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Questão de Português — Noções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto — INSTITUTO AOCP 2021

PortuguêsNoções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto
Código
qq660688
Banca
INSTITUTO AOCP
Órgão
FUNPRESP-JUD
Ano
2021
Nível
Superior
Cargo
Analista em Gestão de Pessoas
Filosofia em dois desenhos

    Fui caminhar. E na calçada me deparei com um estranho indivíduo. Carregava um saco plástico enorme que, pelo perfil do conteúdo, calculei estivesse cheio de latinhas. Mal acabei de pensar, o homem se acocorou na calçada. Extraiu de alguma parte uma pedra branca parecendo ser cal prensada, e com ela começou a desenhar no cimento.
    Parei para ver, atraída pelo ritual que se esboçava. O homem desenhou dois círculos um diante do outro, quase encostados, e dentro deles desenhou duas setas convergentes.
    Levantou-se, olhou sua obra com satisfação, andou cinco ou seis passos e, novamente, se acocorou. Continuava com a pedra de cal na mão.
    Mas o desenho que fez foi diferente. Riscou dois traços, colocados na mesma distância dos dois círculos, e atrás deles desenhou duas setas que apontavam uma para a outra.
    Segui adiante refletindo sobre o que havia presenciado. A primeira coisa que me veio à cabeça foi a Serra da Capivara, que visitei numa ida a Teresina para algum congresso ou palestra. Trouxe de volta a louça que a arqueóloga franco-brasileira Niéde Guidon, há muitos anos responsável pelo sítio arqueológico, ensinou os locais a fazerem para terem uma fonte de subsistência. Louça com impressos os mesmos desenhos estampados na rocha, que se acredita serem vestígios de uma cultura paleoamericana. Pois, como um ser primitivo, o homem havia estampado seus pensamentos e sua visão interior na mais moderna das rochas: o cimento.
    Havia reparado que o homem estava muito sujo e desgrenhado. Calçava havaianas de sola já bem fininha e roupas indefinidas. Provavelmente era mais um morador de rua. E como morador de rua, usava a mesma calçada em que dormia para se expressar. Usava a calçada, único bem que lhe pertencia, como se fosse papel para desenhar ou escrever. Porque não há dúvida de que, ao desenhar, aquele homem estava escrevendo.
    Estava escrevendo a sua dificuldade para se comunicar. Preso dentro de um círculo, pouco adiantava que as setas apontassem em direção uma da outra. Ele não conseguia obedecer à ordem das setas, pois continuava contido pela linha que delimitava o círculo.
    Coisa idêntica dizia o segundo desenho, agora com um traço, uma parede, um muro, impedindo-o de obedecer ao comando das setas.
    Pode até ser que o homem, através de seus desenhos estivesse desenvolvendo uma teoria filosófica sobre a incomunicabilidade dos seres humanos. Que, se por um lado não conseguem viver sozinhos (significado das setas instando à comunicação), por outro lado não conseguem se entender (significado dos círculos e dos traços impeditivos).
    Avançando nessa teoria, chegaríamos à conclusão de que tudo o que é coletivo resvala no pessoal. Assim como os desenhos do homem, tão íntimos e pessoais, destinavam-se a quem quer que passasse naquela exata calçada de Ipanema.

Adaptado de: https://www.marinacolasanti.com/2021/09/filosofiaem-dois-desenhos.html [Fragmentos]. Acesso em: 18 set. 2021.
Considerando os aspectos relacionados à organização das informações, à estruturação do texto de apoio e aos sentidos por ele expressos, julgue o seguinte item.No último parágrafo do texto, o conector “assim” é utilizado com valor conclusivo, encerrando o raciocínio da autora, e poderia ser substituído por “dessa forma”, sem acarretar prejuízos de sentido ao texto.
  1. CCerto
  2. EErrado
Revelar gabarito e comentário

GabaritoE — Errado

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Conectivo “assim” no último parágrafo — valor comparativo, não conclusivo

Gabarito: Errado (E). A afirmação é incorreta porque o conector “assim” no último parágrafo integra a locução “assim como”, que tem valor comparativo, e não conclusivo. Substituí-lo por “dessa forma” alteraria o sentido original do texto.

Comprovação no texto

“Avançando nessa teoria, chegaríamos à conclusão de que tudo o que é coletivo resvala no pessoal. Assim como os desenhos do homem, tão íntimos e pessoais, destinavam-se a quem quer que passasse naquela exata calçada de Ipanema.”

O trecho “Assim como” estabelece uma comparação entre a ideia de que o coletivo resvala no pessoal e o fato de que os desenhos do homem (íntimos e pessoais) se destinavam a qualquer transeunte. É uma analogia: “da mesma forma que” ou “tal qual”.

Por que a substituição por “dessa forma” falha?

  • “Assim como” → conjunção comparativa; introduz um termo de comparação.

  • “Dessa forma” → locução adverbial conclusiva (ou modal); indica conclusão ou modo. Se colocada no lugar de “assim como”, o sentido passaria a ser: “Dessa forma, os desenhos do homem…”, o que tornaria a frase uma conclusão lógica (resultante do que foi dito antes), e não uma comparação. Isso prejudica o sentido e quebra a relação de analogia pretendida pela autora.

PEGA ESSA DICA!

Para testar se a substituição preserva o sentido, substitua mentalmente “assim como” por “tal qual” ou “da mesma forma que”. Se a nova frase continuar coerente, o valor é comparativo. Se só funciona com “portanto” ou “dessa forma”, então seria conclusivo. No texto, a troca por “tal qual” mantém o sentido; a troca por “dessa forma” cria uma relação de causa-consequência inexistente.

Conclusão

A assertiva está Errada, pois atribui valor conclusivo a um conectivo que, no contexto, exerce função comparativa. A substituição por “dessa forma” acarretaria prejuízo ao sentido original.

Gabarito: letra E (Errado).

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