Pular para o conteúdo principal

Questão de Português — Noções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto — IBFC 2022

PortuguêsNoções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto
Código
qq749518
Banca
IBFC
Órgão
DETRAN-DF
Ano
2022
Nível
Médio
Cargo
Técnico em Atividades de Trânsito
Texto I
Meu reino por um pente
(Paulo Mendes Campos)

  Filhos – diz o poeta – melhor não tê-los. Já o Professor Anibal Machado me confiou gravemente que a vida pode ter muito sofrimento, o mundo pode não ter explicação alguma, mas, filhos, era melhor tê-los.
  A conclusão parece simples, mas não era; Anibal tinha ido às raízes da vida, e de lá arrancara a certeza imperativa de que a procriação é uma verdade animal, uma coisa que não se discute, fora do alcance do radar filosófico. “Eu não sei por que, Paulo, mas fazer filhos é o que há de mais importante.”
  Engraçado é que, depois dessa conversa, fui descobrindo devagar a melancólica impostura daquelas palavras corrosivas do final de Memórias Póstumas1 : “não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria”.
  Filhos, melhor tê-los, aliás, o mesmo poeta corrige antiteticamente o pessimismo daquele verso, quando pergunta: mas, se não os temos, como sabêlo? Resumindo: filhos, melhor não tê-los, mas é de todo indispensável tê-los para sabê-lo; logo, melhor tê-los.
   Você vai se rir de mim ao saber que comecei a crônica desse jeito depois de procurar em vão meu bloco de papel. Pois se ria a valer: o desaparecimento de certos objetos tem o dom de conclamar, por um rápido edital, todas as brigadas neuróticas alojadas nas províncias de meu corpo.
  Sobretudo instrumentos de trabalho. Vai-se-me por água a baixo o comedimento quando não acho minha caneta, meu lápis-tinta, meu papel, minha cola... Quando isso acontece (sempre) até taquicardia costumo ter; vem-me a tentação de demitir-me do emprego, de ir para uma praia deserta, de voltar para Minas Gerais, renunciar...
   Ridículo? Sim, ridículo, mas nada posso fazer. Creio que seria capaz (talvez seja presunção) de aguentar com relativa indiferença uma hecatombe2 que destruísse de vez todos os meus pertences. O que não suporto é a repetição indefinida do desaparecimento desses objetos sem nenhum valor, mas sem os quais, a gente não pode seguir adiante, tem de parar, tem de resolver primeiro. [...]

1 Refere-se ao romance Memórias Póstumas de Brás Cubas, publicado em 1881.
2 desastre, catástrofe
O título da crônica dialoga com a frase “Meu reino por um cavalo”, atribuída a Ricardo III, em uma obra produzida por William Shakespeare. Embora o texto não esteja completo, com base nessa informação, pode-se inferir que o enunciador:
  1. Aconfere mais valor às coisas materiais do que às experiências afetivas.
  2. Bindica seu senso de organização a partir da identificação de objetos perdidos.
  3. Crevela o desapego em relação aos pertences, metaforizados pelo vocábulo “reino”.
  4. Dexpressa que elementos vistos como corriqueiros podem ser indispensáveis.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoD — expressa que elementos vistos como corriqueiros podem ser indispensáveis.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Inferência a partir do título e do texto

Gabarito: letra D. O enunciador expressa que elementos vistos como corriqueiros podem ser indispensáveis. A crônica narra a frustração do autor ao perder objetos banais (bloco de papel, caneta, lápis) e afirma: “O que não suporto é a repetição indefinida do desaparecimento desses objetos sem nenhum valor, mas sem os quais, a gente não pode seguir adiante”. O título “Meu reino por um pente” parodia a famosa frase de Shakespeare (“Meu reino por um cavalo”), indicando que até um pente (objeto trivial) se torna tão valioso a ponto de merecer a troca por todo o “reino”. A inferência é que coisas corriqueiras podem ser indispensáveis no dia a dia.

Alternativa A — ❌ Incorreta

Extrapolação: o texto não faz comparação entre valor de coisas materiais e experiências afetivas. A discussão inicial sobre filhos é logo abandonada para focar no desaparecimento de objetos de trabalho, mas não há juízo de valor sobre o que é mais importante.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Contradiz o texto: o enunciador não demonstra senso de organização; ao contrário, revela desorganização (“procurar em vão meu bloco de papel”) e reação emocional desproporcional (taquicardia, vontade de demitir-se). Organização não é tema.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Troca de conceito: a alternativa afirma “desapego em relação aos pertences”, mas o texto mostra exatamente o oposto: o autor se desespera com a perda de objetos, demonstrando forte apego. A palavra “reino” metaforiza tudo o que ele possui, mas não indica desapego; indica que ele estaria disposto a trocar seu “reino” para recuperar o objeto perdido — apego extremo.

Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Sustentada pelo texto: a crônica inteira mostra como objetos sem valor material (pente, bloco, caneta) se tornam indispensáveis quando desaparecem. O título e a conclusão (“sem os quais a gente não pode seguir adiante”) confirmam que elementos corriqueiros podem ser essenciais.

Gabarito: letra D

Link permanente: /questoes/qq749518