Questão de Português — Interpretação de Textos — Avança SP 2026
Português›Interpretação de Textos
Código
qg655924
Banca
Avança SP
Órgão
Prefeitura de Potim - SP
Ano
2026
Nível
Fundamental
Água mole em pedra dura
O mar é paciente, suas ondas vão e vêm,
vêm e vão, monótonas, incessantes, em ritmos
diferentes, por horas, dias, anos, quase que
eternamente, batendo no mesmo lugar, na mesma
praia, na mesma pedra, como se sua missão fosse
mudar o desenho da costa, refazer as praias,
redesenhar as rochas e os continentes,
escondendo mais uma Atlântida.
Forte, fraco, o movimento das ondas
segue incansável, sem sono, sem pressa, mais
forte ou mais fraco, de encontro ao rochedo,
morrendo na praia. Reverberando tempestades
ou manso, sob a brisa.
O mar é o dono, a vida depende dele, a
morte depende dele, os abrolhos afundam naus,
os icebergs afundam navios, as tempestades
reescrevem as derrotas e as ondas gigantes
engolem os sonhos viajando nas embarcações.
O mar molda as pedras, minuto a minuto,
ao longo dos milênios, as ondas batem assim ou
assado, escavam um lado, amolecem outro,
derrubam os alicerces onde o litoral se apoia.
Uma madrugada o enorme bloco se solta do
continente e a costeira muda sua linha.
As ilhas baixas podem estar condenadas.
O aquecimento global derrete os gelos polares e
o mar sobe. As marés sobem, engolem praias,
derrubam coqueiros, espantam os homens.
Não há força que resista ao seu avanço,
não há muro que contenha suas águas. No
movimento inclemente os poetas veem a beleza
da vida, e a caiçara a quase miséria da sua
existência.
O mar pode ser cruel. As tempestades
podem durar dias, semanas. Debaixo delas a vida
encolhe e os sonhos se perdem na pesca que não
acontece, no sueste batendo rijo.
O mar é o dono de tudo, o mar pode tudo,
a vida nasceu nele, a vida se perde nele. Para que
fosses nosso, ó mar, valeu a pena? Tudo vale a
pena se a alma não é pequena.
Em relação ao texto “Água mole em pedra dura”, é correto afirmar que se trata de uma crônica:
Abastante técnica e científica, com um envolvimento muito grande do autor sobre o tema.
Bbastante técnica e científica, sem muito envolvimento direto do autor sobre o tema.
Cbastante pessoal e subjetiva, sem muito envolvimento direto do autor sobre o tema.
Dbastante pessoal e subjetiva, com um envolvimento muito grande do autor sobre o tema.
Emuito voltada para a descrição do mar em termos técnicos, com uma linguagem acessível somente a especialistas do assunto.
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GabaritoD — bastante pessoal e subjetiva, com um envolvimento muito grande do autor sobre o tema.
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Crônica: Pessoal, Subjetiva e com Envolvimento do Autor
Gabarito: letra D. O texto é uma crônica bastante pessoal e subjetiva, com um envolvimento muito grande do autor sobre o tema, pois o cronista não apenas descreve o mar, mas o personifica, reflete sobre a vida e a morte, e encerra com uma indagação poética e filosófica que revela sua presença e emoção. A passagem que ancora essa leitura é o trecho final:
"Para que fosses nosso, ó mar, valeu a pena? Tudo vale a pena se a alma não é pequena."
Aqui, o autor se dirige diretamente ao mar (vocativo "ó mar"), faz uma pergunta retórica e emite um juízo de valor — marcas inequívocas de subjetividade e de envolvimento pessoal. As alternativas que falam em texto "técnico e científico" ou "sem envolvimento do autor" contradizem frontalmente o que o texto apresenta.
O Comando: Identificar a Natureza do Texto
A questão pede que se afirme algo sobre o texto — ou seja, é uma questão de compreensão/recorrência, em que a resposta deve ser uma paráfrase fiel do que está expresso. Não se trata de inferir algo implícito, mas de reconhecer as características textuais que definem o gênero crônica e o tom do autor. O comando "é correto afirmar que se trata de uma crônica" direciona o olhar para os aspectos estilísticos e de enunciação do texto, não para seu conteúdo factual.
O Texto: Tema, Tese e Movimento Argumentativo
O texto "Água mole em pedra dura" é uma crônica que reflete sobre o poder do mar e sua relação com a vida humana. O autor não se limita a descrever o mar; ele o personifica ("O mar é paciente", "O mar é o dono"), atribui-lhe intenções e o coloca como força central da existência. O movimento argumentativo é subjetivo e poético: o cronista parte da observação das ondas e chega a uma reflexão existencial, culminando na pergunta "valeu a pena?" e na resposta "Tudo vale a pena se a alma não é pequena". Essa progressão revela um autor que se coloca no texto, que sente e questiona — não um observador imparcial.
A Técnica: Pessoal e Subjetivo × Técnico e Científico
A distinção central está entre texto pessoal/subjetivo e texto técnico/científico. Um texto técnico-científico busca objetividade, impessoalidade, dados verificáveis e linguagem denotativa. Já um texto pessoal e subjetivo é marcado por:
Primeira pessoa ou marcas de enunciação (aqui, o vocativo "ó mar" e a pergunta retórica);
Linguagem conotativa e figurada ("as ondas gigantes engolem os sonhos", "o mar molda as pedras");
Juízos de valor e emoções ("O mar pode ser cruel", "Tudo vale a pena se a alma não é pequena");
Reflexões filosóficas e poéticas.
O texto em questão é repleto dessas marcas. Não há dados científicos, estatísticas ou terminologia técnica; há, sim, uma visão poética e pessoal do mar. O envolvimento do autor é evidente: ele não apenas observa, ele interpela o mar e conclui com uma máxima pessoal.
Análise das Alternativas
Crônica: Pessoal e subjetiva (Linguagem conotativa, Personificação, Reflexões filosóficas); Envolvimento do autor (Vocativo ("ó mar"), Pergunta retórica, Juízo de valor); Oposto: técnico/científico (Impessoal, Dados verificáveis, Linguagem denotativa)
Alternativa A — ❌ Incorreta
"bastante técnica e científica, com um envolvimento muito grande do autor sobre o tema."
Erro: contradiz o texto. A primeira parte é falsa: o texto não é técnico nem científico. Não há dados, estatísticas ou linguagem especializada. A segunda parte (envolvimento grande) até seria correta, mas a alternativa como um todo falha por afirmar algo que o texto não sustenta. O texto é poético e subjetivo, não técnico.
Alternativa B — ❌ Incorreta
"bastante técnica e científica, sem muito envolvimento direto do autor sobre o tema."
Erro: contradiz o texto. Novamente, a caracterização como "técnica e científica" é falsa. Além disso, a afirmação de que não há envolvimento do autor é desmentida pelo trecho final, em que o cronista se dirige ao mar e emite opinião. A alternativa erra nos dois polos.
Alternativa C — ❌ Incorreta
"bastante pessoal e subjetiva, sem muito envolvimento direto do autor sobre o tema."
Erro: contradiz o texto (restringe). A primeira parte está correta: o texto é pessoal e subjetivo. Porém, a segunda parte é falsa: o envolvimento do autor é muito grande, não ausente. O vocativo "ó mar" e a pergunta "valeu a pena?" são provas de um autor que se coloca diretamente no texto. A alternativa acerta na natureza, mas erra no grau de envolvimento.
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
"bastante pessoal e subjetiva, com um envolvimento muito grande do autor sobre o tema."
Correta. Esta alternativa é uma paráfrase fiel do texto. O texto é pessoal e subjetivo (linguagem conotativa, personificação, reflexões) e o autor demonstra grande envolvimento (vocativo, pergunta retórica, juízo de valor). A passagem que prova é:
"Para que fosses nosso, ó mar, valeu a pena? Tudo vale a pena se a alma não é pequena."
O autor não apenas descreve; ele interpela o mar e conclui com uma reflexão pessoal. Isso é envolvimento direto e subjetividade.
Alternativa E — ❌ Incorreta
"muito voltada para a descrição do mar em termos técnicos, com uma linguagem acessível somente a especialistas do assunto."
Erro: contradiz o texto e extrapola. O texto não é uma descrição técnica do mar; é uma reflexão poética. A linguagem é acessível a qualquer leitor, não restrita a especialistas. A alternativa inventa uma característica (tecnicismo) que não existe no texto e ainda afirma uma restrição de público que não se sustenta.
Conclusão
A questão testa a capacidade de reconhecer as marcas de subjetividade e envolvimento do autor em uma crônica. A alternativa correta é a que parafraseia o que o texto efetivamente apresenta: um texto pessoal, subjetivo e com forte presença do cronista. As demais ou contradizem o texto (chamando-o de técnico) ou restringem indevidamente o envolvimento do autor.
PEGA ESSA DICA!
Ao identificar o gênero crônica, procure por marcas de enunciação (vocativos, perguntas retóricas, primeira pessoa, juízos de valor). A presença dessas marcas indica subjetividade e envolvimento do autor — o oposto de um texto técnico-científico.