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Questão de Português — Regência — VUNESP 2020

PortuguêsRegência
Código
vu062238
Banca
VUNESP
Órgão
Valiprev - SP
Ano
2020
Nível
Médio
Cargo
Agente Administrativo

      Se a vida é um vale de lágrimas, por que não processar os pais por nos terem trazido ao mundo?

      Se o leitor nunca pensou nessa hipótese, isso pode significar duas coisas. Primeiro, que é uma pessoa sã. Segundo, que nunca leu a saga do indiano Raphael Samuel, 27, que tentou processar os progenitores, segundo o jornal “The Guardian”.

      Sim, Samuel confessa que tem uma excelente relação com eles. Mas há, digamos, um “pecado original” que o rapaz não pode perdoar: ele nasceu sem dar o seu consentimento. Uma indenização, ainda que simbólica, seria uma forma de fazer doutrina: quando queremos ter filhos, é importante ter o consentimento deles.

      Por essa altura, o leitor inteligente que lê as minhas colunas já deve ter feito uma pergunta fundamental: como obter esse consentimento? E, já agora, em que fase?

      A ciência terá aqui uma palavra importante. Mas, conhecendo o narcisismo da espécie e a tendência irresistível de marchar pelas causas mais improváveis, não é de excluir que adolescentes de todas as idades, frustrados com a vida e com a necessidade de escovar os dentes, encontrem em Raphael Samuel um modelo (de negócio).

      Antigamente, os pais poupavam para a universidade dos filhos. Hoje, convém poupar primeiro para a indenização que eles nos vão pedir.

      No limite, ver o filho a pedir uma indenização aos pais por ter nascido faz tanto sentido como pedir uma indenização ao filho por ele não querer estar cá. Quem disse que só o filho pode ter razões de queixa?

      O problema dos cálculos meramente utilitaristas é que eles são dotados de uma espantosa flexibilidade. E da mesma forma que os filhos avaliam os seus danos por terem nascido, os pais podem atuar da mesma forma.

      Investiram tudo no delfim – patrimônio genético, tempo, dinheiro, sanidade e expectativas legítimas de que ele seria um adulto.

      Mas o ingrato, no fim das contas, ainda quer fazer contas. Se isso não é motivo para uma indenização pesada, só um anjo nos pode salvar.


(João Pereira Coutinho, Alô, filho, você quer mesmo sair?

Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br.

Acesso em: 15.11.2019. Adaptado)

Assinale a alternativa em que a substituição do trecho, nos colchetes, está de acordo com a norma-padrão de regência verbal.
  1. Aprocessar os pais [levar os pais na justiça]
  2. Bpensou nessa hipótese [cogitou sobre essa hipótese]
  3. Cobter esse consentimento [lograr desse consentimento]
  4. Davaliam os seus danos [calculam a seus danos]
  5. Eele nasceu [veio no mundo]
Revelar gabarito e comentário

GabaritoB — pensou nessa hipótese [cogitou sobre essa hipótese]

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Regência verbal: substituição sem quebrar a transitividade

Gabarito: letra B. A única substituição que respeita a norma-padrão de regência é "pensou nessa hipótese" → "cogitou sobre essa hipótese", pois "cogitar" é transitivo indireto e rege a preposição "sobre" — exatamente como o trecho original, em que "pensar" também pede a preposição "em". As demais alternativas trocam a regência do verbo, exigindo preposição onde não há ou omitindo-a onde é obrigatória.

A questão cobra regência verbal — a relação de subordinação entre o verbo e seus complementos. O comando pede que você verifique se a substituição mantém a correção gramatical, não o sentido. Para resolver, identifique a transitividade do verbo original e confira se o verbo substituto exige a mesma preposição (ou a ausência dela).

Verbo original

Regência

Substituição

Regência

Correto?

Processar (VTD)

sem preposição

Levar na justiça

VTD + "em" (coloquial)

Pensar (VTI)

em

Cogitar sobre

VTI + "sobre"

Obter (VTD)

sem preposição

Lograr desse

VTI + "de" (inexistente)

Avaliar (VTD)

sem preposição

Calcular a

VTD + "a" (indevida)

Nascer (intransitivo)

sem complemento

Vir no mundo

coloquial

Alternativa A — ❌ Incorreta

"processar os pais" → "levar os pais na justiça" está errada porque "levar" é transitivo direto (levar alguém), mas a substituição introduz a preposição "em" — "levar na justiça" é construção coloquial, não padrão. O verbo "processar" também é transitivo direto (processar alguém), portanto a substituição deveria manter o complemento sem preposição: "levar os pais à justiça" (com crase, indicando movimento) ou "levar os pais para a justiça". A forma "na justiça" indica lugar fixo, não o ato de processar. Erro: troca de regência e uso coloquial.

Alternativa B — ✅ Correta

"pensou nessa hipótese" → "cogitou sobre essa hipótese" está correta porque "pensar" (no sentido de refletir) é transitivo indireto e rege a preposição "em" — "pensar em algo". O verbo "cogitar" também é transitivo indireto e rege a preposição "sobre" — "cogitar sobre algo". Ambas as construções estão de acordo com a norma-padrão, mantendo a regência adequada. A substituição preserva a correção gramatical.

Alternativa C — ❌ Incorreta

"obter esse consentimento" → "lograr desse consentimento" está errada porque "obter" é transitivo direto (obter algo), sem preposição. O verbo "lograr" também é transitivo direto (lograr algo), portanto a forma correta seria "lograr esse consentimento", sem a preposição "de". A construção "lograr desse" é incorreta, pois "lograr" não rege a preposição "de". Erro: preposição indevida após verbo transitivo direto.

Alternativa D — ❌ Incorreta

"avaliam os seus danos" → "calculam a seus danos" está errada porque "avaliar" é transitivo direto (avaliar algo), sem preposição. O verbo "calcular" também é transitivo direto (calcular algo), portanto a forma correta seria "calculam os seus danos", sem a preposição "a". A construção "a seus danos" é incorreta, pois "calcular" não rege a preposição "a". Erro: preposição indevida após verbo transitivo direto.

Alternativa E — ❌ Incorreta

"ele nasceu" → "veio no mundo" está errada porque "nascer" é verbo intransitivo, não exige complemento. A substituição "veio no mundo" é uma expressão coloquial, que não segue a norma-padrão. A forma padrão seria "veio ao mundo" (com a preposição "a" e crase, indicando movimento). Erro: uso coloquial e preposição inadequada.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão entre verbos transitivos diretos e indiretos, oferecendo substituições que parecem equivalentes, mas quebram a regência. Desconfie de preposições extras ou ausentes.

PEGA ESSA DICA!

Ao substituir um verbo, verifique a transitividade do verbo original e do substituto. Se ambos forem transitivos diretos, não use preposição; se forem transitivos indiretos, use a preposição exigida por cada um.

Gabarito: letra B.

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