Questão de Medicina — Gastroenterologia — Avança SP 2024
Medicina›Gastroenterologia
Código
qg082087
Banca
Avança SP
Órgão
IAMSPE
Ano
2024
Nível
Superior
Cargo
Pré-requisito - Cirurgia Geral - Mastologia
Paciente de 55 anos de idade realizou endoscopia digestiva alta com achado de numerosos pólipos em primeiro, segunda e terceira porção duodenal. Realizado biopsia, com achados de diferentes graus de displasia.A conduta apropriada é:
AApenas seguimento clínico dado ao baixo risco de malignização.
BRealização de endoscopias mensais para biópsias seriadas.
CTratamento com inibidor de bomba de próton em alta dose.
DRealização de gastroduodenopancreatectomia.
EMucosectomia total duodenal com preservação de papila.
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GabaritoD — Realização de gastroduodenopancreatectomia.
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Polipose duodenal: conduta na síndrome de polipose adenomatosa familiar
Gabarito: letra D. O quadro de numerosos pólipos duodenais com displasia em diferentes graus, em paciente com provável polipose adenomatosa familiar (PAF), configura doença duodenal avançada (estágio IV de Spigelman), cuja conduta é a ressecção cirúrgica radical — a gastroduodenopancreatectomia (procedimento de Whipple). As demais opções (seguimento clínico, endoscopias mensais, IBP em alta dose e mucosectomia total) não são adequadas para o estágio avançado com displasia de alto grau, que apresenta alto risco de malignização.
A polipose adenomatosa familiar (PAF) é uma síndrome hereditária autossômica dominante, causada por mutação no gene APC, caracterizada pelo desenvolvimento de centenas a milhares de pólipos adenomatosos no cólon e, também, no trato gastrointestinal superior, especialmente no duodeno. A doença duodenal é a segunda causa de morte em pacientes com PAF que foram submetidos à colectomia profilática, perdendo apenas para o câncer colorretal. O risco de adenocarcinoma duodenal ao longo da vida nesses pacientes é de 3% a 5%, o que justifica vigilância endoscópica periódica.
A classificação de Spigelman é o sistema mais utilizado para estratificar o risco de malignização da polipose duodenal, baseando-se em quatro critérios: número de pólipos, tamanho, histologia (vilosa ou tubular) e grau de displasia. Cada critério recebe de 1 a 3 pontos, e a soma define os estágios:
Cirurgia (gastroduodenopancreatectomia ou duodenectomia)
O enunciado descreve "numerosos pólipos" nas três porções do duodeno, com "diferentes graus de displasia" — o que, na prática, corresponde a um estágio avançado (III ou IV). A presença de displasia de alto grau, em particular, é um forte preditor de progressão para adenocarcinoma, e a literatura recomenda intervenção cirúrgica profilática nesses casos. A gastroduodenopancreatectomia (cirurgia de Whipple) é o procedimento de escolha quando há doença extensa, displasia de alto grau ou carcinoma já estabelecido, pois permite a ressecção completa do duodeno e da cabeça do pâncreas, com reconstrução do trânsito digestivo.
A mucosectomia total duodenal com preservação da papila (alternativa E) é uma técnica endoscópica que pode ser considerada em casos selecionados de doença limitada, sem displasia de alto grau e com pólipos passíveis de ressecção completa. No entanto, quando há pólipos numerosos e difusos, com displasia de diferentes graus (incluindo alto grau), a ressecção endoscópica não é capaz de garantir a erradicação completa da mucosa em risco, e a cirurgia radical é a conduta mais segura. A preservação da papila seria tecnicamente difícil e arriscada em um campo tão extenso de pólipos.
A alternativa A (seguimento clínico) ignora o risco de malignização, que é real e significativo na doença avançada. A alternativa B (endoscopias mensais) é um intervalo excessivamente curto e não muda a história natural da doença — a vigilância, por mais frequente, não previne a progressão para câncer quando já há displasia de alto grau. A alternativa C (IBP em alta dose) não tem papel no tratamento da polipose duodenal; os inibidores de bomba de prótons são usados para reduzir a secreção ácida gástrica, mas não têm efeito sobre pólipos adenomatosos duodenais.
A pegadinha central desta questão é a tentação de escolher uma conduta menos agressiva (como seguimento ou mucosectomia) diante de um achado endoscópico que, na verdade, exige cirurgia radical. O candidato deve reconhecer que a combinação de pólipos numerosos + displasia de alto grau = estágio avançado = indicação cirúrgica.
Polipose duodenal na PAF
1Classificação de Spigelman
Estágios 0–II
Vigilância endoscópica
Estágio III
Endoscopia anual
Considerar ressecção endoscópica
Estágio IV
Cirurgia radical
2Indicação cirúrgica
Pólipos numerosos e difusos
Displasia de alto grau
Carcinoma estabelecido
3Procedimentos
Gastroduodenopancreatectomia (Whipple)
Duodenectomia
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Alternativa A — ❌ Incorreta
O seguimento clínico isolado é inadequado. A presença de displasia de alto grau em múltiplos pólipos duodenais confere alto risco de progressão para adenocarcinoma, e a conduta expectante não é aceitável nesse cenário. A vigilância endoscópica é indicada apenas para estágios iniciais (Spigelman 0–II), sem displasia de alto grau.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Endoscopias mensais com biópsias seriadas não são a conduta apropriada. Esse intervalo é excessivamente curto e não oferece benefício terapêutico — apenas diagnóstico. A vigilância endoscópica, mesmo em estágios avançados, não previne a progressão para câncer quando já há displasia de alto grau; a ressecção cirúrgica é necessária.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Inibidor de bomba de prótons em alta dose não tem efeito sobre pólipos adenomatosos duodenais. O IBP reduz a secreção ácida gástrica e é usado no tratamento de doença ulcerosa péptica, refluxo gastroesofágico e dispepsia, mas não interfere na carcinogênese da polipose duodenal. Não há evidência de que previna ou trate a displasia.
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A gastroduodenopancreatectomia (cirurgia de Whipple) é a conduta apropriada para doença duodenal avançada na PAF, especialmente com displasia de alto grau. O procedimento remove o duodeno, a cabeça do pâncreas e a porção distal do estômago, com reconstrução em Y de Roux, eliminando a mucosa em risco de malignização. É a única opção que oferece tratamento curativo ou profilático efetivo nesse estágio.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A mucosectomia total duodenal com preservação da papila é uma técnica endoscópica que pode ser considerada em casos selecionados de doença limitada, sem displasia de alto grau. No entanto, com pólipos numerosos e difusos nas três porções duodenais e displasia de diferentes graus, a ressecção endoscópica não garante a erradicação completa da mucosa em risco, e a preservação da papila seria tecnicamente inviável. A cirurgia radical é a conduta mais segura.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a tentação de escolher uma conduta menos agressiva (seguimento, endoscopia frequente, IBP ou mucosectomia) diante de um quadro que, na verdade, exige cirurgia radical. O gatilho é a combinação "numerosos pólipos + displasia de alto grau" — isso configura estágio avançado de Spigelman, com alto risco de malignização, e a única opção que trata efetivamente é a gastroduodenopancreatectomia. Memorize: displasia de alto grau em polipose duodenal = cirurgia.