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Questão de Português — Interpretação de Textos — Avança SP 2023

PortuguêsInterpretação de Textos
Código
qq840806
Banca
Avança SP
Órgão
SAAE de Amparo - SP
Ano
2023
Nível
Superior

Silêncio


É tão vasto o silêncio da noite na montanha. É tão despovoado. Tenta-se em vão trabalhar para não ouvi-lo, pensar depressa para disfarçá-lo. Ou inventar um programa, frágil ponto que mal nos liga ao subitamente improvável dia de amanhã. Como ultrapassar essa paz que nos espreita. Silêncio tão grande que o desespero tem pudor. Montanhas tão altas que o desespero tem pudor. Os ouvidos se afiam, a cabeça se inclina, o corpo todo escuta: nenhum rumor. Nenhum galo. Como estar ao alcance dessa profunda meditação do silêncio. Desse silêncio sem lembrança de palavras. Se és morte, como te alcançar. É um silêncio que não dorme: é insone: imóvel mas insone; e sem fantasmas. É terrível – sem nenhum fantasma. Inútil querer povoá-lo com a possibilidade de uma porta que se abra rangendo, de uma cortina que se abra e diga alguma coisa. Ele é vazio e sem promessa. Se ao menos houvesse o vento. Vento é ira, ira é a vida. Ou neve. Que é muda mas deixa rastro – tudo embranquece, as crianças riem, os passos rangem e marcam. Há uma continuidade que é a vida. Mas este silêncio não deixa provas. Não se pode falar do silêncio como se fala da neve. Não se pode dizer a ninguém como se diria da neve: sentiu o silêncio desta noite? Quem ouviu não diz. A noite desce com suas pequenas alegrias de quem acende lâmpadas com o cansaço que tanto justifica o dia. As crianças de Berna adormecem, fecham-se as últimas portas. As ruas brilham nas pedras do chão e brilham já vazias. E afinal apagam-se as luzes as mais distantes. Mas este primeiro silêncio ainda não é o silêncio. Que se espere, pois as folhas das árvores ainda se ajeitarão melhor, algum passo tardio talvez se ouça com esperança pelas escadas. Mas há um momento em que do corpo descansado se ergue o espírito atento, e da terra a lua alta. Então ele, o silêncio, aparece. O coração bate ao reconhecêlo. Pode-se depressa pensar no dia que passou. Ou nos amigos que passaram e para sempre se perderam. Mas é inútil esquivar-se: há o silêncio. Mesmo o sofrimento pior, o da amizade perdida, é apenas fuga. Pois se no começo o silêncio parece aguardar uma resposta – como ardemos  por ser chamados a responder – cedo se descobre que de ti ele nada exige, talvez apenas o teu silêncio. Quantas horas se perdem na escuridão supondo que o silêncio te julga – como esperamos em vão por ser julgados pelo Deus. É tão vasto o silêncio da noite na montanha. É tão despovoado. Tenta-se em vão trabalhar para não ouvi-lo, pensar depressa para disfarçá-lo. Ou inventar um programa, frágil ponto que mal nos liga ao subitamente improvável dia de amanhã. Como ultrapassar essa paz que nos espreita. Silêncio tão grande que o desespero tem pudor. Montanhas tão altas que o desespero tem pudor. Os ouvidos se afiam, a cabeça se inclina, o corpo todo escuta: nenhum rumor. Nenhum galo. Como estar ao alcance dessa profunda meditação do silêncio. Desse silêncio sem lembrança de palavras. Se és morte, como te alcançar. É um silêncio que não dorme: é insone: imóvel mas insone; e sem fantasmas. É terrível – sem nenhum fantasma. Inútil querer povoá-lo com a possibilidade de uma porta que se abra rangendo, de uma cortina que se abra e diga alguma coisa. Ele é vazio e sem promessa. Se ao menos houvesse o vento. Vento é ira, ira é a vida. Ou neve. Que é muda mas deixa rastro – tudo embranquece, as crianças riem, os passos rangem e marcam. Há uma continuidade que é a vida. Mas este silêncio não deixa provas. Não se pode falar do silêncio como se fala da neve. Não se pode dizer a ninguém como se diria da neve: sentiu o silêncio desta noite? Quem ouviu não diz. A noite desce com suas pequenas alegrias de quem acende lâmpadas com o cansaço que tanto justifica o dia. As crianças de Berna adormecem, fecham-se as últimas portas. As ruas brilham nas pedras do chão e brilham já vazias. E afinal apagam-se as luzes as mais distantes. Mas este primeiro silêncio ainda não é o silêncio. Que se espere, pois as folhas das árvores ainda se ajeitarão melhor, algum passo tardio talvez se ouça com esperança pelas escadas. Mas há um momento em que do corpo descansado se ergue o espírito atento, e da terra a lua alta. Então ele, o silêncio, aparece. O coração bate ao reconhecêlo. Pode-se depressa pensar no dia que passou. Ou nos amigos que passaram e para sempre se perderam. Mas é inútil esquivar-se: há o silêncio. Mesmo o sofrimento pior, o da amizade perdida, é apenas fuga. Pois se no começo o silêncio parece aguardar uma resposta – como ardemos Surgem as justificações, trágicas justificações forjadas, humildes desculpas até a indignidade. Tão suave é para o ser humano enfim mostrar sua indignidade e ser perdoado com a justificativa de que se é um ser humano humilhado de nascença. Até que se descobre – nem a sua indignidade ele quer. Ele é o silêncio. Pode-se tentar enganá-lo também. Deixa-se como por acaso o livro de cabeceira cair no chão. Mas, horror – o livro cai dentro do silêncio e se perde na muda e parada voragem deste. E se um pássaro enlouquecido cantasse? Esperança inútil. O canto apenas atravessaria como uma leve flauta o silêncio. Então, se há coragem, não se luta mais. Entra-se nele, vai-se com ele, nós os únicos fantasmas de uma noite em Berna. Que se entre. Que não se espere o resto da escuridão diante dele, só ele próprio. Será como se estivéssemos num navio tão descomunalmente enorme que ignorássemos estar num navio. E este singrasse tão largamente que ignorássemos estar indo. Mais do que isso um homem não pode. Viver na orla da morte e das estrelas é vibração mais tensa do que as veias podem suportar. Não há sequer um filho de astro e de mulher como intermediário piedoso. O coração tem que se apresentar diante do nada sozinho e sozinho bater alto nas trevas. Só se sente nos ouvidos o próprio coração. Quando este se apresenta todo nu, nem é comunicação, é submissão. Pois nós não fomos feitos senão para o pequeno silêncio. Se não há coragem, que não se entre. [...]


Clarice Lispector. Onde estivestes de noite. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.

“Silêncio”, de Clarice Lispector, trata-se de um texto narrativo. Enquanto texto desse tipo, suas principais características são:
  1. Auso de elementos não verbais para produzir sentido.
  2. Bcaráter instrucional, com linguagem objetiva e impessoal.
  3. Cpresença de um(a) narrador(a), linguagem subjetiva e pessoal.
  4. Dexposição de fatos reais com linguagem objetiva e impessoal.
  5. Eestrutura em versos ritmados, linguagem subjetiva e presença de um eu lírico.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — presença de um(a) narrador(a), linguagem subjetiva e pessoal.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Tipologia Textual: Características do Texto Narrativo

Gabarito: letra C. O texto "Silêncio", de Clarice Lispector, é um texto narrativo porque apresenta presença de um(a) narrador(a), linguagem subjetiva e pessoal — como se lê no trecho em que o narrador se expressa em primeira pessoa: "Tenta-se em vão trabalhar para não ouvi-lo, pensar depressa para disfarçá-lo". A alternativa C é a única que reúne as características essenciais da narração: um narrador (que aqui se manifesta de forma subjetiva e pessoal), enredo, personagens, tempo e espaço.

O Comando

A questão pede que você identifique as principais características de um texto narrativo. Isso é uma questão de tipologia textual: você precisa reconhecer o tipo de texto pelo seu conteúdo e intenção, não pela forma. O enunciado já afirma que o texto é narrativo — sua tarefa é saber quais características definem esse tipo.

O Texto

O texto de Clarice Lispector é uma narrativa em prosa poética. Há um narrador que observa e reflete sobre o silêncio da noite na montanha, em Berna. A linguagem é subjetiva — carregada de impressões pessoais, emoções e reflexões íntimas: "É tão vasto o silêncio da noite na montanha. É tão despovoado." O narrador se coloca no texto, usando a primeira pessoa do plural e expressando seus sentimentos: "Tenta-se em vão trabalhar para não ouvi-lo, pensar depressa para disfarçá-lo." Isso é típico da narração: um eu que conta, que vive a experiência.

A Técnica

Para resolver, você deve lembrar as características de cada tipo textual:

  • Narrativo: conta uma história, com narrador, personagens, enredo, tempo e espaço. A linguagem costuma ser subjetiva e pessoal, especialmente quando o narrador é em primeira pessoa.

  • Descritivo: caracteriza seres, objetos ou ambientes, com foco em detalhes sensoriais e adjetivos.

  • Dissertativo: expõe ou defende ideias, com tese e argumentos, linguagem objetiva e impessoal.

  • Injuntivo: dá instruções, ordens, conselhos, com linguagem objetiva e impessoal.

  • Poético: estrutura em versos, com métrica, rima e eu lírico.

A pegadinha da banca é misturar características de outros tipos. Por exemplo, a alternativa D fala em "exposição de fatos reais com linguagem objetiva e impessoal" — isso é típico do dissertativo-expositivo, não do narrativo. A alternativa E fala em "estrutura em versos ritmados" — isso é do poético, não do narrativo em prosa.

Análise das Alternativas

1Narrativo
Narrador
Linguagem subjetiva e pessoal
Enredo, personagens, tempo, espaço
2Descritivo
Caracteriza seres, objetos, ambientes
Detalhes sensoriais e adjetivos
3Dissertativo
Expõe ou defende ideias
Tese e argumentos
Linguagem objetiva e impessoal
4Injuntivo
Instruções, ordens, conselhos
Linguagem objetiva e impessoal
5Poético
Versos, métrica, rima
Eu lírico
Tipologia textual
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Tipologia textual: Narrativo (Narrador, Linguagem subjetiva e pessoal, Enredo, personagens, tempo, espaço); Descritivo (Caracteriza seres, objetos, ambientes, Detalhes sensoriais e adjetivos); Dissertativo (Expõe ou defende ideias, Tese e argumentos, Linguagem objetiva e impessoal); Injuntivo (Instruções, ordens, conselhos, Linguagem objetiva e impessoal); Poético (Versos, métrica, rima, Eu lírico)

Alternativa A — ❌ Incorreta

Uso de elementos não verbais para produzir sentido. O texto é essencialmente verbal; não há imagens, gráficos ou outros elementos não verbais. A alternativa extrapola — acrescenta uma característica que não está no texto e que não é própria do narrativo.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Caráter instrucional, com linguagem objetiva e impessoal. O texto não tem caráter instrucional — não dá ordens nem orientações. A linguagem é subjetiva e pessoal, não objetiva e impessoal. A alternativa contradiz o texto e confunde com o tipo injuntivo.

Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Presença de um(a) narrador(a), linguagem subjetiva e pessoal. O texto tem um narrador que se expressa de forma subjetiva e pessoal, como se vê em: "Tenta-se em vão trabalhar para não ouvi-lo, pensar depressa para disfarçá-lo". O narrador compartilha suas impressões íntimas sobre o silêncio, o que é típico da narração. A alternativa está inteiramente sustentada pelo texto.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Exposição de fatos reais com linguagem objetiva e impessoal. O texto não expõe fatos reais de forma objetiva; é uma reflexão subjetiva e poética. A linguagem é pessoal, não impessoal. A alternativa contradiz o texto e confunde com o dissertativo-expositivo.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Estrutura em versos ritmados, linguagem subjetiva e presença de um eu lírico. O texto está em prosa, não em versos. Não há métrica nem rima. A presença de um eu lírico é característica do texto poético, não do narrativo. A alternativa tangencia — mistura características do poético com o narrativo, mas a estrutura em versos não se aplica.

NÃO CAIA NESSA!

A banca mistura características de outros tipos textuais (descritivo, dissertativo, injuntivo, poético) para confundir. A chave é lembrar que o narrativo tem narrador, enredo, personagens, tempo e espaço — e a linguagem pode ser subjetiva e pessoal.

PEGA ESSA DICA!

Ao identificar a tipologia, pergunte: qual é a intenção do autor? Narrar (contar), descrever (caracterizar), dissertar (expor/defender), instruir (orientar) ou poetizar (expressar em versos)? O conteúdo predomina sobre a forma.

Conclusão: a única alternativa que reúne as características essenciais do texto narrativo é a letra C — presença de narrador, linguagem subjetiva e pessoal. As demais ou contradizem o texto ou misturam características de outros tipos textuais.

Gabarito: letra C

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