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Questão de Português — Noções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto — VUNESP 2020

PortuguêsNoções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto
Código
vu062246
Banca
VUNESP
Órgão
Valiprev - SP
Ano
2020
Nível
Médio
Cargo
Agente Administrativo

      Se a vida é um vale de lágrimas, por que não processar os pais por nos terem trazido ao mundo?

      Se o leitor nunca pensou nessa hipótese, isso pode significar duas coisas. Primeiro, que é uma pessoa sã. Segundo, que nunca leu a saga do indiano Raphael Samuel, 27, que tentou processar os progenitores, segundo o jornal “The Guardian”.

      Sim, Samuel confessa que tem uma excelente relação com eles. Mas há, digamos, um “pecado original” que o rapaz não pode perdoar: ele nasceu sem dar o seu consentimento. Uma indenização, ainda que simbólica, seria uma forma de fazer doutrina: quando queremos ter filhos, é importante ter o consentimento deles.

      Por essa altura, o leitor inteligente que lê as minhas colunas já deve ter feito uma pergunta fundamental: como obter esse consentimento? E, já agora, em que fase?

      A ciência terá aqui uma palavra importante. Mas, conhecendo o narcisismo da espécie e a tendência irresistível de marchar pelas causas mais improváveis, não é de excluir que adolescentes de todas as idades, frustrados com a vida e com a necessidade de escovar os dentes, encontrem em Raphael Samuel um modelo (de negócio).

      Antigamente, os pais poupavam para a universidade dos filhos. Hoje, convém poupar primeiro para a indenização que eles nos vão pedir.

      No limite, ver o filho a pedir uma indenização aos pais por ter nascido faz tanto sentido como pedir uma indenização ao filho por ele não querer estar cá. Quem disse que só o filho pode ter razões de queixa?

      O problema dos cálculos meramente utilitaristas é que eles são dotados de uma espantosa flexibilidade. E da mesma forma que os filhos avaliam os seus danos por terem nascido, os pais podem atuar da mesma forma.

      Investiram tudo no delfim – patrimônio genético, tempo, dinheiro, sanidade e expectativas legítimas de que ele seria um adulto.

      Mas o ingrato, no fim das contas, ainda quer fazer contas. Se isso não é motivo para uma indenização pesada, só um anjo nos pode salvar.


(João Pereira Coutinho, Alô, filho, você quer mesmo sair?

Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br.

Acesso em: 15.11.2019. Adaptado)

É correto concluir que, a partir de um fato divulgado na mídia, o autor traça
  1. Auma crítica ao fato, visto com intolerância.
  2. Buma avaliação do fato, visto com desconfiança.
  3. Cum questionamento do fato, considerado irresponsável.
  4. Duma caricatura da situação, tratada com humor.
  5. Eum exame da situação, em tom de censura.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoD — uma caricatura da situação, tratada com humor.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Caricatura e humor: a chave da questão

Gabarito: letra D. O autor não critica, não desconfia, não questiona com seriedade nem censura o fato — ele o transforma em caricatura, tratando a situação com humor, como se vê já no título e nas hipérboles do texto. A passagem que ancora essa leitura é a do 4º parágrafo: "não é de excluir que adolescentes de todas as idades, frustrados com a vida e com a necessidade de escovar os dentes, encontrem em Raphael Samuel um modelo (de negócio)". A imagem de adolescentes "frustrados" por "escovar os dentes" é deliberadamente absurda e cômica — é a caricatura de uma geração que processaria os pais por qualquer motivo.

O comando pede uma conclusão sobre a atitude do autor diante do fato divulgado. Isso é interpretação (inferência), não mera localização de informação: precisamos captar o tom global do texto. O autor parte de uma notícia real (o indiano Raphael Samuel processou os pais por ter nascido sem consentimento) e a desenvolve com exageros irônicos: "pecado original", "modelo (de negócio)", "indenização pesada", "só um anjo nos pode salvar". Nenhum desses recursos é usado para atacar o fato com seriedade — todos servem ao deboche bem-humorado.

Alternativa A — ❌ Incorreta

Erro: acrescentar opinião / extrapolar. O texto não demonstra intolerância com o fato. Intolerância seria uma reação de rejeição agressiva, de indignação moral. O autor, ao contrário, brinca com a situação: "faz tanto sentido como pedir uma indenização ao filho por ele não querer estar cá" — isso é ironia, não repúdio. A palavra "intolerância" embute um juízo que o autor não externa.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Erro: troca de conceito / restrição. O autor não trata o fato com desconfiança (suspeita de que seja falso ou enganoso). Ele aceita o fato como ponto de partida e o explora com humor. "Desconfiança" seria adequada se o texto questionasse a veracidade da notícia — o que não ocorre. O tom é de divertimento, não de ceticismo.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Erro: acrescentar opinião / extrapolar. O autor não questiona o fato como algo irresponsável. Questionar com seriedade seria problematizar a atitude de Raphael Samuel como um ato reprovável. O texto faz o oposto: trata a ideia como uma hipótese absurda e engraçada, não como um ato a ser condenado. A palavra "irresponsável" é um juízo moral que não está no texto.

Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A alternativa correta é a única que capta o tom do texto. O autor caricatura a situação — ou seja, exagera traços para criar efeito cômico — e a trata com humor. Veja as evidências:

"há, digamos, um 'pecado original' que o rapaz não pode perdoar: ele nasceu sem dar o seu consentimento."

O uso de "pecado original" entre aspas é irônico: compara o nascimento a uma culpa religiosa, com deboche.

"não é de excluir que adolescentes de todas as idades, frustrados com a vida e com a necessidade de escovar os dentes, encontrem em Raphael Samuel um modelo (de negócio)"

Aqui está a caricatura mais explícita: adolescentes "frustrados" por "escovar os dentes" é um exagero cômico que ridiculariza a ideia de processar os pais.

"Antigamente, os pais poupavam para a universidade dos filhos. Hoje, convém poupar primeiro para a indenização que eles nos vão pedir."

A inversão "poupar para a indenização" é uma piada — humor por contraste.

"Se isso não é motivo para uma indenização pesada, só um anjo nos pode salvar."

A hipérbole final "só um anjo nos pode salvar" fecha o texto em tom de brincadeira, não de censura.

Tudo isso confirma: o autor não critica, não desconfia, não questiona com seriedade — ele zomba da situação com uma caricatura bem-humorada.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Erro: acrescentar opinião / troca de tom. O texto não faz um exame da situação em tom de censura. "Censura" seria uma reprovação formal, um julgamento negativo. O autor não julga o fato; ele o usa como mote para uma crônica irônica. O tom é de humor, não de repreensão.

NÃO CAIA NESSA!

A banca tenta fazer você confundir humor com crítica séria. As alternativas A, C e E embutem um tom de reprovação que o texto não tem; a B troca o objeto (desconfiança da notícia). A correta exige captar a ironia e o exagero cômico — não a letra, mas o efeito.

PEGA ESSA DICA!

Em questões de tom, grife os recursos de humor: aspas irônicas, hipérboles, comparações absurdas. Se o texto faz rir, a resposta dificilmente será "crítica", "censura" ou "desconfiança".

Gabarito: letra D.

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