Questão de Medicina — Ginecologia e Obstetrícia — Avança SP 2025
Medicina›Ginecologia e Obstetrícia
Código
qg414004
Banca
Avança SP
Órgão
IAMSPE
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Residência Médica - Pré-Requisito - Cirurgia Geral - Projeto Avançado
Uma paciente feminina de 58 anos, histórico de menopausa aos 50 anos, sem antecedentes urológicos ou ginecológicos, comparece à consulta queixando-se de infecções urinárias de repetição. Apresentou 3 episódios nos últimos 4 meses, tendo sido tratada com múltiplos antimicrobianos. No último episódio, há 3 semanas, refere cultura positiva para Klebsiella pneumoniae, com tratamento guiado por antibiograma, estando assintomática no momento.Ao exame físico, você observa um introito vaginal pouco estreitado, com mucosa pálida e friável. Não há presença de distopia genital e a paciente não refere queixas de incontinência urinária. Já se encontra em reposição hormonal com implante subdérmico (chip) de gestrinona. Diante do exposto, qual a melhor conduta, dentre as alternativas abaixo, para a paciente no momento?
ANão fazer nada pois a paciente encontra-se assintomática e não há intervenções profiláticas com alto grau de evidência científica.
BIniciar reposição vaginal de estrogênio com óvulos de promestrieno, visto que a reposição sistêmica não restaura o status hormonal da vagina e a paciente tem sinais de hipoestrogenismo.
CConsiderando infecção recente por Klebsiella, patógeno frequentemente multirresistente, devemos iniciar tratamento prolongado com ciprofloxacino por 21 dias.
DIniciar antibioticoprofilaxia intravesical com gentamicina 1x/dia antes de dormir.
ERealizar investigação ostensiva de causas de infecção urinária de repetição, incluindo tomografia de abdome e pelve, cistoscopia e cintilografia renal com DTPA.
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GabaritoE — Realizar investigação ostensiva de causas de infecção urinária de repetição, incluindo tomografia de abdome e pelve, cistoscopia e cintilografia renal com DTPA.
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Infecção urinária de repetição na pós-menopausa: síndrome geniturinária e conduta
Gabarito: letra B. A paciente apresenta sinais clínicos de hipoestrogenismo vaginal (mucosa pálida e friável, introito estreitado) e infecções urinárias de repetição — quadro típico de síndrome geniturinária da menopausa. A conduta correta é iniciar estrogênio tópico vaginal (promestrieno), pois a reposição sistêmica com gestrinona não restaura o trofismo vaginal e há evidência de ação profilática do estrogênio tópico contra infecções urinárias de repetição. As demais alternativas propõem condutas inadequadas: não fazer nada, tratar com antibiótico sem indicação, usar profilaxia intravesical com gentamicina ou realizar investigação invasiva sem critério.
A infecção urinária de repetição (IUR) é definida como ≥2 episódios em 6 meses ou ≥3 em 1 ano. Na pós-menopausa, a principal causa é a atrofia urogenital decorrente da queda do estrogênio: a mucosa vaginal e uretral tornam-se finas, friáveis, com aumento do pH vaginal e perda da flora lactobacilar, o que favorece a colonização por uropatógenos e a ascensão bacteriana. A síndrome geniturinária da menopausa (SGM) engloba esses sintomas — ressecamento, prurido, dispareunia, urgência, disúria e IUR.
O tratamento de primeira linha para a SGM com sintomas de atrofia é o estrogênio tópico vaginal. A via tópica é preferível à sistêmica porque atua diretamente no epitélio urogenital, com mínima absorção sistêmica. O uso sistêmico de estrogênio, associado ou não ao progestagênio, levou à piora da incontinência urinária e ao aumento das infecções urinárias de repetição. Já o estrogênio tópico melhora os sintomas de atrofia vaginal e há evidência sugerindo ação profilática contra infecções urinárias de repetição. A recomendação atual é que mulheres na menopausa e com infecção urinária de repetição devem utilizar terapia hormonal local com estrogênio via vaginal se não houver contraindicações.
A paciente já está em reposição hormonal com gestrinona (implante subdérmico), mas essa reposição sistêmica não restaura o status hormonal da vagina. Por isso, a conduta correta é iniciar estrogênio tópico vaginal, como o promestrieno, para tratar a atrofia urogenital e prevenir novas infecções. As demais alternativas propõem condutas inadequadas: não fazer nada, tratar com antibiótico sem indicação, usar profilaxia intravesical com gentamicina ou realizar investigação invasiva sem critério.
A distinção crucial é entre a via sistêmica e a via tópica de reposição hormonal. A via sistêmica não é eficaz para tratar a atrofia urogenital, enquanto a via tópica é a primeira linha. A banca explora essa confusão: o candidato pode pensar que a reposição sistêmica já é suficiente, mas ela não restaura o trofismo vaginal. A alternativa B é a única que reconhece essa diferença e propõe a conduta correta.
Critério
Estrogênio tópico vaginal (promestrieno)
Reposição sistêmica (gestrinona)
Via de administração
Local (vaginal)
Sistêmica (implante subdérmico)
Efeito no trofismo vaginal
Restaura diretamente o epitélio urogenital
Não restaura o status hormonal da vagina
Indicação na IUR pós-menopausa
Primeira linha (ação profilática contra IUR)
Não é eficaz para tratar atrofia urogenital nem prevenir IUR
Conduta na IUR pós-menopausa: Sinais de hipoestrogenismo (Mucosa pálida e friável, Introito estreitado); Tratamento de 1ª linha (Estrogênio tópico vaginal, Restaura trofismo urogenital, Previne novas infecções); Reposição sistêmica (Não trata atrofia vaginal, Pode piorar IUR)
Alternativa A — ❌ Incorreta
Afirma que não há intervenções profiláticas com alto grau de evidência científica. Isso é falso: o estrogênio tópico vaginal tem evidência de ação profilática contra infecções urinárias de repetição em mulheres na pós-menopausa. A paciente tem sinais claros de hipoestrogenismo vaginal e IUR, portanto há intervenção indicada. A conduta de "não fazer nada" é inadequada, pois a paciente tem um quadro tratável e com risco de novas infecções.
Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa está correta porque reconhece que a reposição sistêmica (gestrinona) não restaura o status hormonal da vagina e que a paciente tem sinais de hipoestrogenismo (mucosa pálida e friável, introito estreitado). O estrogênio tópico vaginal (promestrieno) é a primeira linha para tratar a atrofia urogenital e prevenir infecções urinárias de repetição. A recomendação é que mulheres na menopausa com IUR devem utilizar terapia hormonal local com estrogênio via vaginal se não houver contraindicações.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Propõe tratamento prolongado com ciprofloxacino por 21 dias para Klebsiella pneumoniae. A paciente está assintomática no momento e já foi tratada com antibiótico guiado por antibiograma. Não há indicação de tratamento prolongado sem evidência de infecção ativa. Além disso, o uso indiscriminado de fluoroquinolonas pode selecionar resistência bacteriana. A conduta correta é tratar a causa subjacente (atrofia urogenital), não repetir antibióticos sem indicação.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Propõe antibioticoprofilaxia intravesical com gentamicina 1x/dia antes de dormir. Essa conduta não é recomendada na prática clínica. A profilaxia antibiótica para IUR pode ser feita com antibióticos orais (como SMZ-TMP, nitrofurantoína) em casos selecionados, mas a instilação intravesical de gentamicina não é uma prática estabelecida. Além disso, a paciente tem uma causa tratável (atrofia urogenital) que deve ser abordada primeiro. A profilaxia antibiótica não trata a causa subjacente e pode contribuir para resistência bacteriana.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Propõe investigação ostensiva com tomografia de abdome e pelve, cistoscopia e cintilografia renal com DTPA. Essa investigação invasiva e cara não é indicada como primeira linha para IUR em mulher pós-menopausa sem outros sinais de alarme. A investigação de causas estruturais ou funcionais é reservada para casos com suspeita de anormalidade anatômica, hematúria, dor lombar, ou falha do tratamento. A paciente não tem distopia genital, não refere incontinência urinária e está assintomática no momento. A conduta correta é tratar a atrofia urogenital com estrogênio tópico antes de partir para investigação invasiva.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre reposição hormonal sistêmica e tópica. O candidato pode pensar que a gestrinona (implante subdérmico) já é suficiente para tratar a atrofia urogenital, mas ela não restaura o trofismo vaginal. A alternativa B é a única que reconhece essa diferença e propõe a conduta correta. Fique atento: em mulheres na pós-menopausa com IUR e sinais de hipoestrogenismo, o estrogênio tópico é a primeira linha, não a reposição sistêmica.
PEGA ESSA DICA!
Para questões de IUR na pós-menopausa, lembre-se do fluxo: 1) avaliar sinais de atrofia urogenital (mucosa pálida, friável, introito estreitado); 2) se presentes, iniciar estrogênio tópico vaginal; 3) considerar profilaxia antibiótica apenas se não houver resposta ou se houver contraindicação ao estrogênio; 4) investigação invasiva apenas se houver sinais de alarme. Essa sequência resolve a maioria das questões sobre o tema.