogos expressa alguma dimensão temporal no verbo [...].

   

Disponível em: https://lefufrj.wordpress.com/wp- content/uploads/2023/12/1702995734270_ebook_nos- linguistica.pdf. Acesso em: 04 de abr. de 2025.

Leia o Texto 3 para responder à questão

 

Texto 3

   

Para o desenvolvimento de um projeto de leitura com estudantes do ensino médio, a professora de língua portuguesa definiu todos os objetivos e todas as atividades a serem aplicadas, ao longo do trabalho, com base na concepção de leitura como processo de interação. Partindo desse pressuposto, ao encerrar as atividades do projeto, a professora realizou uma avaliação diagnóstica com os estudantes participantes, por meio da qual constatou que o projeto obteve sucesso em todos os objetivos traçados. Diante disso, é correto afirmar que, ao longo da aplicação do projeto,

  1. Aos estudantes foram levados, principalmente, a compreender, por meio de exercícios de leitura, como a linguagem constitui uma entidade capaz de encerrar e veicular todos os sentidos por si mesma.
  2. Bos estudantes foram conduzidos, principalmente, por práticas de leitura que exigiam a mobilização de seus conhecimentos prévios, como o conhecimento enciclopédico, para a construção dos sentidos.
  3. Cno projeto, predominaram os exercícios de leitura e de interpretação com o objetivo de alcançar o verdadeiro sentido do texto ou de compreender o que o autor pretendia dizer.
  4. Dos estudantes realizaram, sobretudo, atividades de reconhecimento detalhado a respeito dos elementos envolvidos na comunicação, como emissor, receptor, mensagem etc.
  5. Ea professora propôs, principalmente, práticas de leitura que estimularam a compreensão formal da linguagem, de modo que os estudantes alcançaram aptidão para a descrição morfológica e sintática da língua.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoB — os estudantes foram conduzidos, principalmente, por práticas de leitura que exigiam a mobilização de seus conhecimentos prévios, como o conhecimento enciclopédico, para a construção dos sentidos.

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Concepção de leitura como interação: o papel dos conhecimentos prévios

Gabarito: letra B. A alternativa correta é a que afirma que os estudantes foram conduzidos, principalmente, por práticas de leitura que exigiam a mobilização de seus conhecimentos prévios, como o conhecimento enciclopédico, para a construção dos sentidos. Isso decorre diretamente da concepção de leitura como processo de interação, mencionada no enunciado, que pressupõe a participação ativa do leitor, que traz seus saberes para dialogar com o texto. As demais alternativas ou contradizem essa concepção ou extrapolam o que o texto-base autoriza afirmar.

O comando da questão é claro: pede que se identifique o que é correto afirmar sobre o projeto de leitura, partindo do pressuposto de que ele foi baseado na concepção de leitura como processo de interação. Isso significa que a resposta deve ser uma consequência lógica e necessária dessa premissa, e não uma informação que precise ser buscada em outro lugar. A banca não pergunta o que o texto diz explicitamente, mas o que se pode inferir a partir da concepção adotada.

A concepção de leitura como interação é um marco teórico dos estudos da linguagem, associado a autores como Paulo Freire e à Linguística Textual. Ela se opõe à visão de que o sentido está pronto no texto, esperando apenas ser extraído pelo leitor. Pelo contrário, nessa concepção, o sentido é construído no encontro entre o texto, o autor e o leitor, que mobiliza seus conhecimentos de mundo, suas experiências e suas crenças para preencher as lacunas e estabelecer as relações necessárias à compreensão. O conhecimento enciclopédico é justamente o conjunto de saberes acumulados sobre o mundo, fundamental para que o leitor possa, por exemplo, entender uma referência histórica, uma ironia ou uma metáfora.

A técnica para resolver esta questão é testar cada alternativa perguntando: essa afirmação é uma consequência direta da concepção de leitura como interação? A alternativa B é a única que responde afirmativamente, pois a interação exige, por definição, a mobilização do repertório do leitor. As demais ou descrevem concepções opostas (como a de que o texto encerra todos os sentidos em si), ou apresentam práticas que não são o foco principal dessa abordagem, ou ainda fazem afirmações que o texto-base não sustenta.

1Interação (gabarito)
Leitor ativo
Mobiliza conhecimentos prévios
Constrói sentidos
2Decodificação (errada)
Leitor passivo
Sentido pronto no texto
Busca o "verdadeiro sentido"
3Foco gramatical (errada)
Descrição morfológica/sintática
Concepções de leitura
LEVELsoulevel.com.br
Concepções de leitura: Interação (gabarito) (Leitor ativo, Mobiliza conhecimentos prévios, Constrói sentidos); Decodificação (errada) (Leitor passivo, Sentido pronto no texto, Busca o "verdadeiro sentido"); Foco gramatical (errada) (Descrição morfológica/sintática)

Alternativa A — ❌ Incorreta

Esta alternativa contradiz a concepção de leitura como interação. Ela afirma que a linguagem é uma "entidade capaz de encerrar e veicular todos os sentidos por si mesma", o que é exatamente o oposto da ideia de que o sentido é construído na interação. Se o sentido já estivesse todo no texto, não haveria necessidade de o leitor mobilizar seus conhecimentos; bastaria uma leitura passiva de decodificação. A banca aqui explora a troca de conceito: apresenta uma visão de leitura como extração de sentido, que é justamente a que a concepção interacionista supera.

Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Esta é a única alternativa que é uma consequência lógica da premissa do enunciado. Se a leitura é um processo de interação, o leitor não é um receptor passivo, mas um sujeito ativo que mobiliza seus conhecimentos prévios para construir os sentidos. O conhecimento enciclopédico é um tipo específico de conhecimento prévio, relativo ao saber acumulado sobre o mundo, e é essencial para que o leitor possa fazer as inferências necessárias à compreensão. A alternativa parafraseia corretamente o que significa adotar essa concepção em um projeto de leitura.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Esta alternativa contradiz a concepção de interação ao afirmar que o objetivo é "alcançar o verdadeiro sentido do texto ou de compreender o que o autor pretendia dizer". Essa é uma visão de leitura como decodificação, em que há um sentido único e correto a ser descoberto. Na concepção interacionista, não há um "verdadeiro sentido" preexistente; há sentidos possíveis, construídos na interação entre texto, autor e leitor. A alternativa restringe o alcance da concepção, reduzindo-a a uma busca por uma verdade única.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Esta alternativa tangencia o tema. Embora os elementos da comunicação (emissor, receptor, mensagem etc.) sejam parte do estudo da linguagem, eles não são o foco principal de uma concepção de leitura como interação. Essa abordagem não se limita a um reconhecimento detalhado e mecânico desses elementos; ela se concentra no processo de construção de sentido, que envolve muito mais do que identificar quem fala e para quem. A alternativa fala de um assunto correlato, mas não é a consequência central da premissa dada.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Esta alternativa extrapola o que a concepção de interação autoriza. Ela afirma que as práticas estimularam a "compreensão formal da linguagem" e a "aptidão para a descrição morfológica e sintática da língua". Essa é uma visão de ensino de língua focada na gramática normativa, que não é o objetivo de um projeto baseado na leitura como interação. O foco dessa concepção é o sentido, e não a forma. A alternativa acrescenta uma opinião sobre o que seria o resultado do projeto, sem que o texto-base forneça qualquer base para isso.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão entre as diferentes concepções de leitura. As alternativas A e C descrevem a concepção de leitura como decodificação (sentido pronto no texto), que é justamente a que a concepção interacionista contesta. A alternativa E descreve um ensino focado na gramática formal, que também não é o foco da interação. A correta, B, é a única que descreve o papel ativo do leitor, que é a essência da interação.

PEGA ESSA DICA!

Ao se deparar com questões sobre concepções de leitura, identifique o papel do leitor em cada alternativa. Na concepção interacionista, o leitor é ativo e constrói o sentido; nas concepções tradicionais, ele é passivo e apenas extrai o sentido. A alternativa que descrever o leitor como ativo e construtor de sentido será a correta.

Gabarito: letra B. A questão testa a compreensão da concepção de leitura como interação, e a única alternativa que é uma consequência lógica dessa premissa é a que destaca a mobilização dos conhecimentos prévios do leitor para a construção dos sentidos.

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