Questão de Medicina — Doenças Infecto-Parasitárias — Avança SP 2024
Medicina›Doenças Infecto-Parasitárias
Código
qg082099
Banca
Avança SP
Órgão
IAMSPE
Ano
2024
Nível
Superior
Cargo
Pré-requisito - Cirurgia Geral - Programa Avançado
Um paciente de 45 anos apresenta-se com paralisia facial completa à direita, de início súbito há 72 horas, associada a otalgia ipsilateral e disgeusia. O exame físico revela ausência total de movimento facial à direita, incluindo a fronte, e vesículas no conduto auditivo externo direito. Considerando a síndrome de Ramsay Hunt como diagnóstico provável, qual das seguintes afirmações melhor descreve a avaliação e manejo deste quadro?
AA detecção do DNA do vírus varicela-zoster por PCR no líquor tem sensibilidade superior a 95% nas primeiras 72 horas da doença, sendo essencial para confirmar o diagnóstico e iniciar o tratamento antiviral.
BA eletroneurografia facial realizada no 4º dia de evolução, demonstrando degeneração de mais de 90% das fibras nervosas, é preditiva de recuperação funcional completa em até 6 meses com terapia combinada de antiviral e corticosteroide.
CO teste de excitabilidade nervosa (NET) realizado nas primeiras 72 horas, mostrando inexcitabilidade total do nervo facial, indica necessidade de descompressão cirúrgica imediata do nervo facial em seu segmento labiríntico para otimizar o prognóstico.
DA ressonância magnética com sequências 3D-FLAIR e difusão pode demonstrar realce e restrição à difusão no gânglio geniculado e no labirinto, sendo útil para diferenciar a síndrome de Ramsay Hunt da paralisia de Bell nas fases iniciais.
EA presença de anticorpos IgM anti-VZV no soro, associada a um escore de HouseBrackmann grau VI, é indicativa de reativação viral secundária e está associada a um prognóstico favorável, com recuperação completa em mais de 80% dos casos.
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GabaritoD — A ressonância magnética com sequências 3D-FLAIR e difusão pode demonstrar realce e restrição à difusão no gânglio geniculado e no labirinto, sendo útil para diferenciar a síndrome de Ramsay Hunt da paralisia de Bell nas fases iniciais.
Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.
Síndrome de Ramsay Hunt: avaliação e manejo
Gabarito: letra D. A ressonância magnética com sequências 3D-FLAIR e difusão pode demonstrar realce e restrição à difusão no gânglio geniculado e no labirinto, sendo útil para diferenciar a síndrome de Ramsay Hunt da paralisia de Bell nas fases iniciais. As demais alternativas contêm erros conceituais ou de conduta que as tornam incorretas, como veremos em detalhe.
A síndrome de Ramsay Hunt é uma complicação da reativação do vírus varicela-zoster (VZV) que permanece latente no gânglio geniculado do nervo facial (VII par craniano). A reativação viral causa inflamação e dano ao gânglio e ao nervo, resultando na tríade clássica: paralisia facial periférica ipsilateral, otalgia e vesículas no pavilhão auricular ou conduto auditivo externo. O diagnóstico é essencialmente clínico, baseado na presença desses três elementos, e o tratamento deve ser iniciado precocemente com antiviral (aciclovir ou valaciclovir) associado a corticosteroide, idealmente nas primeiras 72 horas de sintomas, para melhorar o prognóstico de recuperação.
A importância do diagnóstico diferencial com a paralisia de Bell reside no fato de que ambas cursam com paralisia facial periférica aguda, mas a Ramsay Hunt tem pior prognóstico e maior taxa de sequelas. A paralisia de Bell é idiopática (provável etiologia viral, especialmente herpes simples), não apresenta vesículas e tem melhor recuperação espontânea. A presença de vesículas no ouvido é o achado que praticamente fecha o diagnóstico de Ramsay Hunt, mas em cerca de 10-15% dos casos as vesículas podem aparecer após a paralisia (zoster sine herpete), o que torna os exames complementares úteis em situações atípicas.
A ressonância magnética (RM) é o exame de imagem mais sensível para avaliar o nervo facial e as estruturas adjacentes. Nas fases iniciais da Ramsay Hunt, a RM com sequências 3D-FLAIR e difusão pode demonstrar realce pelo contraste no gânglio geniculado e restrição à difusão no labirinto (cóclea e vestíbulo), refletindo o processo inflamatório viral. Esses achados ajudam a diferenciar a Ramsay Hunt da paralisia de Bell, que tipicamente não apresenta restrição à difusão labiríntica. A alternativa D descreve corretamente esse papel da RM, sendo a única afirmação tecnicamente precisa entre as opções.
A avaliação prognóstica da paralisia facial periférica utiliza testes eletrofisiológicos, como a eletroneurografia (ENoG) e o teste de excitabilidade nervosa (NET). A ENoG mede a degeneração axonal (walleriana) comparando o lado afetado com o sadio; quando a degeneração ultrapassa 90% nos primeiros 14 dias, o prognóstico é reservado, com recuperação incompleta mesmo com tratamento. O NET avalia o limiar de excitabilidade do nervo; a inexcitabilidade total indica degeneração grave, mas não é indicação de descompressão cirúrgica imediata, que permanece controversa e não é recomendada rotineiramente. A alternativa B erra ao afirmar que degeneração >90% prediz recuperação completa; na verdade, prediz mau prognóstico. A alternativa C erra ao indicar descompressão cirúrgica imediata com base no NET, conduta não estabelecida.
A alternativa A menciona a detecção do DNA do VZV por PCR no líquor com sensibilidade superior a 95% nas primeiras 72 horas. Embora a PCR no líquor possa ser útil em casos atípicos (zoster sine herpete), a sensibilidade não é tão alta, e o diagnóstico é clínico, não exigindo confirmação laboratorial para iniciar tratamento. A alternativa E afirma que a presença de IgM anti-VZV indica reativação secundária e prognóstico favorável com recuperação completa em mais de 80% dos casos; na verdade, a IgM pode estar presente na reativação, mas a Ramsay Hunt tem pior prognóstico que a paralisia de Bell, com recuperação completa em apenas cerca de 50-70% dos casos, mesmo com tratamento adequado.
A pegadinha central desta questão é a inversão de conceitos prognósticos e de conduta: a banca troca o significado da degeneração >90% na ENoG (que é mau prognóstico, não bom), e apresenta condutas não recomendadas (descompressão cirúrgica imediata) como se fossem padrão. O candidato que decora os números sem entender o contexto clínico tende a cair nas alternativas B e C. A alternativa D, por sua vez, exige conhecimento específico de neurorradiologia, sendo a mais técnica e correta.
Síndrome de Ramsay Hunt
1Etiologia
Reativação do VZV
Latência no gânglio geniculado
2Tríade clássica
Paralisia facial periférica
Otalgia
Vesículas (ouvido/conduto)
3Diagnóstico
Essencialmente clínico
RM 3D-FLAIR/difusão
Realce no gânglio geniculado
Restrição no labirinto
Útil no zoster sine herpete
4Tratamento
Antiviral (aciclovir/valaciclovir)
Corticosteroide
Início ideal: até 72h
5Prognóstico
Pior que paralisia de Bell
Recuperação completa: ~50-70%
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Alternativa A — ❌ Incorreta
A PCR do VZV no líquor não tem sensibilidade superior a 95% nas primeiras 72 horas; na prática, a sensibilidade é variável e o diagnóstico de Ramsay Hunt é essencialmente clínico. A confirmação laboratorial não é essencial para iniciar o tratamento antiviral, que deve ser empírico diante da suspeita clínica. O erro está em superestimar o papel da PCR no líquor e em sugerir que ela é necessária para o manejo.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A eletroneurografia (ENoG) realizada no 4º dia de evolução com degeneração >90% das fibras é preditiva de mau prognóstico, não de recuperação funcional completa. Na verdade, degeneração >90% indica lesão axonal grave e está associada a recuperação incompleta e sequelas, mesmo com terapia combinada de antiviral e corticosteroide. A alternativa inverte o valor prognóstico do exame.
Alternativa C — ❌ Incorreta
O teste de excitabilidade nervosa (NET) mostrando inexcitabilidade total indica degeneração grave do nervo, mas não é indicação de descompressão cirúrgica imediata do segmento labiríntico. A descompressão cirúrgica na Ramsay Hunt é controversa e não é recomendada rotineiramente; o tratamento padrão é clínico (antiviral + corticosteroide). A alternativa sugere uma conduta invasiva sem respaldo na literatura.
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A ressonância magnética com sequências 3D-FLAIR e difusão pode demonstrar realce no gânglio geniculado e restrição à difusão no labirinto, refletindo o processo inflamatório viral. Esses achados são úteis para diferenciar a síndrome de Ramsay Hunt da paralisia de Bell nas fases iniciais, especialmente em casos de zoster sine herpete (sem vesículas). A alternativa descreve corretamente o papel da RM no diagnóstico diferencial.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A presença de anticorpos IgM anti-VZV no soro pode ocorrer na reativação viral, mas a Ramsay Hunt tem prognóstico desfavorável em comparação à paralisia de Bell, com recuperação completa em apenas cerca de 50-70% dos casos, mesmo com tratamento. A alternativa erra ao afirmar que a IgM indica prognóstico favorável com recuperação completa em mais de 80% dos casos. O escore de House-Brackmann grau VI indica paralisia total, o que reforça a gravidade, não um bom prognóstico.