Questão de Português — Figuras de Linguagem — Quadrix 2025
Português›Figuras de Linguagem
Código
qa675084
Banca
Quadrix
Órgão
SEE DF
Ano
2025
Cargo
Prof ST ( )
As órfãs faziam sinal‑da‑cruz, iam arranjar marido bom ou então uns desdentados, trolocutores surdos, bêbados, lobo nas ovelhas, caminho de espinhos, azemel de estrebaria, mulo namorado, fosse o que fosse, desde que dissesse: Senhora, quereis companhia? Ordenara a rainha que seriam uns gentilhomens.
Uma panela de comida num canto, meti as mãos e tirei um pedaço do guisado frio, comi numa ânsia de nunca ter sentido assim, tudo o que se havia preparado para umas mais três bocas, fome é um tipo de fogo que se acende no meio das gentes, que se ateia com tanto ímpeto que até os olhos ardem e resseca tudo por dentro e vai sendo uma faca que revira o dentro como se buscando o fio da vida e em nosso rosto se forma um diabólico labirinto, sonhamos com feiras e que se comeria um rato da lama, é fome feito um monstro que assenta em nosso ventre e nos rasga estripando, com suas garras longas, língua asquerosa de lagarta, se branqueteia de nós, sugando nossa força e nossa razão, que perdemos de arrazoar e fracas estimativas, é como cem anos de inferno, uma dor incomparável, uma coisa tão lastimosa de se sentir que não há homem que a possa dissimular. Por medo da fome, da orfandade, do abandono, quis que tornasse Francisco de Albuquerque.
MIRANDA, Ana. Desmundo. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.
Em “Desmundo”, de Ana Miranda, Oribela, órfã portuguesa enviada ao Brasil em 1555 para se casar com um colono, revela‑se um contexto de violência. A partir dessa informação, em relação ao texto, aos seus aspectos estéticos e aos movimentos literários brasileiros, julgue o item a seguir. No segundo parágrafo, a linguagem conotativa, carregada de metáforas e comparações, reforça a intensidade das sensações da personagem acerca da fome.
CCerto
EErrado
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GabaritoC — Certo
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Linguagem conotativa e figuras de linguagem em "Desmundo"
Gabarito: C (Certo). O item está correto porque o segundo parágrafo do texto é construído com linguagem conotativa, repleta de metáforas e comparações que intensificam a descrição da fome, como se vê em trechos como "fome é um tipo de fogo que se acende no meio das gentes" e "é fome feito um monstro que assenta em nosso ventre". A banca pede que o candidato reconheça o efeito expressivo dessas figuras, e o texto as utiliza justamente para reforçar a intensidade das sensações da personagem.
O comando da questão
O enunciado pede um julgamento (Certo/Errado) sobre uma afirmação a respeito do texto. A afirmação é: "No segundo parágrafo, a linguagem conotativa, carregada de metáforas e comparações, reforça a intensidade das sensações da personagem acerca da fome." Para resolver, é preciso verificar se o segundo parágrafo realmente apresenta linguagem figurada (conotativa) e se ela tem a função de intensificar as sensações. Não se trata de inferir algo além do texto, mas de reconhecer o que está explícito na construção linguística.
O texto e a tese
O segundo parágrafo descreve a experiência da fome de forma altamente expressiva. A personagem não diz apenas "estou com fome"; ela transforma a fome em uma experiência sensorial e emocional avassaladora. Vejamos os recursos:
Metáfora: "fome é um tipo de fogo que se acende no meio das gentes" — a fome é comparada ao fogo, sem conectivo comparativo, criando uma imagem de algo que queima e se espalha.
Comparação: "é fome feito um monstro que assenta em nosso ventre" — aqui há o conectivo "feito", estabelecendo uma comparação explícita entre a fome e um monstro.
Outras imagens: "uma faca que revira o dentro", "um diabólico labirinto", "cem anos de inferno" — todas são metáforas que ampliam a sensação de dor e desespero.
Essas figuras não são meramente decorativas; elas reforçam a intensidade do que a personagem sente, tornando a fome algo quase palpável e monstruoso. O texto diz:
"fome é um tipo de fogo que se acende no meio das gentes, que se ateia com tanto ímpeto que até os olhos ardem e resseca tudo por dentro e vai sendo uma faca que revira o dentro como se buscando o fio da vida"
Aqui, a metáfora do fogo e da faca cria uma sinestesia (sensações que se misturam) e uma hipérbole (exagero), intensificando o sofrimento. Portanto, a afirmação do item é uma paráfrase fiel do que o texto apresenta.
A técnica para resolver
Em questões de figuras de linguagem, o primeiro passo é identificar se a palavra ou expressão está em sentido denotativo (literal) ou conotativo (figurado). No trecho, "fogo", "faca", "monstro" não são usados em seu sentido literal; são metáforas que transferem qualidades de um ser para outro. A presença de conectivos como "feito" indica comparação (símile). A função dessas figuras é expressiva: elas criam imagens que intensificam a emoção.
Linguagem conotativa: Metáfora ("fome é um tipo de fogo", "uma faca que revira o dentro"); Comparação ("feito um monstro"); Efeito expressivo (Intensifica sensações, Torna a fome palpável)
Análise das alternativas
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa C afirma que a linguagem conotativa, com metáforas e comparações, reforça a intensidade das sensações. Isso é comprovado pelo texto:
"fome é um tipo de fogo que se acende no meio das gentes" (metáfora) "é fome feito um monstro que assenta em nosso ventre" (comparação)
Essas figuras ampliam a percepção da fome, tornando-a algo devastador. O item está certo.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A alternativa E nega a afirmação, mas o texto contradiz essa negação. O segundo parágrafo é um dos trechos mais conotativos do romance, com uma sucessão de metáforas e comparações. Não há como ler o parágrafo e concluir que a linguagem é denotativa ou que as figuras não reforçam as sensações. A alternativa E contradiz o texto.
Conclusão
A questão é de reconhecimento de figuras de linguagem e seu efeito. A resposta correta é a letra C, pois o texto é inequívoco ao usar metáforas e comparações para intensificar a descrição da fome. Fique atento: em questões de linguagem figurada, desconfie de alternativas que tentem negar a presença de figuras ou que as tratem como meros enfeites sem função expressiva.