Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — Legalle 2025
- Código
- qa677338
- Banca
- Legalle
- Órgão
- Pref Portão
- Ano
- 2025
- Cargo
- Farm ( )
Considere o texto a seguir para responder a questão
Sebastião Salgado deixa para nós os seus olhos pesados de lágrimas
Os olhos azuis oceânicos, debaixo de tufos de sobrancelhas grisalhas, quase ruivas, caracterizavam a lente humana mais majestosa e universal que já existiu na fotografia mundial. O mineiro de Aimorés, Sebastião Salgado, fez o mundo piscar de modo distinto depois de suas pálpebras.
Ele se despede, aos 81 anos, com um trabalho documental que conseguiu a proeza de ser, ao mesmo tempo, transgressor e clássico. Trouxe ____ fotografia o projeto coletivo dos murais de Candido Portinari. Na essência, era um Caravaggio da gelatina de prata, do papel fotográfico, mestre do claro-escuro, instaurando o barroco na captação crua das cenas.
Assim como em Caravaggio, ____ luz recai sobre os invisíveis - os pobres, os errantes, os exilados, os esquecidos - com uma expressividade humanista e dramática.
Sua única professora foi a realidade, com seus contrastes e exuberâncias, suas misérias e rostos impregnados de compaixão. Formado em Economia, mas autodidata na arte, começou ____ fotografar em 1973, aos quase 30 anos, misturando-se em unha e carne aos seus fotografados.
Seu olhar não era de fora, mas de dentro. Não agia como um observador distante, neutro, que clica e desaparece. Daí a explicação para seus registros íntimos, como se fossem autorretratos dos excluídos. Sua aflição existencial tornou-se sua estética. Não explorava o outro, adaptava-se ____ convivência, fundia-se ao outro. Não se resumia a um fantasma entre os vivos, era um vivo que mandava notícias do reino dos fantasmas da sociedade.
Abordou as migrações, as profundas desigualdades financeiras, a dizimação dos povos originários, a devastação das florestas, o colapso climático, a escalada desenfreada do consumo e do processo industrial.
Não procurava apontar as diferenças folclóricas entre as mais remotas culturas, mas identificar o que havia de comum entre todas elas: a dignidade apesar da desolação. Ele converteu as cores gritantes e insuportáveis da dor na suavidade biblica do preto e branco. Denunciou o apocalipse e a extinção da nossa espécie pela ganância e soberba.
Suas imagens já integram o nosso inconsciente coletivo: o verdadeiro formigueiro humano da mina de ouro de Serra Pelada, no Estado do Pará (Curionópolis); os três jovens trabalhadores rurais com as faces escurecidas de lama, os pescadores de atum na região da Sicília com as cestas vazias na cabeça; os garimpeiros nas minas de enxofre da lndonésia; os refugiados de origem africana acampados em condições precárias, e outras obras.
Percorreu mais de 130 países, criando exposições e livros que marcaram a história: Trabalhadores, Gênesis e Êxodos.
Deixa para nós os seus olhos pesados de lágrimas. Sangue de nosso sangue, águas de nossas águas.
Autor: Fabrício Carpinejar (com adaptaçôes).
Considerando os recursos expressivos e os conteúdos desenvolvidos no texto sobre Sebastião Salgado, analise as afirmativas a seguir:
I. O primeiro parágrafo tem caráter predominantemente objetivo, voltado à apresentação cronológica da carreira de Sebastião Salgado.
Il. A comparação com Candido Portinari e Caravaggio posiciona Salgado como um artista que dialoga com grandes mestres da arte, reafirmando seu lugar no campo cultural e simbólico.
III. O texto atribui à realidade a função de mestra na formação artistica de Sebastião Salgado, indicando que sua arte foi forjada na vivência concreta e nao em instituições formais.
Está(ão) CORRETA(S):
- AI, Il e III.
- BApenas I e II.
- CApenas Il e III.
- DApenas III.
- EApenas II.