Questão de Medicina — Ginecologia e Obstetrícia — Avança SP 2025
Medicina›Ginecologia e Obstetrícia
Código
qg413627
Banca
Avança SP
Órgão
IAMSPE
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Residência Médica - Acesso Direto
Paciente de 25 anos, sem comorbidades, gestante de 8 semanas, na sua primeira consulta de prénatal relata ao seu obstetra estar preocupada com o risco de hipertensão gestacional, visto que sua mãe teve pré-eclâmpsia na gravidez de sua irmã. Para melhor avaliar o risco de desenvolvimento de pré-eclâmpsia durante a gravidez, seu obstetra utiliza uma combinação de parâmetros maternos, segundo o modelo de predição de desenvolvimento de pré-eclâmpsia da Fetal Medicine Foundation (FMF) e, após análise dos exames colhidos na 12ª semana de gravidez, opta por prescrever AAS, início imediato, devendo ela manter a medicação até 36 semanas. Sobre o algoritmo proposto pela FMF, referendado pela Federação Internacional de Ginecologia e Obstetrícia (FIGO), inclusive para uso no Brasil, podemos afirmar que:
AO algoritmo proposto inclui dosagem de homocisteína no plasma materno, colhido entre 11 e 13 semanas de gestação.
BA história da mãe da paciente não é fator significativo no cálculo do risco, segundo o algoritmo utilizado.
CA velocidade da artéria cerebral média na dopplervelocimetria fetal no primeiro trimestre é fator determinante no cálculo de risco proposto.
DQuando o risco calculado é superior a 1:100 a gestante é considerada de alto risco para desenvolvimento de pré-eclâmpsia, sendo indicado uso de AAS, conforme prescrito pelo obstetra.
EFrente a resultado de alto risco para desenvolvimento de pré-eclâmpsia, a medicação de escolha a ser prescrita é a heparina de baixo peso molecular, sendo contraindicado o uso do AAS durante a gravidez.
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GabaritoD — Quando o risco calculado é superior a 1:100 a gestante é considerada de alto risco para desenvolvimento de pré-eclâmpsia, sendo indicado uso de AAS, conforme prescrito pelo obstetra.
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Rastreamento e prevenção de pré-eclâmpsia: algoritmo da Fetal Medicine Foundation (FMF)
Gabarito: letra D. O algoritmo de predição de pré-eclâmpsia da FMF, referendado pela FIGO, combina fatores maternos, pressão arterial média (PAM), índice de pulsatilidade (IP) da artéria uterina e o fator de crescimento placentário (PlGF) sérico, todos avaliados entre 11 e 13+6 semanas. Quando o risco calculado é superior a 1:100, a gestante é considerada de alto risco, sendo indicado o uso de AAS em baixa dose (100–150 mg/dia), iniciado preferencialmente até a 16ª semana e mantido até 36 semanas — exatamente o que o obstetra prescreveu no caso.
A pré-eclâmpsia é uma síndrome específica da gestação, caracterizada por hipertensão arterial e disfunção de órgãos-alvo (frequentemente proteinúria) após a 20ª semana, em gestante previamente normotensa. Sua patogênese envolve a placentação deficiente no primeiro trimestre, com liberação de fatores antiangiogênicos (como sFlt-1) que causam disfunção endotelial sistêmica. Por isso, a prevenção eficaz depende de identificar precocemente as gestantes de maior risco e instituir medidas como o AAS em baixa dose, que reduz a incidência de pré-eclâmpsia precoce e de desfechos adversos.
O modelo da FMF é um dos mais robustos para rastreamento no primeiro trimestre. Ele não se baseia apenas em fatores clínicos isolados, mas em uma combinação de parâmetros que, juntos, aumentam a acurácia do rastreamento. Os componentes essenciais são:
Fatores maternos: idade, etnia, IMC, paridade, tabagismo, história de pré-eclâmpsia prévia, história familiar (mãe ou irmã), comorbidades (HA crônica, DM, doença renal, LES/SAAF) e gestação múltipla ou por reprodução assistida.
Pressão arterial média (PAM): medida de forma padronizada, com aparelho validado e técnica adequada.
Índice de pulsatilidade (IP) da artéria uterina: avaliado por dopplervelocimetria, reflete a resistência vascular uteroplacentária.
Fator de crescimento placentário (PlGF) sérico: biomarcador angiogênico que está reduzido em gestações que evoluem com pré-eclâmpsia.
O cálculo do risco é feito por um software específico, que integra esses dados e expressa o resultado como uma razão (ex.: 1:50, 1:100, 1:200). O ponto de corte para definir alto risco é 1:100 — ou seja, risco maior que 1% de desenvolver pré-eclâmpsia. Acima desse limiar, recomenda-se a profilaxia com AAS em baixa dose (100–150 mg/dia), iniciada entre 12 e 16 semanas (idealmente até 16 semanas) e mantida até 36 semanas, quando se suspende a medicação.
A história familiar de pré-eclâmpsia (mãe ou irmã) é um fator de risco moderado e entra no cálculo do algoritmo, contrariando a alternativa B. A dosagem de homocisteína não faz parte do modelo (alternativa A), e a dopplervelocimetria da artéria cerebral média fetal não é utilizada no primeiro trimestre para esse fim (alternativa C) — o que se avalia é a artéria uterina materna. Por fim, a medicação de escolha para prevenção é o AAS, e não a heparina de baixa peso molecular (alternativa E), que é usada em outras situações, como trombofilias.
Guarde a composição do algoritmo (fatores maternos + PAM + IP de artéria uterina + PlGF) e o ponto de corte de 1:100: são exatamente esses dois elementos que separam as alternativas corretas das incorretas.
A: homocisteína; C: IP artéria cerebral média fetal
Fator de risco familiar
História de pré-eclâmpsia em mãe/irmã é considerada
B: nega a relevância da história familiar
Ponto de corte para alto risco
Risco > 1:100
—
Profilaxia indicada
AAS em baixa dose (100–150 mg/dia) até 36 semanas
E: heparina de baixo peso molecular
Alternativa A — ❌ Incorreta
A dosagem de homocisteína não faz parte do algoritmo de predição da FMF. O modelo utiliza fatores maternos, PAM, IP da artéria uterina e PlGF sérico. A homocisteína é um marcador associado a risco cardiovascular e trombótico, mas não integra o rastreamento de pré-eclâmpsia no primeiro trimestre.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A história da mãe da paciente (pré-eclâmpsia em gestação da irmã) é um fator de risco moderado e, portanto, é considerada no cálculo do risco pelo algoritmo da FMF. A história familiar de pré-eclâmpsia em parente de primeiro grau (mãe ou irmã) é um dos fatores maternos incluídos no modelo.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A dopplervelocimetria utilizada no algoritmo da FMF é a da artéria uterina materna (avaliação do IP), e não da artéria cerebral média fetal. A artéria cerebral média é avaliada em outros contextos, como na vigilância de anemia fetal ou restrição de crescimento no segundo/terceiro trimestre, mas não faz parte do rastreamento de pré-eclâmpsia no primeiro trimestre.
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
O ponto de corte do algoritmo da FMF para definir alto risco é risco superior a 1:100. Quando esse limiar é ultrapassado, recomenda-se o uso de AAS em baixa dose (100–150 mg/dia), iniciado preferencialmente entre 12 e 16 semanas e mantido até 36 semanas. No caso, o obstetra prescreveu AAS com início imediato e manutenção até 36 semanas, conduta alinhada à recomendação para gestantes de alto risco.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A medicação de escolha para prevenção de pré-eclâmpsia em gestantes de alto risco é o AAS em baixa dose, e não a heparina de baixo peso molecular (HBPM). A HBPM é indicada em outras situações, como trombofilias ou antecedente de eventos tromboembólicos, mas não é a profilaxia padrão para pré-eclâmpsia. O AAS é seguro na gestação e está indicado justamente para reduzir o risco de pré-eclâmpsia precoce.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre os componentes do algoritmo e o ponto de corte. O candidato pode lembrar que a dopplervelocimetria faz parte do rastreamento, mas trocar a artéria uterina pela cerebral média (alternativa C), ou confundir o limiar de risco (1:100) com outros valores. Além disso, a alternativa E inverte a medicação: troca o AAS pela HBPM, que não é a profilaxia de primeira linha para pré-eclâmpsia. Fique atento: o AAS é a pedra angular da prevenção, e a HBPM é reservada para outras indicações.
PEGA ESSA DICA!
Para memorizar o algoritmo da FMF, lembre da sigla PAM-IP-PlGF: Pressão Arterial Média, Índice de Pulsatilidade da artéria uterina e PlGF sérico, somados aos fatores maternos. E grave o ponto de corte: risco > 1:100 = alto risco → AAS até 36 semanas. Na prova, se a alternativa citar homocisteína, artéria cerebral média ou heparina, descarte na hora — não fazem parte do rastreamento/prevenção de pré-eclâmpsia.