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Questão de Português — Interpretação de Textos — IBAM 2020

PortuguêsInterpretação de Textos
Código
qq597293
Banca
IBAM
Órgão
Prefeitura de Santos - SP
Ano
2020
Nível
Superior
Cargo
Auditor Fiscal de Tributos Municipais

MARX TINHA RAZÃO

Tenho conversado com pessoas cujos condomínios contrataram portarias inteligentes e as opiniões são controversas. Mas a moda está pegando e a demissão em massa dos profissionais na área cresce.

Uma portaria inteligente é uma portaria sem porteiros ou nenhum funcionário similar. Você fala com um cara, sei lá, no Acre, que monitora 150 portarias pelo país. O argumento básico e a reduçáo de custos, claro.

Podemos olhar para esse fenômeno de um modo mais amplo, ou mais imediato, ligado ao cotidiano. A portaria inteligente torna o predio impermeável, inclusive a você e a seus convidados ou encomendas. Coisa de gente chata.

A ordem espontânea e expandida (expressão usada pelo economista liberal Friedrich Hayek para se referir ao mercado) é uma entidade moral, social, política e econômica. Na China, por exemplo, você vê um número enorme de pessoas, claramente sem grande formação, realizando pequenos trabalhos.

Esse fato garante a atividade e a dignidade de pessoas dentro dessa ordem espontânea e expandida. Economia sem a dimensão social e uma economia tão cega quanto um mercado em que o Estado controla preços: gera desemprego, instabilidade, e, por tabela, pobreza, concentrando a riqueza na mão de quem destroi o próprio tecido social do mercado. Coisa de idiotas de mercado.

lnfelizrnente, no Brasil, existe em grande número esse personagem que é o idiota do mercado ou o liberal inteligentinho, que acha que sociedade de mercado é uma entidade meramente econômica.

Não. O mercado é moral e social. Adam Smith, filósofo do século 18, antes de ser um economista, foi um filósofo moral. Como você identifica um idiota de mercado?

Esse personagem confunde a dimensão social e moral do mercado com a ingerência de um Estado gigantesco na vida das pessoas. A dimensão social e moral do mercado é a responsabilidade moral dos agentes econômicos nas suas pequenas decisões diárias, nas suas esferas de poder. Mas, para além dessas consequências mais amplas, há que se pensar nas consequências mais imediatas, a curto e médio prazo, no mínimo.

A humanidade envelhece a passos largos. Idosos que conseguem manter suas casas, onde viveram e constituíram memória, dependem de pessoas que os ajudem a lidar com o cotidiano, nos prédios em que vivem. Portarias inteligentes destroem essa dimensaó do vínculo externo da casa com o condomínio. Apenas millennials, enquanto ainda têm 15 anos de idade, não percebem isso.

Todo mundo sabe que porteiros e similares são os primeiros a darem socorro e tomarem decisões em momentos de emergência. Muitos idosos dependem deles no seu dia a dia, inclusive para ajudar na lida com pequenas compras. Os inteligentinhos de mercado, provavelmente, dirão que esses idosos devem ser lançados em casas de repouso, locais em que a história presente na memória material deles inexiste.

O problema é que o número de idosos só cresce, e destruir essa rede de vínculos próximos, no cotidiano, só aumenta a inviabilidade da vida desses idosos nos predios em que sempre viveram. E uma torma ciara de desumanização.

Se por um lado, a sociedade contemporânea deve pensar no meio ambiente e nos jovens, ela deve se ocupar com o modo como lidará com o crescimento da longevidade.

Outro traço das portarias inteligentes é o aumento gigantesco de burocracia, inclusive mediado pelo uso de ferramentas mais próximas à sensibilidade dos millennials.

Receber, por exemplo, uma nova faxineira, transforma-se num processo semelhante a tirar vistos para viajar. Cada passo banal da relação do predio com o mundo externo se transforma num grande processo kafkiano.

Compilado. Luiz Felipe Pondé, jornal "Folha de são Paulo"' edição de 20/1/2020.

Para o autor, o fato de na China existir um número enorme de pessoas sem grande formação, realizando pequenos trabalhos:
  1. Aé uma forma de garantir a dignidade e a atividade das pessoas inseridas na chamada ordem espontânea e expandida.
  2. Bpossibilitou a criação da ordem espontânea e expandida posteriormente adotada como parâmetro moral, social e político pelo economista liberal Friedrich Hayek.
  3. Cpotencializa uma economia cega na qual prevalece o despreparo dos trabalhadores frente a um mercado cada vez mais competitivo.
  4. Dpermite um Estado mais centralizador que controla preços e empregos e, por consequência, erradica a pobreza.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoA — é uma forma de garantir a dignidade e a atividade das pessoas inseridas na chamada ordem espontânea e expandida.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Interpretação de Texto: Compreensão Explícita — "Marx Tinha Razão"

Gabarito: letra A. O autor afirma explicitamente que o fato de na China existirem muitas pessoas sem grande formação realizando pequenos trabalhos "garante a atividade e a dignidade de pessoas dentro dessa ordem espontânea e expandida" (4º parágrafo). A alternativa A é uma paráfrase fiel desse trecho, portanto a correta.

Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO

"Na China, por exemplo, você vê um número enorme de pessoas, claramente sem grande formação, realizando pequenos trabalhos. Esse fato garante a atividade e a dignidade de pessoas dentro dessa ordem espontânea e expandida."

A alternativa reproduz com outras palavras a mesma ideia: "é uma forma de garantir a dignidade e a atividade das pessoas inseridas na chamada ordem espontânea e expandida". Nada é acrescentado; é compreensão literal do texto.

Alternativa B — ❌ Incorreta

"...ordem espontânea e expandida (expressão usada pelo economista liberal Friedrich Hayek para se referir ao mercado)"

O texto apenas cita Hayek como criador da expressão; jamais diz que o fato chinês "possibilitou a criação" dessa ordem. A alternativa extrapola: atribui ao fenômeno uma causalidade histórica que o autor não menciona. O texto trata o caso chinês como exemplo dentro da ordem, não como causa dela.

Alternativa C — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que o fato "potencializa uma economia cega na qual prevalece o despreparo dos trabalhadores". O texto, porém, diz o contrário: o fato garante atividade e dignidade — ou seja, é positivo. A expressão "economia cega" aparece em outro parágrafo, referindo-se a "Economia sem a dimensão social", não ao caso chinês. A alternativa contradiz o texto e ainda troca o referente: toma uma crítica geral (a economias sem lastro social) e a aplica indevidamente ao exemplo concreto, que é louvado.

Alternativa D — ❌ Incorreta

"...um mercado em que o Estado controla preços: gera desemprego, instabilidade, e, por tabela, pobreza..."

O texto critica o controle estatal de preços; logo, a ideia de que o fato chinês "permite um Estado mais centralizador que... erradica a pobreza" é o oposto do que o autor defende. A alternativa contradiz abertamente o texto e ainda insere um juízo ("erradica a pobreza") que não encontra respaldo.

Gabarito: letra A

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