Questão de Português — Linguagem Formal e Informal — ACAFE 2025
- Código
- qa677131
- Banca
- ACAFE
- Órgão
- CM Chapecó
- Ano
- 2025
- Cargo
- Ass ( )
A última vez em que não tive escolha
Minha mãe repete com uma certa frequência que eu vou ser pra sempre o bebê dela — sem se preocupar com a veracidade dessa promessa simbólica. Eu costumava responder relutante: "Já sou bem grandinha", numa tolice clássica. Até me encantava com o Peter Pan, mas me sentia muito diferente dele — não via a hora de crescer!
Afinal, "não posso ficar nessa casa!". Eu reclamava como qualquer pré-adolescente. E de fato, não podia mesmo: nem bem eu queria, não podia pintar o cabelo, não podia ouvir música alta. Ah, que tortura, a lição de obediência...
Foi quando decidi pela desobediência. Uma decisão incomum para a filha que nunca deu trabalho. Por quasedois anos, menti dezenas de vezes para os meus pais, coitados.
A rebeldia não durou muito, mas atendeu — e concordou um pouco — com a raiz daquelas atitudes duvidosas: não era rebeldia sem motivo. Era apenas a incerteza de acreditar que crescer seria o fim dos meus problemas.
Os adultos me fizeram compreender melhor as desvantagens da vida adulta. Recentemente, estava emalta nas redes sociais por zombarem da CLT. Me parecia uma tendência elitista e cínica dos trabalhadores, mas que expressava inconsciente a percepção de que jornadas exaustivas e um salário mínimo não valem o esforço.
No auge dos meus 14 anos, não pensava nisso. Não acreditava em fardas, mas em uma liberdade ilusória. Mal podia imaginar que a vida nos oferece um número limitado de escolhas, e que até elas podem se tornar prisões. Hoje, peço humildemente: "Mãe, você pode me dizer o que fazer?". E a sua resposta letal é: "A escolha é sua".
KELLY, Sarah. A última vez em que não tive escolha. In: UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO. Livros Abertos USP: coletânea de textos literários contemporâneos. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2022. Disponível em: https://www.livrosabertos.abcd.usp.br portaldelivrosUSP/catalog/view/1 691/1544/6178 . Acesso em: 4 nov. 2025.
- AA linguagem empregada aproxima-se da modalidade coloquial monitorada, pois equilibra marcas de oralidade e escolhas lexicais afetivas com a estrutura sintática própria da norma culta, conferindo naturalidade e expressividade sem afastar-se do padrão escrito formal.
- BO texto caracteriza-se pelo nível popular de linguagem, em que predominam desvios gramaticais, regionalismos e construções sintáticas não convencionais, resultando em um discurso espontâneo que se afasta da norma-padrão.
- CA autora recorre à modalidade técnica da língua, característica de textos informativos e científicos, a fim de conferir objetividade à reflexão sobre o amadurecimento e garantir neutralidade semântica em relação à experiência pessoal narrada.
- DA presença de expressões afetivas e de pronomes de tratamento familiares, como "bebê dela", constitui evidência do registro solene da linguagem, empregado para ressaltar a hierarquia simbólica e a distância emocional entre os interlocutores.