Acabo de levantar-me; logo serão cinco horas da manhã;
procuro não fazer barulho, vou até a cozinha e preparo uma
xícara de chá enquanto tento resgatar fragmentos de meus
entressonhos, esses entressonhos que, aos 86 anos, aparecem-me atemporais, misturados com lembranças da infância.
Nunca tive boa memória, sempre sofri essa desvantagem;
mas talvez seja um modo de recordar apenas o que se deve,
talvez a maior coisa que nos aconteceu na vida, a que tem
algum significado profundo, a que foi decisiva – para o bem
e para o mal – nesta complexa, contraditória e inexplicável
viagem rumo à morte que é a vida de toda pessoa. Por isso
minha cultura é tão irregular, repleta de enormes lacunas,
como que construída com restos de belíssimos templos cujos
pedaços se encontram entre detritos e plantas selvagens. Os
livros que li, as teorias que frequentei, deveram-se a meus
próprios tropeços com a realidade.
Quando me param na rua, numa praça ou no trem, para
perguntar-me que livros é preciso ler, respondo sempre:
“Leiam o que os apaixone, apenas isso os ajudará a suportar
a existência”.
(Ernesto Sabato. Antes do fim. Trad. Sérgio Molina.
São Paulo: Companhia das Letras, 2000)
Na passagem “Nunca tive boa memória, sempre sofri essa desvantagem; mas talvez seja um modo de recordar apenas o que se deve, talvez a maior coisa que nos aconteceu na vida, a que tem algum significado profundo, a que foi decisiva...”, os termos destacados introduzem no contexto, respectivamente, as ideias de
Anegação, afirmação e reciprocidade.
Bcausa, consequência e conformidade.
Cdúvida, condição e condição.
Dintensidade, intensidade e concessão.
Etempo, tempo e dúvida.
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GabaritoE — tempo, tempo e dúvida.
Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.
Valor semântico dos advérbios em "Nunca tive boa memória, sempre sofri essa desvantagem; mas talvez..."
Gabarito: letra E. Os termos destacados introduzem, respectivamente, as ideias de tempo, tempo e dúvida: "nunca" e "sempre" são advérbios de tempo (indicam quando a ação ocorre — negação de tempo e constância), e "talvez" é advérbio de dúvida (indica possibilidade, incerteza). Essa leitura é confirmada pelo contexto: o autor fala de sua memória ao longo da vida ("Nunca tive boa memória") e especula sobre o sentido disso ("talvez seja um modo de recordar...").
A questão é de interpretação contextual: o valor semântico de um advérbio não é fixo, mas determinado pelo uso na frase. Veja o trecho:
"Nunca tive boa memória, sempre sofri essa desvantagem; mas talvez seja um modo de recordar apenas o que se deve..."
Nunca = advérbio de tempo (equivale a "em nenhum momento", "jamais"). Indica uma negação temporal, mas a circunstância expressa é de tempo.
Sempre = advérbio de tempo (equivale a "em todos os momentos", "constantemente"). Indica continuidade temporal.
Talvez = advérbio de dúvida (equivale a "possivelmente", "porventura"). Expressa incerteza do autor sobre a interpretação que propõe.
Advérbios no trecho: "Nunca" (Tempo, equivale a "jamais"); "Sempre" (Tempo, equivale a "constantemente"); "Talvez" (Dúvida, equivale a "possivelmente")
Alternativa A — ❌ Incorreta
Atribui a "nunca" a ideia de negação e a "sempre" a de afirmação. Embora "nunca" tenha valor negativo e "sempre" possa sugerir afirmação, a circunstância que eles expressam é de tempo — a banca explora a confusão entre o valor lógico (negação/afirmação) e o valor semântico (tempo). O texto não autoriza classificá-los como negação/afirmação.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Fala em causa, consequência e conformidade, relações que não estão presentes. "Nunca" e "sempre" não estabelecem causa nem consequência; "talvez" não expressa conformidade. A alternativa tangencia o texto ao trazer relações semânticas que não aparecem no trecho.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Classifica "talvez" como condição — erro clássico. "Talvez" expressa dúvida, não condição (condição seria "se", "caso", "contanto que"). Além disso, atribui condição a "nunca" e "sempre", que são de tempo.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Trata "nunca" e "sempre" como intensidade — o que não se sustenta: eles não modificam um adjetivo ou outro advérbio indicando grau; indicam tempo. E "talvez" não é concessão (concessão seria "embora", "ainda que").
Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Reconhece corretamente os valores: tempo para "nunca" e "sempre", e dúvida para "talvez". É a única leitura plenamente ancorada no texto e na classificação gramatical.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre o valor lógico de "nunca" (negação) e "sempre" (afirmação) e o valor semântico de tempo. Além disso, "talvez" é sedutoramente associado a condição, mas é advérbio de dúvida.
PEGA ESSA DICA!
Ao analisar advérbios, pergunte: "que circunstância ele acrescenta ao verbo?" — tempo, modo, intensidade, dúvida etc. Não se deixe levar pelo sentido lógico isolado; o contexto decide.