Questão de Português — Interpretação de Textos — Quadrix 2025
- Código
- qg605931
- Banca
- Quadrix
- Órgão
- CRO-SP
- Ano
- 2025
- Nível
- Médio
- CCerto
- EErrado
GabaritoE — Errado
Gabarito: ERRADO. A afirmativa extrapola o texto ao fixar o século XVII como marco do aumento do consumo de cana-de-açúcar e ao transformar uma observação pontual do médico Gustavo Beyer em uma "epidemia" generalizada. O texto menciona o consumo de cana-de-açúcar nos séculos XVI, XVII e XVIII, mas não afirma que a cárie se tornou epidêmica a partir do século XVII — essa é uma conclusão que o leitor acrescenta, não uma dedução autorizada pelas pistas textuais.
O verbo "deduz-se" indica que a resposta deve ser uma inferência — uma conclusão que o texto obriga o leitor a tirar, apoiada em pistas explícitas. Não basta que a afirmação seja plausível no mundo real; ela precisa estar ancorada no texto. Quando a alternativa exige acrescentar informações que não estão lá (como o século exato do início da epidemia), ela cai na extrapolação, que é o erro clássico de interpretação.
O texto de Gilberto Freyre descreve a alimentação deficiente no Brasil colonial e, no último parágrafo, relata a observação do médico sueco Gustavo Beyer:
"era impossível não se notar que toda a gente da classe baixa tinha os dentes incisivos perdidos pelo uso constante da cana-de-açúcar que, sem cessar, chupa e conserva na boca em pedaços de algumas polegadas"
Essa passagem mostra uma relação de causa e consequência entre o consumo de cana e a perda dos dentes incisivos. No entanto, ela se refere a um contexto específico (os arredores de Itu, observados pelo médico) e não afirma que isso configurou uma "epidemia" nacional nem que começou no século XVII. O texto fala dos séculos XVI, XVII e XVIII de forma genérica, sem precisar quando o consumo aumentou ou quando a cárie se tornou epidêmica.
A inferência legítima se apoia em pressupostos deixados pelo texto. Por exemplo, se o texto diz "os dentes incisivos perdidos pelo uso constante da cana", infere-se que o consumo de cana causava a perda dos dentes. Mas a alternativa vai além: ela afirma que a epidemia foi "impulsionada a partir do século XVII" e que houve "aumento do consumo" — informações que não estão no texto. O texto não diz que o consumo aumentou no século XVII; diz apenas que a cana era usada constantemente. Também não diz que a cárie se tornou epidêmica; fala de um caso observado por um médico.
A banca mistura uma informação verdadeira (o consumo de cana prejudicava os dentes) com duas invenções: o marco temporal (século XVII) e a generalização ("epidemia"). O candidato que aceita a primeira parte acaba aceitando o resto sem conferir.
A afirmativa comete dois erros:
Extrapolação temporal: o texto menciona os séculos XVI, XVII e XVIII, mas não afirma que a epidemia começou no século XVII. O texto diz que a alimentação era má nos engenhos e péssima nas cidades "nos séculos XVI, XVII e XVIII", sem precisar quando o consumo de cana aumentou.
Generalização indevida: o texto relata a observação do médico sobre "toda a gente da classe baixa" nos arredores de Itu, mas não afirma que isso se configurou como uma "epidemia" nacional. A palavra "epidemia" sugere uma propagação generalizada, que o texto não sustenta.
Além disso, a relação de causa e consequência é apresentada de forma parcial: o texto diz que o consumo de cana causava a perda dos dentes, mas não diz que houve um "aumento" do consumo no século XVII. O texto fala de um hábito constante, não de um aumento.
Portanto, a assertiva não pode ser deduzida do texto — ela exige que o leitor acrescente informações que não estão lá.
A regra de ouro: toda inferência precisa de uma pista no texto. Se a alternativa exige que você invente um marco temporal ou generalize uma observação pontual, ela é uma extrapolação e está errada. Aqui, o texto autoriza a relação entre cana e cárie, mas não autoriza o século XVII nem a ideia de epidemia.
Gabarito: ERRADO.
Link permanente: /questoes/qg605931