Questão de Medicina — Pediatria e Neonatologia — Avança SP 2025
Medicina›Pediatria e Neonatologia
Código
qg413625
Banca
Avança SP
Órgão
IAMSPE
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Residência Médica - Acesso Direto
Recém-nascido de 6 horas de vida apresenta desconforto respiratório progressivo, com taquipneia persistente superior a uma semana. Nasceu a termo com líquido amniótico meconial espesso. Radiografia evidencia infiltrado bilateral, volume pulmonar aumentado e áreas de hiperinsuflação alternadas com hipotransparência.Analise o mecanismo fisiopatológico que explica a hiperinsuflação observada na radiografia:
AEdema intersticial pulmonar reduzindo a complacência e aumentando o volume residual.
BDeficiência de surfactante causando colapso alveolar com aprisionamento de ar compensatório.
CObstrução parcial de vias aéreas permitindo entrada de ar, mas impedindo sua saída.
DVasoconstrição pulmonar aumentando a resistência vascular e redistribuindo o fluxo aéreo.
EInflamação do parênquima com liberação de mediadores broncodilatadores.
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GabaritoC — Obstrução parcial de vias aéreas permitindo entrada de ar, mas impedindo sua saída.
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Síndrome do desconforto respiratório do recém-nascido: mecanismo da hiperinsuflação
Gabarito: letra C. A hiperinsuflação pulmonar observada na radiografia — volume pulmonar aumentado com áreas de hiperinsuflação alternadas com hipotransparência — é explicada pela obstrução parcial das vias aéreas, que permite a entrada de ar na inspiração, mas dificulta/impede sua saída na expiração, gerando aprisionamento de ar (air trapping). Esse é o mecanismo fisiopatológico clássico da síndrome de aspiração de mecônio (SAM), que cursa com obstrução mecânica e inflamatória das vias aéreas.
A síndrome de aspiração de mecônio é uma das principais causas de desconforto respiratório no recém-nascido a termo, especialmente quando há líquido amniótico meconial espesso. O mecônio aspirado obstrui as vias aéreas de forma heterogênea: algumas áreas ficam completamente obstruídas (causando atelectasia e hipotransparência na radiografia), enquanto outras ficam parcialmente obstruídas. É justamente nessas áreas parcialmente obstruídas que ocorre o mecanismo de válvula unidirecional: o ar entra na inspiração (quando a via aérea se dilata), mas não consegue sair na expiração (quando a via aérea se estreita), levando à hiperinsuflação progressiva e ao aprisionamento de ar.
Esse mecanismo é o mesmo que explica a hiperinsuflação em outras doenças obstrutivas, como a asma e a DPOC. O ar que fica retido aumenta o volume residual e a capacidade residual funcional, elevando a pressão intratorácica e gerando a chamada auto-PEEP (PEEP intrínseca). As consequências deletérias incluem aumento do trabalho respiratório, encurtamento do diafragma (que perde eficiência na curva tensão-comprimento) e queda do débito cardíaco por diminuição do retorno venoso.
Na radiografia, o padrão típico da SAM é justamente o descrito no enunciado: infiltrado bilateral (pelo mecônio e pela inflamação), volume pulmonar aumentado (pela hiperinsuflação) e áreas de hiperinsuflação alternadas com hipotransparência (pela obstrução heterogênea — áreas hiperinsufladas ao lado de áreas atelectásicas).
A pegadinha da questão está em distinguir o mecanismo da hiperinsuflação na SAM (obstrução parcial → aprisionamento de ar) do mecanismo da doença da membrana hialina (deficiência de surfactante → colapso alveolar difuso, com volume pulmonar reduzido). Enquanto na SAM o pulmão está hiperinsuflado, na membrana hialina o pulmão está hipoinsuflado (volume reduzido, infiltrado reticulogranular difuso e broncograma aéreo). Guarde essa distinção: é exatamente nela que as alternativas se dividem.
Desconforto respiratório neonatal
1Doenças obstrutivas
SAM (mecônio)
Obstrução parcial → válvula unidirecional
Ar entra, não sai → hiperinsuflação
Volume pulmonar aumentado
Asma / DPOC
2Doenças restritivas
Membrana hialina (prematuro)
Deficiência de surfactante
Colapso alveolar difuso
Volume pulmonar reduzido
Pneumonia / edema
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Alternativa A — ❌ Incorreta
O edema intersticial pulmonar reduz a complacência, mas reduz o volume residual, não o aumenta. Na SAM, o edema intersticial existe (pela inflamação), mas não é ele que explica a hiperinsuflação — o mecanismo central é a obstrução parcial com aprisionamento de ar. Além disso, a redução da complacência levaria a um pulmão mais rígido e com menor volume, não hiperinsuflado.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A deficiência de surfactante é o mecanismo da doença da membrana hialina (síndrome do desconforto respiratório do prematuro), não da SAM. Na membrana hialina, o colapso alveolar difuso causa hipoinsuflação (volume pulmonar reduzido na radiografia), não hiperinsuflação. O enunciado descreve um recém-nascido a termo com líquido meconial — quadro típico de SAM, não de deficiência de surfactante.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A obstrução parcial das vias aéreas pelo mecônio cria um mecanismo de válvula unidirecional: o ar entra na inspiração, mas não consegue sair na expiração, levando ao aprisionamento de ar e à hiperinsuflação. Esse é exatamente o mecanismo que explica o volume pulmonar aumentado e as áreas de hiperinsuflação alternadas com hipotransparência na radiografia.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A vasoconstrição pulmonar aumenta a resistência vascular e pode levar à hipertensão pulmonar, mas não redistribui o fluxo aéreo — ela afeta o fluxo sanguíneo, não o fluxo de ar. A vasoconstrição é uma consequência da hipóxia na SAM, mas não explica a hiperinsuflação pulmonar.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A inflamação do parênquima com liberação de mediadores ocorre na SAM, mas os mediadores liberados são broncoconstritores (como a inflamação causa broncoespasmo), não broncodilatadores. A liberação de mediadores broncodilatadores não é um mecanismo fisiopatológico da SAM e, se ocorresse, reduziria a obstrução, não causaria hiperinsuflação.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre a SAM e a doença da membrana hialina. Na SAM (recém-nascido a termo, líquido meconial), o mecanismo é obstrução parcial → aprisionamento de ar → hiperinsuflação. Na membrana hialina (prematuro, deficiência de surfactante), o mecanismo é colapso alveolar → hipoinsuflação. Se o enunciado falar em volume pulmonar aumentado, pense em obstrução/aprisionamento; se falar em volume reduzido, pense em deficiência de surfactante. Com treino, você identifica essa troca de longe 💪
PEGA ESSA DICA!
Para questões de desconforto respiratório neonatal, monte um quadro mental com os dois grandes grupos: (1) doenças obstrutivas (SAM, asma, DPOC) → hiperinsuflação, volume aumentado, aprisionamento de ar; (2) doenças restritivas (membrana hialina, pneumonia, edema) → hipoinsuflação, volume reduzido, complacência diminuída. Na radiografia, o volume pulmonar é o primeiro sinal a observar.