Questão de Português — Interpretação de Textos — IBFC 2025
Português›Interpretação de Textos
Código
qg516509
Banca
IBFC
Órgão
TJ-PE
Ano
2025
Nível
Superior
Analise o texto abaixo e responda à questão.
Texto II
Dizem que a separação nunca é um núcleo,
uma urgência. Dizem que ela começa em seu
avesso. E que é justamente no momento mais
suave, o primeiro encontro, o primeiro olhar, que a
separação começa a existir. Eu prefiro acreditar
que a separação nunca termina, e que o último dia,
a última noite, é um instante que se repete, a cada
espera, a cada volta, cada vez que sinto a tua falta,
cada vez que pronuncio teu nome. Eu acredito
que, ao te chamar, uma estratégia, um encanto, eu
seja capaz de fazer com que você se vire e olhe,
e, sem perceber, estenda entre nós um atalho,
uma ponte.
Mas como a gente chama alguém que foi
embora? Alguém que está longe, alguém que não
está? A distância deveria imediatamente impor um
tom mais solene, ou menos íntimo, afinal há a
distância. Mas como a gente trata com
distanciamento alguém que acabou de estar tão
perto? [...]
(SAAVEDRA, Carola. Flores Azuis. São Paulo: Companhia das
Letras, 2008)
Considerando os critérios tradicionalmente adotados para a distinção entre textos literários e não literários, assinale a alternativa que melhor caracteriza o tipo de construção textual apresentado no fragmento de Saavedra.
AA elaboração do texto inscreve-se no domínio literário, não apenas pelo uso de linguagem figurada e ambígua, mas também pela abordagem subjetiva e pela evocação de sentidos plurais, próprios da estética literária.
BO texto pode ser classificado como literário por tematizar uma experiência objetiva, mas a ausência de linguagem figurada e a linearidade da exposição atenuam sua carga estética, aproximando-o da prosa confessional não ficcional.
CA construção do texto, ainda que atravessada por marcas de subjetividade, evidencia predomínio de função metalinguística e referencial, próprias de gêneros não literários voltados à análise do cotidiano.
DEmbora revele sensibilidade e emoção, o texto deve ser classificado como não literário, pois se sustenta em estrutura discursiva típica da crônica jornalística e tem como finalidade principal relatar uma vivência pessoal.
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GabaritoA — A elaboração do texto inscreve-se no domínio literário, não apenas pelo uso de linguagem figurada e ambígua, mas também pela abordagem subjetiva e pela evocação de sentidos plurais, próprios da estética literária.
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Distinção entre texto literário e não literário no fragmento de Saavedra
Gabarito: letra A. O fragmento é inequivocamente literário, pois emprega linguagem figurada, ambiguidade, subjetividade e evocação de sentidos plurais, características da estética literária. A alternativa A captura esses elementos com precisão.
O texto é um trecho do romance Flores Azuis, de Carola Saavedra, e sua construção é marcada por reflexões poéticas sobre a separação. Passagens como "a separação começa em seu avesso" e "estenda entre nós um atalho, uma ponte" evidenciam metáforas e antíteses, típicas da linguagem figurada. A abordagem é subjetiva ("Eu prefiro acreditar"), e o sentido é plural — o leitor é convidado a interpretar as ambiguidades do amor e da distância.
A alternativa afirma que o texto é literário "não apenas pelo uso de linguagem figurada e ambígua, mas também pela abordagem subjetiva e pela evocação de sentidos plurais". Isso se comprova:
"Dizem que a separação nunca é um núcleo, uma urgência. Dizem que ela começa em seu avesso." "Eu prefiro acreditar que a separação nunca termina, e que o último dia, a última noite, é um instante que se repete."
A linguagem é metafórica ("núcleo", "avesso"), ambígua (o que é o avesso da separação?), subjetiva (uso da primeira pessoa, preferências) e evoca múltiplas interpretações sobre o tempo e a ausência. Tudo isso é próprio da literatura.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A alternativa B diz que o texto é literário, mas "a ausência de linguagem figurada e a linearidade da exposição atenuam sua carga estética". Isso contradiz o texto: o fragmento está repleto de figuras de linguagem (metáforas, antíteses, repetições) e não é linear — ele oscila entre o que "dizem" e o que "eu prefiro", com perguntas retóricas. Exemplo:
"Mas como a gente chama alguém que foi embora? Alguém que está longe, alguém que não está?"
A construção é fragmentada e reflexiva, não linear. Portanto, a alternativa erra ao negar a figurada e a não linearidade.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A alternativa C afirma que "evidencia predomínio de função metalinguística e referencial, próprias de gêneros não literários". O texto, no entanto, tem predomínio da função emotiva (expressão do eu lírico) e poética (elaboração estética da linguagem). Não há metalinguagem (não fala sobre a própria linguagem) nem função referencial centrada no contexto (não informa objetivamente). O texto é altamente subjetivo, voltado para a expressão de sentimentos, não para a referência. A alternativa extrapola e troca conceitos.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A alternativa D classifica o texto como não literário, "pois se sustenta em estrutura discursiva típica da crônica jornalística e tem como finalidade principal relatar uma vivência pessoal". Isso contradiz o texto: o fragmento pertence a um romance, gênero literário, e sua finalidade não é relatar objetivamente uma vivência, mas explorar poeticamente um sentimento. A crônica jornalística tem compromisso com fatos e linguagem mais direta; aqui, há elaboração estética, ambiguidade e subjetividade. A alternativa tangencia o tema ao usar o termo "vivência pessoal" para justificar o não literário, mas a literatura também pode abordar vivências — a diferença está no tratamento estético, que está presente no texto.
PEGA ESSA DICA!
Ao distinguir literário de não literário, foque na intenção estética e no uso da linguagem. Textos literários priorizam a forma, a ambiguidade, a conotação e a subjetividade. Já textos não literários (jornalísticos, científicos, instrucionais) priorizam a clareza, a objetividade e a denotação. No fragmento, a presença de metáforas, antíteses e perguntas retóricas é prova de literariedade.
Gabarito: letra A — a única alternativa que caracteriza corretamente o fragmento como literário, ancorada nos elementos do texto.