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Questão de Português — Interpretação de Textos — VUNESP 2019

PortuguêsInterpretação de Textos
Código
vu041360
Banca
VUNESP
Órgão
DAEM
Ano
2019
Nível
Fundamental
Cargo
Mecânico II
Leia o texto para responder à questão.

    Arrastaram-se para lá, devagar, Sinha Vitória com o filho mais novo escanchado no quarto e o baú de folha na cabeça, Fabiano sombrio, cambaio, o aió a tiracolo, a cuia pendurada numa correia presa ao cinturão, a espingarda de pederneira no ombro. O menino mais velho e a cachorra Baleia iam atrás. Os juazeiros aproximaram-se, recuaram, sumiram-se. O menino mais velho pôs-se a chorar, sentou-se no chão. 
    – Anda, condenado do diabo, gritou-lhe o pai. Não obtendo resultado, fustigou-o com a bainha da faca de ponta. Mas o pequeno esperneou acuado, depois sossegou, deitou-se, fechou os olhos. Fabiano ainda lhe deu algumas pancadas e esperou que ele se levantasse. Como isto não acontecesse, espiou os quatro cantos, zangado, praguejando baixo.
    A caatinga estendia-se, de um vermelho indeciso salpicado de manchas brancas que eram ossadas.
    O voo negro dos urubus fazia círculos altos em redor de bichos moribundos.
    – Anda, excomungado.
    O pirralho não se mexeu, e Fabiano desejou matá-lo. Tinha o coração grosso, queria responsabilizar alguém pela sua desgraça. A seca aparecia-lhe como um fato necessário – e a obstinação da criança irritava-o. Certamente esse obstáculo miúdo não era culpado, mas dificultava a marcha, e o vaqueiro precisava chegar, não sabia onde.
    Pelo espírito atribulado do sertanejo passou a ideia de abandonar o filho naquele descampado. Pensou nos urubus, nas ossadas, coçou a barba ruiva e suja, irresoluto, examinou os arredores. Sinha Vitória estirou o beiço indicando vagamente uma direção e afirmou com alguns sons guturais que estavam perto. Fabiano meteu a faca na bainha, guardou-a no cinturão, acocorou-se, pegou no pulso do menino, que se encolhia, os joelhos encostados no estômago, frio como um defunto. Aí a cólera desapareceu e Fabiano teve pena. Impossível abandonar o anjinho aos bichos do mato. Entregou a espingarda a Sinha Vitória, pôs o filho no cangote, levantou-se, agarrou os bracinhos que lhe caíam sobre o peito, moles, finos como cambitos. Sinha Vitória aprovou esse arranjo, lançou de novo a interjeição gutural, designou os juazeiros invisíveis.
    E a viagem prosseguiu, mais lenta, mais arrastada, num silêncio grande.
                                                             (Graciliano Ramos, Vidas Secas. Adaptado)
No texto, Fabiano reage de formas distintas em relação à imobilidade do filho. Essas duas reações estão corretamente expressas nos trechos:
  1. AO pirralho não se mexeu, e Fabiano desejou matá-lo. / Pelo espírito atribulado do sertanejo passou a ideia de abandonar o filho naquele descampado.
  2. B– Anda, condenado do diabo, gritou-lhe o pai. / Tinha o coração grosso, queria responsabilizar alguém pela sua desgraça.
  3. C… pegou no pulso do menino, que se encolhia… / … agarrou os bracinhos que lhe caíam sobre o peito, moles, finos como cambitos.
  4. DFabiano ainda lhe deu algumas pancadas e esperou que ele se levantasse. / Aí a cólera desapareceu e Fabiano teve pena.
  5. EComo isto não acontecesse, espiou os quatro cantos, zangado, praguejando baixo. / … e o vaqueiro precisava chegar, não sabia onde.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoD — Fabiano ainda lhe deu algumas pancadas e esperou que ele se levantasse. / Aí a cólera desapareceu e Fabiano teve pena.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Reações de Fabiano à imobilidade do filho

Gabarito: letra D. A alternativa D é a única que reúne os dois trechos que expressam, exatamente, as reações distintas de Fabiano diante da recusa do menino em andar: primeiro a agressão (pancadas e espera) e, depois, a comoção (cólera que cede lugar à pena).

O que o texto mostra

No início, Fabiano ordena e bate no filho, mas o menino não se mexe. A primeira reação é violenta: “Fabiano ainda lhe deu algumas pancadas e esperou que ele se levantasse.” Em seguida, percebendo o estado do garoto – frio “como um defunto” –, o ânimo do sertanejo muda: “Aí a cólera desapareceu e Fabiano teve pena.” Esses dois trechos, lado a lado, captam a oscilação entre castigo e compaixão.

Por que as outras estão erradas

  • Alternativa A – Extrapola: “Pelo espírito atribulado do sertanejo passou a ideia de abandonar o filho” é um pensamento, não uma reação externa à imobilidade; o primeiro trecho também é consequência da imobilidade, mas a banca tenta confundir com o desejo de matar, que é uma reação momentânea, porém não a segunda reação (que é a pena).

  • Alternativa B – O primeiro trecho é uma fala (ação de gritar), mas o segundo (“Tinha o coração grosso...”) é a causa da raiva, não a segunda reação diante da imobilidade; além disso, não expressa a mudança para a pena.

  • Alternativa C – Os dois trechos referem-se ao manuseio do menino depois que a pena já surgiu; não mostram o contraste inicial (agressão vs. compaixão).

  • Alternativa E – O primeiro trecho descreve Fabiano “zangado, praguejando”, que é uma reação, mas o segundo (“o vaqueiro precisava chegar...”) é a motivação da pressa, não a segunda reação distinta.

💡 Dica: Em questões que pedem “duas reações distintas”, procure no texto momentos de virada emocional – geralmente marcados por adversativos (“mas”, “aí”, “porém”). A alternativa D traz exatamente a sequência: pancadaspena.

Gabarito: letra D

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