Chega no seu plantão em Unidade de Pronto Atendimento em São Paulo um adolescente de 16 anos com ferimento cortocontuso de 2 cm em face por mordedura de sagui doméstico pertencente à família. A respeito da sua conduta, aponte a alternativa mais adequada:
ADeve-se realizar limpeza e desbridamento de tecidos desvitalizados e coleta de cultura do ferimento.
BLesões menores de 2,5 cm em face são pequenas, e consideradas lesões leves.
CEm sendo animal observável e saudável, não está indicada vacina antitetânica.
DApesar de ser animal observável, existe indicação de sorovacinação antirrábica.
EDeve-se fazer limpeza com Clorexidina e sutura primária do ferimento aproximando por camadas o subcutâneo e a pele.
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GabaritoD — Apesar de ser animal observável, existe indicação de sorovacinação antirrábica.
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Mordedura por sagui: profilaxia antirrábica e manejo da ferida
Gabarito: letra D. Em mordedura por sagui (mamífero silvestre), mesmo que o animal seja observável e aparentemente saudável, está indicada a sorovacinação antirrábica (vacina + soro), conforme o protocolo de profilaxia da raiva do Ministério da Saúde. A conduta correta envolve limpeza vigorosa da ferida com água e sabão, avaliação da necessidade de profilaxia antitetânica e, no caso específico de agressão por sagui, a indicação de soro e vacina antirrábica, independentemente da possibilidade de observação do animal.
A raiva é uma zoonose viral quase sempre fatal, transmitida pela saliva de mamíferos infectados. O sagui (Callithrix spp.) é um primata silvestre que, no Brasil, tem sido identificado como reservatório do vírus da raiva, especialmente em áreas urbanas e periurbanas. Por isso, o manejo da exposição a esse animal segue critérios específicos, mais rigorosos do que os aplicados a cães e gatos.
O protocolo do Ministério da Saúde classifica as agressões por animais em dois grandes grupos: animais domésticos (cães e gatos) e animais silvestres (incluindo saguis, morcegos, raposas, entre outros). Para cães e gatos, quando o animal é observável e saudável, a conduta é manter observação por 10 dias e, se o animal permanecer saudável, não há indicação de profilaxia. Já para animais silvestres, como o sagui, a conduta é diferente: não se aplica a observação como critério para dispensar a profilaxia, pois não é possível garantir o estado de saúde do animal nem seu monitoramento adequado. Assim, a sorovacinação está indicada em praticamente todas as exposições a esses animais.
A profilaxia da raiva pode ser feita com vacina (imunização ativa) e, em casos de maior risco, com soro antirrábico (imunização passiva). A sorovacinação é a administração simultânea de soro e vacina, indicada em situações de maior gravidade, como mordeduras em face, cabeça, pescoço, mãos ou em ferimentos extensos ou profundos, e também em agressões por animais silvestres. No caso do enunciado, o ferimento é em face (região de alto risco) e o agressor é um sagui (animal silvestre), o que configura indicação clara de sorovacinação.
A conduta local da ferida também é importante. O primeiro passo é a limpeza imediata e vigorosa com água corrente e sabão, que reduz significativamente a carga viral e bacteriana. O desbridamento de tecidos desvitalizados pode ser necessário, mas a coleta de cultura do ferimento não é rotina. A sutura primária de feridas por mordedura é controversa e, em geral, deve ser evitada ou retardada, especialmente em feridas contaminadas, devido ao alto risco de infecção. Quando a sutura é necessária (como em feridas faciais esteticamente relevantes), deve-se considerar a antibioticoprofilaxia e o fechamento primário tardio.
A profilaxia antitetânica também deve ser avaliada, mas não é dispensada apenas pelo fato de o animal ser observável. A indicação depende do estado vacinal do paciente e das características da ferida. Feridas por mordedura são consideradas contaminadas, e a profilaxia antitetânica deve ser administrada conforme o esquema vacinal do paciente.
A alternativa D é a correta porque reconhece que, apesar de o sagui ser observável, a sorovacinação antirrábica está indicada. As demais alternativas apresentam erros conceituais ou condutas inadequadas.
Profilaxia antirrábica
1Animais domésticos (cães e gatos)
Observáveis e saudáveis
Observação 10 dias
Sem profilaxia se saudável
2Animais silvestres (sagui, morcego, raposa)
Observação não se aplica
Sorovacinação imediata
3Ferimentos de alto risco
Face, cabeça, pescoço, mãos
Soro + vacina
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Alternativa A — ❌ Incorreta
A limpeza e o desbridamento são condutas adequadas, mas a coleta de cultura do ferimento não é indicada de rotina em mordeduras. A cultura não orienta a conduta inicial, que é baseada na avaliação clínica e no risco de infecção. A antibioticoprofilaxia, quando indicada, é empírica, e não baseada em cultura.
Alternativa B — ❌ Incorreta
O tamanho da lesão (2 cm) não é o critério para classificá-la como "leve". A localização em face, o mecanismo (mordedura) e o risco de raiva e infecção são os fatores que determinam a gravidade. Uma mordedura em face, mesmo pequena, é considerada de alto risco para raiva e infecção, exigindo conduta específica.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A afirmação de que "não está indicada vacina antitetânica" por o animal ser observável é incorreta. A profilaxia antitetânica é avaliada com base no estado vacinal do paciente e na contaminação da ferida, não no estado do animal. Além disso, a vacina antitetânica não é a mesma coisa que a vacina antirrábica; a questão confunde os dois tipos de profilaxia.
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A sorovacinação antirrábica está indicada em mordedura por sagui, mesmo que o animal seja observável. O sagui é um animal silvestre, e o protocolo do Ministério da Saúde indica profilaxia com soro e vacina para exposições a animais silvestres, especialmente em ferimentos na face, como é o caso. A observação do animal não é critério para dispensar a profilaxia nesse contexto.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A limpeza com clorexidina não é a recomendação padrão para mordeduras; a limpeza deve ser feita com água e sabão. Além disso, a sutura primária imediata de feridas por mordedura é contraindicada na maioria dos casos, devido ao alto risco de infecção. O fechamento primário tardio ou a cicatrização por segunda intenção são opções mais seguras, especialmente em feridas contaminadas.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre o manejo de mordeduras por animais domésticos (cães e gatos) e silvestres (saguis). Para cães e gatos, a observação de 10 dias pode dispensar a profilaxia; para saguis, a observação não se aplica, e a sorovacinação está indicada. O candidato que aplica a regra dos animais domésticos erra a questão.
PEGA ESSA DICA!
Memorize a diferença: animais domésticos observáveis → observação de 10 dias, sem profilaxia se saudável; animais silvestres (sagui, morcego, raposa) → sorovacinação imediata, independentemente de observação. Ferimentos em face, cabeça, pescoço e mãos são sempre de alto risco e indicam soro + vacina.