Questão de Medicina — Cirurgia Geral — Avança SP 2025
Medicina›Cirurgia Geral
Código
qg413655
Banca
Avança SP
Órgão
IAMSPE
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Residência Médica - Acesso Direto
Paciente masculino de 46 anos de idade, chega ao pronto socorro do hospital, trazido por seus familiares por relato de haver sofrido acidente com água fervente após cair panela sobre seu dorso há cerca de 2 horas, apresenta-se consciente, com via aérea pérvia, sem cervicalgia, boa expansibilidade torácica, frequência respiratória 24 ipm, pulsos cheios, pressão arterial de 150/90 mmHg, frequência cardíaca 110 bpm, escala de Glasgow 15, com pupilas isofotorreagentes. Ao realizar exposição, observa-se as seguintes lesões: queimadura com eritema, muito dolorosa e sem bolha em região anterior do tórax; queimadura com fundo rosado, com bolhas, dolorosas, associado a áreas mais opacas, sem bolha em toda região do dorso; queimadura com aspecto amarronzado, áspero e sem dor em região cervical posterior estendendose para ombro direito. Assinale a alternativa correta:
AAs lesões em dorso são de espessura parcial, a fórmula para calcular a hidratação venosa nas 24 horas iniciais é de 2 ml x Kg x % de superfície corporal queimada, objetivando diurese de 0,5 ml/kg/h.
BAs lesões na região anterior do tórax são queimaduras de espessura parcial e devem ser incluídas no cálculo de superfície corporal queimada.
CAs lesões na região cervical posterior e ombro são de espessura parcial e por ser uma área pequena não precisa ser encaminhado a unidade de pacientes queimados.
DAs lesões na região cervical posterior são de espessura total, a fórmula para calcular a hidratação venosa nas 24 horas iniciais é de 4 ml x kg x % de superfície corporal queimada, e deve iniciar antibiótico profilático intravenoso com cefazolina.
EAs lesões na região anterior do tórax são queimaduras superficiais, devem ser incluídas no cálculo de superfície corporal queimada e a fórmula para calcular a hidratação venosa nas 24 horas iniciais é de 4 ml x Kg x % de superfície corporal queimada.
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GabaritoA — As lesões em dorso são de espessura parcial, a fórmula para calcular a hidratação venosa nas 24 horas iniciais é de 2 ml x Kg x % de superfície corporal queimada, objetivando diurese de 0,5 ml/kg/h.
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Queimaduras: classificação, superfície corporal queimada e reposição volêmica
Gabarito: letra A. As lesões em dorso, descritas com fundo rosado, bolhas e áreas opacas, são queimaduras de espessura parcial (2º grau). A fórmula de hidratação venosa nas primeiras 24 horas para queimaduras térmicas em adultos é de 2 mL × peso (kg) × % de superfície corporal queimada (SCQ), com metade do volume nas primeiras 8 horas, objetivando diurese de 0,5 mL/kg/h. As demais alternativas erram na classificação da profundidade das lesões, na inclusão de queimaduras de 1º grau no cálculo da SCQ, na fórmula de reposição ou na indicação de antibiótico profilático.
A classificação da profundidade da queimadura é o primeiro passo para o manejo correto. Ela se baseia na camada de pele atingida e nas características clínicas observadas. A queimadura de 1º grau (superficial) atinge apenas a epiderme, manifestando-se com eritema, dor e ausência de bolhas — como a lesão descrita na região anterior do tórax. A queimadura de 2º grau (espessura parcial) atinge epiderme e derme, apresentando bolhas, fundo rosado ou vermelho, dor intensa e, quando mais profunda, áreas opacas ou esbranquiçadas — como as lesões descritas no dorso. A queimadura de 3º grau (espessura total) destrói toda a espessura da pele, com aspecto esbranquiçado, amarronzado ou carbonizado, textura áspera ou coriácea e ausência de dor, pois as terminações nervosas foram destruídas — como a lesão descrita na região cervical posterior e ombro direito.
A superfície corporal queimada (SCQ) é calculada pela regra dos nove, que atribui percentuais a cada segmento corporal: cabeça e pescoço 9%, cada membro superior 9%, cada membro inferior 18%, tronco anterior 18%, tronco posterior 18% e região genital 1%. Importante: queimaduras de 1º grau NÃO são incluídas no cálculo da SCQ, pois não causam o mesmo grau de perda de barreira e de resposta inflamatória sistêmica que as queimaduras de 2º e 3º grau. Portanto, a lesão eritematosa do tórax anterior, sendo de 1º grau, não entra no cálculo.
A reposição volêmica nas queimaduras é guiada pela fórmula de Parkland (ou fórmula de Baxter), que calcula o volume de Ringer com lactato a ser infundido nas primeiras 24 horas. Para queimaduras térmicas e químicas em adultos, a fórmula é 2 mL × peso (kg) × % SCQ. Metade desse volume deve ser infundida nas primeiras 8 horas (contadas a partir do momento do acidente) e a outra metade nas 16 horas seguintes. O objetivo é manter uma diurese adequada, em torno de 0,5 mL/kg/h no adulto, como marcador de perfusão renal e tecidual. Para queimaduras elétricas de alta tensão com mioglobinúria, a fórmula é de 4 mL × peso × % SCQ, mas esse não é o caso do paciente em questão, que sofreu queimadura térmica por água fervente.
A indicação de antibiótico profilático em queimaduras é controversa e não é recomendada de rotina. O risco de infecção é maior após 48-72 horas, quando ocorre a colonização bacteriana da ferida, e a profilaxia precoce não reduz esse risco, podendo selecionar bactérias resistentes. O tratamento antibiótico deve ser reservado para casos de infecção comprovada ou fortemente suspeita. Portanto, a alternativa que sugere iniciar cefazolina profilática está incorreta.
A referência a uma unidade de queimados é indicada para queimaduras de 2º grau que atingem mais de 10% da SCQ, queimaduras de 3º grau em qualquer extensão, queimaduras em áreas especiais (face, mãos, pés, genitália, grandes articulações), queimaduras elétricas ou químicas, queimaduras em pacientes com comorbidades ou extremos de idade, e queimaduras com lesão inalatória. No caso descrito, o paciente tem queimaduras de 2º grau no dorso (que corresponde a 18% da SCQ pela regra dos nove) e de 3º grau na região cervical e ombro, o que claramente indica a necessidade de encaminhamento a um centro especializado.
A pegadinha central desta questão está na correta classificação da profundidade de cada lesão e na aplicação correta da fórmula de reposição volêmica. O candidato que confunde a queimadura de 1º grau (tórax anterior) com uma de espessura parcial, ou que aplica a fórmula de 4 mL/kg/% (reservada para queimaduras elétricas com mioglobinúria) a uma queimadura térmica, erra a questão. Além disso, é preciso lembrar que queimaduras de 1º grau não entram no cálculo da SCQ e que antibiótico profilático não é indicado de rotina.
Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa descreve corretamente as lesões em dorso como de espessura parcial (2º grau), com fundo rosado, bolhas e áreas opacas. A fórmula de hidratação venosa para queimaduras térmicas em adultos é de 2 mL × kg × % SCQ, com metade do volume nas primeiras 8 horas, e o objetivo é manter diurese de 0,5 mL/kg/h. Todos os elementos estão corretos e alinhados com a conduta preconizada.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A alternativa erra ao classificar as lesões na região anterior do tórax como de espessura parcial. A descrição clínica — eritema, muito dolorosa e sem bolha — é característica de queimadura de 1º grau (superficial), que atinge apenas a epiderme. Além disso, queimaduras de 1º grau não devem ser incluídas no cálculo da SCQ, pois não apresentam o mesmo risco de perda volêmica e complicações sistêmicas.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A alternativa erra ao classificar as lesões na região cervical posterior e ombro como de espessura parcial. A descrição — aspecto amarronzado, áspero e sem dor — é característica de queimadura de 3º grau (espessura total), que destrói toda a espessura da pele e as terminações nervosas. Além disso, a afirmação de que por ser uma área pequena não precisa ser encaminhado a unidade de queimados é incorreta: queimaduras de 3º grau em qualquer extensão, ou em áreas como pescoço e ombro, são indicação formal de encaminhamento a centro especializado.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A alternativa acerta ao classificar as lesões na região cervical posterior como de espessura total (3º grau), mas erra ao afirmar que a fórmula de hidratação é de 4 mL × kg × % SCQ. Essa fórmula é reservada para queimaduras elétricas de alta tensão com mioglobinúria, não para queimaduras térmicas como a do caso. Para queimaduras térmicas em adultos, a fórmula correta é de 2 mL × kg × % SCQ. Além disso, a indicação de antibiótico profilático intravenoso com cefazolina não é recomendada de rotina em queimaduras, pois não reduz o risco de infecção e pode selecionar bactérias resistentes.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A alternativa acerta ao classificar as lesões na região anterior do tórax como queimaduras superficiais (1º grau), mas erra ao afirmar que devem ser incluídas no cálculo da SCQ. Queimaduras de 1º grau não entram no cálculo da SCQ. Além disso, a fórmula de hidratação de 4 mL × kg × % SCQ é incorreta para queimaduras térmicas; a fórmula correta é de 2 mL × kg × % SCQ.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre a fórmula de reposição volêmica para queimaduras térmicas (2 mL/kg/%) e a fórmula para queimaduras elétricas de alta tensão com mioglobinúria (4 mL/kg/%). O candidato que decora apenas o número "4" sem associá-lo ao contexto de queimadura elétrica cai nas alternativas D e E. Além disso, a banca testa se o candidato sabe que queimaduras de 1º grau não entram no cálculo da SCQ — um erro comum é incluí-las, como fazem as alternativas B e E.
PEGA ESSA DICA!
Para resolver questões de queimaduras, siga este roteiro: 1) Classifique a profundidade de cada lesão (1º grau: eritema, sem bolha; 2º grau: bolhas, fundo rosado; 3º grau: aspecto esbranquiçado/amarronzado, sem dor). 2) Calcule a SCQ pela regra dos nove, excluindo as queimaduras de 1º grau. 3) Aplique a fórmula de Parkland: 2 mL × kg × % SCQ para térmicas em adultos, 3 mL para pediátricos, e 4 mL apenas para elétricas de alta tensão com mioglobinúria. 4) Lembre-se: antibiótico profilático não é rotina. Com esse fluxo, você elimina as alternativas erradas com segurança.