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Questão de Português — Interpretação de Textos — IBFC 2026

PortuguêsInterpretação de Textos
Código
qg703675
Banca
IBFC
Órgão
TJ-PE
Ano
2026
Nível
Médio
Cargo
Técnico Judiciário - Judiciária - Aplicação 12/04/

Analise o texto a seguir para responder à questão.


Os profetas secretos


(José Eduardo Agualusa)


    O que menos aprecio nesta época do ano — os maus profetas. O que mais aprecio — os bons profetas. Abomino os profetas profissionais — astrólogos, tarólogos, e certos analistas políticos — que fingem olhar para o futuro, ignorando que as profecias autênticas, aquelas que se confirmam, resultam de um exercício sistemático de atenção ao presente.


     Os verdadeiros profetas não olham para o futuro — a mais respeitada e esquiva das superstições! Olham, sim, para aquilo que os rodeia. Escutam os movimentos subterrâneos. Analisam e interpretam os sinais do tempo em que estão mergulhados. O futuro emerge então como consequência lógica — ou poética — de um presente esticado até ao limite.


     George Orwell, por exemplo, não sonhou com o Grande Irmão. Não foram as cartas, nem os astros, que lhe permitiram adivinhar a emergência de regimes totalitários, capazes de vigiar o dia a dia dos seus cidadãos através de tecnologias sofisticadas. Orwell imaginou o aprofundamento de métodos de vigilância, de propaganda e do uso da linguagem como instrumento de poder, que já existiam no seu tempo.


     “Fahrenheit 451”, de Ray Bradbury, não é um romance sobre a queima de livros, mas sobre uma sociedade anestesiada por projetos de entretenimento cuidadosamente imbecilizantes — aquilo a que chamamos, num eufemismo elegante, cultura de massas.


    Bradbury compreendeu que não seriam necessárias fogueiras para destruir os livros. Bastaria torná-los desnecessários, fazendo com que as pessoas trocassem a leitura por estímulos incessantes, rápidos e superficiais. O autor testemunhou o tédio se alastrando, viu a superficialidade ocupando todos os espaços, e escreveu a partir desses indícios.


     Orwell e Bradbury foram grandes profetas — assim como Júlio Verne, Aldous Huxley, Philip K. Dick e mais uma dúzia de outros gigantes da literatura universal — porque, ao contrário de tantos falsos quiromantes, souberam olhar e escutar o presente.

    

  Os bons profetas do nosso tempo não reivindicam nenhum dom de clarividência. Pelo contrário. Desconfiam das certezas. Encontramo-los entre escritores que interrogam as correntes obscuras do inconsciente coletivo, como a romancista canadense Margaret Atwood, com as suas visões distópicas, como no excelente “O conto da aia”. Encontramo-los também entre algumas figuras da ciência, como o físico italiano Carlo Rovelli, que há vários anos se esforça por nos mostrar o meticuloso logro do tempo.


     Nenhum destes profetas contemporâneos promete salvação. Nenhum oferece calendários. Limitam-se a mostrar que o presente é mais estranho, mais frágil — e mais exigente — do que aquilo que gostamos de admitir.


     Os maus profetas anunciam futuros confortáveis; os outros tornam o presente desconfortável. Os maus tranquilizam; os bons inquietam. No fim, volto ao início: o que menos aprecio nesta época do ano são os maus profetas, tão seguros de si e com tantos seguidores nas redes sociais. O que mais aprecio — os bons profetas, quase sempre discretos, atentos, solitários. Aqueles que não olham para o futuro, mas para aquilo que está ocorrendo agora, e nos forçam, por isso mesmo, a abrir os olhos. A mantê-los abertos.


(Disponível: https://oglobo.globo.com/cultura/jose-eduardoagualusa/coluna/2026/01/os-profetas-secretos.ghtml. Acesso em 01/02/2026)

Ao criticar determinado estado da sociedade, o autor refere-se a uma figura de linguagem chamada eufemismo (4º§). É possível também encontrar um exemplo de linguagem conotativa na seguinte passagem do texto:
  1. A“resultam de um exercício sistemático de atenção ao presente” (1º§).
  2. B“de Ray Bradbury, não é um romance sobre a queima de livros” (4º§).
  3. C“e mais uma dúzia de outros gigantes da literatura universal” (6º§).
  4. D“como a romancista canadense Margaret Atwood” (7º§).
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — “e mais uma dúzia de outros gigantes da literatura universal” (6º§).

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Identificação de linguagem conotativa no texto de Agualusa

Gabarito: letra C. A alternativa C contém a expressão "gigantes da literatura universal", em que "gigantes" é usado em sentido figurado (metáfora) para designar grandes escritores. As demais alternativas apresentam linguagem denotativa, sem figuras de linguagem.

Análise do texto: O autor utiliza eufemismo no 4º parágrafo ("cultura de massas" como eufemismo). A questão pede outro exemplo de linguagem conotativa, ou seja, expressão com sentido figurado, não literal.

Alternativa A — ❌ Incorreta

"resultam de um exercício sistemático de atenção ao presente" (1º§).

A expressão é literal: descreve o processo de atenção ao presente sem metáfora ou conotação. Não há figura de linguagem.

Alternativa B — ❌ Incorreta

"de Ray Bradbury, não é um romance sobre a queima de livros" (4º§).

Afirmação explícita e literal sobre o enredo do romance. Não contém sentido figurado.

Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO

"e mais uma dúzia de outros gigantes da literatura universal" (6º§).

O vocábulo "gigantes" é empregado em sentido conotativo: não se refere a seres de estatura gigantesca, mas a escritores de grande importância e influência, configurando uma metáfora (figura de palavra). É o único trecho entre as opções com linguagem figurada.

Alternativa D — ❌ Incorreta

"como a romancista canadense Margaret Atwood" (7º§).

Indicação literal da nacionalidade e ocupação de uma autora. Sem conotação.

Conclusão: A banca cobrou o reconhecimento de sentido figurado. Apenas a alternativa C apresenta uma metáfora ("gigantes"), sendo a correta.

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