Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — Quadrix 2025
Português›Interpretação de Textos (Compreensão)
Código
qa675086
Banca
Quadrix
Órgão
SEE DF
Ano
2025
Cargo
Prof ST ( )
As órfãs faziam sinal‑da‑cruz, iam arranjar marido bom ou então uns desdentados, trolocutores surdos, bêbados, lobo nas ovelhas, caminho de espinhos, azemel de estrebaria, mulo namorado, fosse o que fosse, desde que dissesse: Senhora, quereis companhia? Ordenara a rainha que seriam uns gentilhomens.
Uma panela de comida num canto, meti as mãos e tirei um pedaço do guisado frio, comi numa ânsia de nunca ter sentido assim, tudo o que se havia preparado para umas mais três bocas, fome é um tipo de fogo que se acende no meio das gentes, que se ateia com tanto ímpeto que até os olhos ardem e resseca tudo por dentro e vai sendo uma faca que revira o dentro como se buscando o fio da vida e em nosso rosto se forma um diabólico labirinto, sonhamos com feiras e que se comeria um rato da lama, é fome feito um monstro que assenta em nosso ventre e nos rasga estripando, com suas garras longas, língua asquerosa de lagarta, se branqueteia de nós, sugando nossa força e nossa razão, que perdemos de arrazoar e fracas estimativas, é como cem anos de inferno, uma dor incomparável, uma coisa tão lastimosa de se sentir que não há homem que a possa dissimular. Por medo da fome, da orfandade, do abandono, quis que tornasse Francisco de Albuquerque.
MIRANDA, Ana. Desmundo. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.
Em “Desmundo”, de Ana Miranda, Oribela, órfã portuguesa enviada ao Brasil em 1555 para se casar com um colono, revela‑se um contexto de violência. A partir dessa informação, em relação ao texto, aos seus aspectos estéticos e aos movimentos literários brasileiros, julgue o item a seguir. Neste trecho de “Desmundo”, a narrativa, ao apresentar a condição da mulher, rompe com a idealização da colônia como um paraíso, presente no início da Carta de Pero Vaz de Caminha, ao descrever a chegada dos portugueses às nossas terras.
CCerto
EErrado
Revelar gabarito e comentário▾
GabaritoC — Certo
Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.
A condição da mulher em "Desmundo" e a ruptura com a idealização colonial
Gabarito: Certo (C). O trecho de Ana Miranda, ao retratar a fome, a orfandade e a submissão das órfãs ao casamento imposto, rompe com a visão paradisíaca da colônia presente na Carta de Caminha. A passagem "Ordenara a rainha que seriam uns gentilhomens" e a descrição da fome como "um tipo de fogo que se acende no meio das gentes" evidenciam a violência e a precariedade que marcam a experiência feminina, em contraposição ao discurso inaugural de exaltação da terra.
O comando da questão
A questão pede um julgamento (Certo/Errado) sobre uma afirmação interpretativa que relaciona o texto de Ana Miranda à Carta de Pero Vaz de Caminha. Não se trata de localizar uma informação explícita, mas de inferir se a narrativa, ao apresentar a condição da mulher, desconstrói a idealização da colônia. O verbo "rompe" é a chave: exige que se perceba uma oposição entre dois discursos — o do descobrimento (ufanista) e o do romance contemporâneo (crítico).
O texto: tema, tese e movimento argumentativo
O fragmento de Desmundo apresenta Oribela, órfã portuguesa enviada ao Brasil para casar-se com um colono. A tese implícita é a denúncia da violência estrutural contra a mulher: elas são tratadas como mercadoria, "desde que dissesse: Senhora, quereis companhia?". A fome é descrita com imagens brutais — "fome é um tipo de fogo", "uma faca que revira o dentro", "um monstro que assenta em nosso ventre" —, revelando a precariedade da vida colonial, bem distante do paraíso anunciado por Caminha.
A Carta de Caminha, por sua vez, inaugura o discurso de idealização da terra: o Brasil é apresentado como um Éden, com natureza exuberante e habitantes inocentes. O romance de Ana Miranda, escrito no século XX, dialoga criticamente com esse discurso, mostrando o avesso da colonização: a exploração, a fome e a violência de gênero.
A técnica: intertextualidade e contraposição
A questão explora a intertextualidade — o diálogo entre textos. Para resolvê-la, é preciso reconhecer que Desmundoretoma a Carta de Caminha para subvertê-la. Enquanto Caminha exalta a terra, Miranda denuncia suas mazelas. Essa contraposição é o núcleo da afirmação: a narrativa de Miranda rompe com a idealização, pois apresenta a colônia como espaço de sofrimento, não de paraíso.
"Ordenara a rainha que seriam uns gentilhomens."
Aqui, a ironia: as órfãs não escolhem seus maridos; a rainha decide por elas. A condição feminina é de submissão, não de liberdade. Isso contrasta com a imagem idílica da Carta, em que a terra é generosa e acolhedora.
Análise da assertiva
Intertextualidade crítica: Carta de Caminha (discurso inaugural) (Idealização da terra (Éden), Natureza exuberante, Habitantes inocentes); Desmundo (romance contemporâneo) (Denúncia da violência, Fome e precariedade, Submissão feminina); Efeito (Rompe com a visão paradisíaca, Contrapõe sofrimento ao paraíso)
Assertiva — ✅ Certo
A afirmação está correta. O texto de Miranda, ao apresentar a condição da mulher — órfã, faminta, obrigada a casar-se com desconhecidos —, desconstrói a idealização da colônia. A passagem "fome é um tipo de fogo que se acende no meio das gentes" é a antítese do paraíso: não há abundância, há escassez. A violência é explícita: "lobo nas ovelhas", "caminho de espinhos", "azemel de estrebaria" — metáforas que degradam os possíveis maridos e, por extensão, a vida colonial.
A Carta de Caminha é o contraponto: nela, a terra é "tal que, se a quiserem aproveitar, dar-se-á nela tudo". O romance de Miranda responde a esse discurso mostrando que a "terra prometida" é, para as mulheres, um inferno de fome e submissão. Portanto, a narrativa rompe com a idealização, confirmando a assertiva.
PEGA ESSA DICA!
Em questões de intertextualidade, identifique o discurso original (Caminha) e o discurso crítico (Miranda). A resposta está na oposição entre eles.
Conclusão
A assertiva está certa porque o texto de Ana Miranda, ao retratar a violência contra a mulher, contradiz a visão paradisíaca da colônia presente na Carta de Caminha. A intertextualidade é crítica, não celebratória.