Questão de Medicina — Pediatria e Neonatologia — Avança SP 2025
Medicina›Pediatria e Neonatologia
Código
qg414028
Banca
Avança SP
Órgão
IAMSPE
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Residência Médica - Pré-Requisito - Cirurgia Geral - Projeto Avançado
Um recém-nascido de 3 dias de vida, prematuro, apresenta distensão abdominal progressiva, diarreia, resíduo gástrico elevado e presença de sangue nas fezes. O histórico revela asfixia perinatal moderada. A radiografia simples de abdome mostra pneumatose intestinal difusa e gás na veia porta. Qual o diagnóstico presuntivo e a abordagem terapêutica recomendada?
AEnterocolite necrosante; tratamento conservador com suspensão de dieta e antibioticoterapia, com laparotomia apenas se houver complicações graves.
BAtresia de intestino delgado; necessidade obrigatória de laparotomia imediata para ressecção.
CÍleo meconial; tratamento por enema com contraste iodado diluído como primeira abordagem.
DDoença de Hirschsprung; realização de colostomia em dupla boca como tratamento definitivo.
EGastrosquise complicada por sepse; drenagem percutânea com cateter de Penrose.
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GabaritoC — Íleo meconial; tratamento por enema com contraste iodado diluído como primeira abordagem.
Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.
Enterocolite necrosante no recém-nascido prematuro
Gabarito: letra A. O quadro descrito — prematuro com distensão abdominal progressiva, diarreia, resíduo gástrico elevado, sangue nas fezes, pneumatose intestinal difusa e gás na veia porta — é a apresentação clássica da enterocolite necrosante (ECN), e a abordagem inicial é conservadora: suspensão da dieta, descompressão gástrica, antibioticoterapia e suporte clínico, reservando a laparotomia para complicações graves como perfuração ou necrose extensa. O diagnóstico é essencialmente clínico-radiológico, e o tratamento cirúrgico não é a primeira linha.
A enterocolite necrosante é a emergência gastrointestinal mais comum e grave do recém-nascido prematuro. Sua fisiopatologia envolve a imaturidade da barreira intestinal, a colonização bacteriana anormal e a lesão por isquemia-reperfusão — daí a forte associação com asfixia perinatal, que compromete o fluxo sanguíneo mesentérico. A tríade clínica típica é distensão abdominal, intolerância alimentar (resíduo gástrico elevado) e sangue nas fezes, que pode evoluir para pneumatose intestinal (gás na parede do intestino) e, nos casos mais graves, gás na veia porta ou pneumoperitônio. A radiografia simples de abdome é o exame de imagem inicial e decisivo: a pneumatose intestinal é considerada sinal patognomônico, e o gás na veia porta indica doença avançada, mas não é, por si só, indicação cirúrgica imediata.
O manejo inicial é sempre conservador, mesmo nos casos com gás na veia porta. A conduta padrão inclui: suspensão da dieta enteral (NPO), sonda orogástrica para descompressão, antibioticoterapia de amplo espectro (cobrindo gram-negativos e anaeróbios), suporte hemodinâmico e monitorização clínica e radiológica seriada. A indicação cirúrgica (laparotomia) é reservada para complicações graves: pneumoperitônio (perfuração), necrose extensa, falência clínica apesar do tratamento otimizado ou deterioração progressiva. O gás na veia porta, embora seja um marcador de gravidade, não é critério absoluto de cirurgia — muitos pacientes respondem ao tratamento clínico.
O diagnóstico diferencial inclui outras causas de abdome agudo neonatal, como atresia intestinal, íleo meconial, doença de Hirschsprung e gastrosquise. A distinção é feita pela associação de fatores de risco (prematuridade, asfixia), pelo quadro clínico (sangue nas fezes é raro nas outras causas) e pelos achados radiológicos (pneumatose intestinal é praticamente exclusiva da ECN). A doença de Hirschsprung, por exemplo, cursa com retardo na eliminação de mecônio e constipação, não com diarreia sanguinolenta; o íleo meconial ocorre em recém-nascidos com fibrose cística e se manifesta com obstrução intestinal baixa desde o nascimento, sem pneumatose; a atresia intestinal é uma obstrução congênita que se apresenta com vômitos biliosos e distensão, mas sem sangue nas fezes; e a gastrosquise é um defeito de parede abdominal visível ao nascimento, com exteriorização de alças, não uma condição que se desenvolve aos 3 dias de vida.
A pegadinha desta questão está em associar o gás na veia porta a uma indicação cirúrgica imediata. O candidato que memoriza que "gás na veia porta = cirurgia" erra a alternativa A, que é a correta. Na verdade, o gás na veia porta é um sinal de gravidade, mas a decisão cirúrgica é baseada em critérios clínicos e radiológicos de complicação (perfuração, necrose), não na presença isolada desse achado. O tratamento conservador é a primeira linha em todos os casos de ECN, inclusive nos avançados, e a cirurgia é reservada para falha do tratamento ou complicações.
Guarde a fronteira entre o que é "sinal de gravidade" e o que é "indicação cirúrgica": o gás na veia porta é o primeiro; o pneumoperitônio é o segundo. É exatamente nessa distinção que as alternativas se dividem.
Critério
Enterocolite Necrosante (ECN)
Atresia de Intestino Delgado
Íleo Meconial
Doença de Hirschsprung
Gastrosquise
Perfil do paciente
Prematuro, asfixia perinatal
Neonato, obstrução congênita
Neonato com fibrose cística
Neonato a termo
Defeito de parede ao nascimento
Manifestação clínica
Distensão, diarreia, sangue nas fezes, resíduo gástrico
Vômitos biliosos, distensão, sem mecônio
Obstrução baixa, vômitos biliosos, sem mecônio
Retardo na eliminação de mecônio, constipação
Alças exteriorizadas, visível ao nascimento
Achado radiológico
Pneumatose intestinal, gás na veia porta
Distensão proximal, sem pneumatose
Impactação de mecônio, sem pneumatose
Distensão colônica, sem pneumatose
Defeito de parede abdominal
Tratamento inicial
Conservador (NPO, antibióticos, suporte)
Cirúrgico (após estabilização)
Enema com contraste
Cirúrgico (ressecção)
Cirúrgico (redução e fechamento)
Indicação cirúrgica
Apenas complicações (perfuração, necrose)
Imediata (obstrução)
Se falha do enema
Definitiva (ressecção)
Imediata (correção)
Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa descreve com precisão o diagnóstico e a conduta: enterocolite necrosante com tratamento conservador inicial (suspensão de dieta e antibioticoterapia) e laparotomia apenas se houver complicações graves. Isso está alinhado com a prática clínica: a ECN é manejada clinicamente na maioria dos casos, e a cirurgia é reservada para perfuração, necrose ou deterioração clínica. O enunciado traz todos os elementos clássicos — prematuro, asfixia perinatal, distensão, sangue nas fezes, pneumatose e gás na veia porta — que fecham o diagnóstico. A conduta descrita é exatamente a recomendada: NPO, descompressão gástrica, antibióticos e suporte, com cirurgia apenas em complicações.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Atresia de intestino delgado é uma obstrução congênita que se manifesta nas primeiras 24-48 horas de vida com vômitos biliosos, distensão abdominal e ausência de eliminação de mecônio. Não cursa com sangue nas fezes nem com pneumatose intestinal. O tratamento é cirúrgico, mas não é "imediato" no sentido de emergência absoluta — a criança é estabilizada antes. O erro aqui é o diagnóstico: o quadro clínico-radiológico descrito é de ECN, não de atresia. A pneumatose intestinal e o gás na veia porta são achados exclusivos da ECN, não da atresia.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Íleo meconial é a obstrução intestinal por mecônio espesso e impactado, quase sempre associado à fibrose cística. Ocorre nas primeiras 24-48 horas de vida, com distensão abdominal, vômitos biliosos e falha na eliminação de mecônio. O tratamento com enema de contraste hiperosmolar (gastrografina) é a primeira abordagem em casos não complicados, mas o quadro descrito não é de íleo meconial: há sangue nas fezes, pneumatose intestinal e gás na veia porta, que são achados de ECN. Além disso, o íleo meconial não tem associação com asfixia perinatal como fator de risco principal, e sim com fibrose cística.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Doença de Hirschsprung (megacólon aganglionar) se manifesta com retardo na eliminação de mecônio (mais de 48 horas), constipação, distensão abdominal e vômitos. Não cursa com diarreia sanguinolenta nem com pneumatose intestinal. O tratamento definitivo é cirúrgico, com ressecção do segmento aganglionar e anastomose, mas a colostomia em dupla boca é uma medida temporária em casos graves, não o tratamento definitivo. O erro aqui é duplo: o diagnóstico está errado (o quadro é de ECN) e a conduta descrita (colostomia como tratamento definitivo) também está incorreta.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Gastrosquise é um defeito de parede abdominal presente ao nascimento, com exteriorização de alças intestinais sem saco peritoneal. O diagnóstico é visual, feito no pré-natal ou ao nascimento, e não se desenvolve aos 3 dias de vida. O quadro descrito (distensão progressiva, diarreia, sangue nas fezes, pneumatose e gás na veia porta) é de ECN, não de gastrosquise. A drenagem percutânea com cateter de Penrose não é o tratamento da gastrosquise — o tratamento é cirúrgico, com redução das alças e fechamento da parede abdominal, após estabilização.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a associação automática entre "gás na veia porta" e "cirurgia imediata". O candidato que decora que gás na veia porta é sinal de gravidade extrema pode achar que a alternativa A está errada por dizer "laparotomia apenas se houver complicações graves". Mas o gás na veia porta, embora seja um marcador de doença avançada, não é indicação cirúrgica por si só — a cirurgia é reservada para pneumoperitônio, necrose ou falência clínica. O tratamento conservador é sempre a primeira linha na ECN, mesmo nos casos graves. Fique atento: a presença de pneumatose e gás na veia porta confirma o diagnóstico, mas não muda a conduta inicial.
PEGA ESSA DICA!
Para diferenciar as causas de abdome agudo neonatal, monte um quadro mental com os achados-chave: ECN (prematuro + sangue nas fezes + pneumatose), atresia (vômitos biliosos + ausência de mecônio), íleo meconial (fibrose cística + obstrução baixa), Hirschsprung (retardo na eliminação de mecônio + constipação) e gastrosquise (defeito de parede visível ao nascimento). Na prova, a presença de sangue nas fezes e pneumatose intestinal praticamente fecha o diagnóstico de ECN.