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Questão de Português — Interpretação de Textos — VUNESP 2019

PortuguêsInterpretação de Textos
Código
vu056992
Banca
VUNESP
Órgão
UNIFAI
Ano
2019
Nível
Superior
Uma invenção humana
    Vejo a literatura como um instrumento excepcional da nossa civilização. Ela ajuda a esclarecer o mundo. Quem nós somos? Quem nós fomos? Lendo a Ilíada, você pode imaginar quais foram os sentimentos de Aquiles ou de Príamo. Você se pergunta: “Por que esse fervor pela narrativa?”. Porque o ser humano precisou narrar, para que os fatos da vida, da poética do cotidiano, não desaparecessem. Enquanto o ser humano forjava a sua civilização, dava combate aos deuses e procurava entender em que caos estava imerso, ele contava histórias. Para que nada se perdesse. Não havia bibliotecas. No caso de Homero, os aedos – e quase podíamos intitulá-los os poetas da memória – memorizavam tudo para que os fatos humanos não se perdessem. E, assim, a angústia em relação à apreensão da vida real, o real humano, visível, intangível, esteve presente em todas as civilizações. Nas nossas Américas, por exemplo, houve entre os incas uma categoria social, a dos amautas, que tinha por finalidade única memorizar. Memorizar para que os povos não se esquecessem das suas próprias histórias. Quer dizer, a literatura não foi uma invenção dos escritores, gosto muito de enfatizar isso. Foi uma invenção humana.
     Milhões de pessoas já leram Dom Quixote. Milhões, em diferentes línguas. Mas é o mesmo livro para diferentes leitores. Isso prova que a literatura dá visibilidade a quem somos, a nossos sentimentos mais secretos, mais obscuros, mais desesperados, às esperanças mais condicionais do ser humano. E a literatura conta histórias porque os sentimentos precisam de uma história para que você se dê conta deles. Então, a literatura pensou em dar conta de quem somos, dessa nossa complexidade extraordinária. Porque somos seres fundamentalmente singulares. E, por isso, a literatura é singular.

(Nélida PIÑON. Uma invenção humana – depoimento ao escritor e jornalista José Castello. Rascunho nº 110. Curitiba: 2009. In http://rascunho.com.br/wp-content/uploads/2012/02/ Book_Rascunho_110.pdf. Acesso em 15.11.18. Adaptado)
O depoimento de Nélida Piñon permite afirmar que, para a escritora,
  1. Auma obra literária se modifica conforme as características de seus diversos leitores em suas diversificadas línguas.
  2. Ba ausência das bibliotecas, na Antiguidade grega, fez com que parte das informações sobre os feitos humanos se perdessem.
  3. Ca falta de bibliotecas fez com que os povos do continente americano adquirissem o costume de decorar textos.
  4. Dos amautas e os aedos tinham como característica comum a memorização dos fatos produzidos pela espécie humana.
  5. Ea criação da literatura é a prova definitiva de que a banalidade dos sentimentos humanos é a matéria-prima dos escritores.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoD — os amautas e os aedos tinham como característica comum a memorização dos fatos produzidos pela espécie humana.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Compreensão de texto: a memorização como traço comum entre aedos e amautas

Gabarito: letra D. A alternativa D é a única que parafraseia fielmente o que o texto afirma: tanto os aedos quanto os amautas tinham como função memorizar os fatos humanos para que não se perdessem. Como se lê no trecho: “os aedos – e quase podíamos intitulá-los os poetas da memória – memorizavam tudo para que os fatos humanos não se perdessem” e, sobre os amautas, “tinha por finalidade única memorizar. Memorizar para que os povos não se esquecessem das suas próprias histórias”. A questão é de compreensão (o comando pede “permite afirmar”), ou seja, a resposta deve estar explícita no texto, sem deduções.

O texto defende que a literatura é uma invenção humana, anterior aos escritores, e que nasceu da necessidade de narrar para que os fatos da vida não desaparecessem. Para sustentar essa tese, a autora cita dois exemplos históricos: os aedos gregos (poetas da memória) e os amautas incas, ambos dedicados a memorizar as histórias de seus povos. A alternativa correta apenas sintetiza essa informação comum aos dois grupos.

Alternativa A — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que “uma obra literária se modifica conforme as características de seus diversos leitores”. O texto diz exatamente o contrário: “Milhões de pessoas já leram Dom Quixote. Milhões, em diferentes línguas. Mas é o mesmo livro para diferentes leitores.” Ou seja, a obra não se modifica; o que muda é a leitura que cada um faz. A alternativa contradiz o texto ao inverter a ideia de permanência da obra.

Alternativa B — ❌ Incorreta

A alternativa diz que a ausência de bibliotecas fez com que parte das informações se perdesse. O texto afirma o oposto: “Não havia bibliotecas. No caso de Homero, os aedos […] memorizavam tudo para que os fatos humanos não se perdessem.” A memorização evitava a perda, não a causava. A alternativa contradiz o texto ao atribuir à falta de bibliotecas um efeito que o texto nega.

Alternativa C — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que a falta de bibliotecas fez com que os povos americanos adquirissem o costume de decorar textos. O texto não estabelece essa relação de causa e efeito. Ele apenas menciona que, entre os incas, havia os amautas, cuja função era memorizar. Não há nenhuma passagem ligando a ausência de bibliotecas ao surgimento desse costume. A alternativa extrapola ao criar uma causalidade que o texto não sustenta.

Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A alternativa sintetiza corretamente a informação explícita: os aedos “memorizavam tudo para que os fatos humanos não se perdessem” e os amautas “tinha por finalidade única memorizar. Memorizar para que os povos não se esquecessem das suas próprias histórias”. Ambos, portanto, tinham como característica comum a memorização dos fatos produzidos pela espécie humana. É uma paráfrase fiel, sem acréscimos.

Alternativa E — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que a literatura é a prova definitiva de que a banalidade dos sentimentos humanos é a matéria-prima dos escritores. O texto não fala em “banalidade” dos sentimentos; ao contrário, destaca a “complexidade extraordinária” do ser humano e os sentimentos “mais secretos, mais obscuros, mais desesperados”. Além disso, a literatura não é vista como “prova definitiva”, mas como um instrumento que dá visibilidade a quem somos. A alternativa extrapola e ainda distorce o sentido ao usar o termo “banalidade”.

NÃO CAIA NESSA!

A banca tenta atrair o candidato com alternativas que usam palavras do texto (bibliotecas, leitores, sentimentos) mas invertem ou acrescentam informações. A correta é a que apenas reorganiza o que está dito, sem criar nada novo.

PEGA ESSA DICA!

Em questões de compreensão, desconfie de alternativas que introduzem relações de causa e efeito ou juízos de valor que não estão no texto. A resposta certa é sempre uma paráfrase — mesma ideia, outras palavras.

Gabarito: letra D.

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