Questão de Medicina — Gastroenterologia — Avança SP 2024
Medicina›Gastroenterologia
Código
qg080774
Banca
Avança SP
Órgão
FSPSS
Ano
2024
Nível
Superior
Cargo
Médico Especialista (Gastroenterologista)
Paciente de 35 anos, sexo masculino, relata episódios frequentes de dor abdominal em quadrante superior direito, náuseas e vômitos após refeições gordurosas. Exames laboratoriais e de imagem não evidenciam coledocolitíase. Qual o diagnóstico mais provável?
AColecistite aguda.
BPancreatite aguda.
CDiscinesia biliar.
DÚlcera péptica.
EDoença inflamatória intestinal.
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GabaritoC — Discinesia biliar.
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Discinesia biliar: diagnóstico diferencial da dor biliar
Gabarito: letra C. A discinesia biliar é o diagnóstico mais provável porque o paciente apresenta dor biliar típica (QSD, pós-prandial, associada a refeições gordurosas) com exames de imagem e laboratoriais sem evidência de coledocolitíase ou outras causas orgânicas — o que caracteriza um distúrbio funcional da vesícula biliar, não uma doença estrutural. A colecistite aguda (A) exigiria sinais inflamatórios como febre e sinal de Murphy; a pancreatite aguda (B) cursaria com dor epigástrica intensa e enzimas pancreáticas elevadas; a úlcera péptica (D) tem dor em queimação epigástrica com ritmo relacionado à acidez; e a doença inflamatória intestinal (E) manifesta-se com diarreia e dor abdominal difusa, não com padrão biliar.
A discinesia biliar, também chamada de disfunção da vesícula biliar ou doença biliar acalculosa, é um distúrbio funcional caracterizado por dor biliar recorrente na ausência de cálculos biliares, lama biliar, coledocolitíase ou outras anormalidades estruturais. O diagnóstico é essencialmente clínico, apoiado por exames que excluem causas orgânicas, e pode ser confirmado por cintilografia hepatobiliar (HIDA scan) com colecistocinina, que demonstra fração de ejeção da vesícula biliar reduzida (geralmente < 40%). A fisiopatologia envolve uma alteração na motilidade da vesícula biliar ou do esfíncter de Oddi, levando a um esvaziamento inadequado e à dor.
O quadro clínico clássico é a dor no quadrante superior direito ou epigástrio, frequentemente desencadeada por refeições gordurosas, acompanhada de náuseas e vômitos. A dor é descrita como em cólica, pode irradiar para o dorso ou região infraescapular direita e dura de 30 minutos a algumas horas. Diferentemente da colecistite aguda, não há febre, leucocitose ou sinais de irritação peritoneal. A ausência de coledocolitíase nos exames de imagem (ultrassonografia, tomografia ou colangioressonância) é um dado crucial que direciona o diagnóstico para a discinesia biliar.
A distinção entre discinesia biliar e colecistite aguda é fundamental. A colecistite aguda é uma inflamação da vesícula biliar, geralmente causada por obstrução do ducto cístico por um cálculo, e se apresenta com dor persistente, febre, sinal de Murphy positivo e alterações inflamatórias nos exames laboratoriais (leucocitose) e de imagem (espessamento da parede vesicular, líquido perivesicular). A discinesia biliar, por outro lado, é um distúrbio funcional sem inflamação, com exames de imagem normais. A pancreatite aguda, por sua vez, é uma inflamação do pâncreas que causa dor epigástrica intensa com irradiação em faixa para o dorso, náuseas e vômitos, e elevação de amilase e lipase — achados ausentes neste paciente.
A banca explora a pegadinha de associar dor pós-prandial com refeições gordurosas exclusivamente à colecistite ou à cólica biliar, mas a ausência de achados inflamatórios e de coledocolitíase nos exames é o diferencial que aponta para a discinesia biliar. O candidato deve lembrar que a dor biliar pode ocorrer sem litíase, e que a discinesia biliar é um diagnóstico de exclusão que se encaixa perfeitamente neste cenário clínico.
Dor biliar
1Com causa orgânica
Colecistite aguda (inflamação, Murphy +)
Coledocolitíase (cálculo no ducto)
2Sem causa orgânica
Discinesia biliar (distúrbio funcional)
Dor típica + exames normais
Confirmação: HIDA com colecistocinina
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Alternativa A — ❌ Incorreta
A colecistite aguda é uma inflamação da vesícula biliar, geralmente associada a cálculos, que cursa com dor persistente no QSD, febre, sinal de Murphy positivo e alterações inflamatórias (leucocitose, espessamento da parede vesicular na ultrassonografia). O paciente não apresenta febre nem sinais de irritação peritoneal, e os exames de imagem não evidenciam coledocolitíase — mas a colecistite aguda seria visível na ultrassonografia, com espessamento da parede e líquido perivesicular. A ausência desses achados afasta o diagnóstico.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A pancreatite aguda é uma inflamação do pâncreas que causa dor epigástrica intensa, frequentemente com irradiação em faixa para o dorso, náuseas e vômitos, e elevação de amilase e lipase. A dor é mais central, não localizada no QSD, e os exames laboratoriais mostrariam enzimas pancreáticas elevadas — o que não é descrito no enunciado. A relação com refeições gordurosas é menos específica, sendo o álcool e a litíase biliar as causas mais comuns.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A discinesia biliar é um distúrbio funcional da vesícula biliar caracterizado por dor biliar típica (QSD, pós-prandial, desencadeada por refeições gordurosas) na ausência de cálculos, lama biliar, coledocolitíase ou outras anormalidades estruturais. O paciente preenche exatamente esses critérios: dor no QSD, náuseas e vômitos após refeições gordurosas, e exames de imagem e laboratoriais sem evidência de coledocolitíase. O diagnóstico é de exclusão, podendo ser confirmado por cintilografia hepatobiliar com colecistocinina, que mostra fração de ejeção da vesícula biliar reduzida.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A úlcera péptica causa dor epigástrica em queimação, com ritmo relacionado à acidez gástrica (piora em jejum ou 2-4 horas após refeições, aliviada por alimentos ou antiácidos). A dor não é tipicamente desencadeada por refeições gordurosas nem localizada no QSD, e não há relação com náuseas e vômitos pós-prandiais de padrão biliar. A ausência de sintomas como melena ou hematêmese também não favorece o diagnóstico.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A doença inflamatória intestinal (doença de Crohn e retocolite ulcerativa) manifesta-se com diarreia crônica, dor abdominal difusa, perda de peso e, frequentemente, sangramento retal. A dor não tem o padrão biliar típico (QSD, pós-prandial, desencadeada por gordura), e não há relação com náuseas e vômitos após refeições gordurosas. Os exames de imagem e laboratoriais descritos não são compatíveis com o quadro.