Questão de Português — Noções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto — VUNESP 2021
Português›Noções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto
Código
vu063056
Banca
VUNESP
Órgão
CODEN - SP
Ano
2021
Nível
Superior
Cargo
Advogado
Leia o texto para responder a questão:
Como as democracias adoecem
Para saber como as democracias morrem há legistas mais
capazes na autópsia. Mas, para diagnosticar como adoecem,
melhor observar o mal-estar dos fatos polêmicos à luz da
ousadia pessoal dos influentes que os cometem e da letargia
cívica com que os influenciados reagem a eles. Lesões oportunistas são obra de ideologias diversas que enfraquecem
uma nação e comprometem sua saúde democrática.
Neste artigo, olho um período cheio de egolatrias em que
ficamos à mercê da marca do outro. Assim como a gula, apetite sem limite de quem se sente situado no topo da cadeia
alimentar, a voracidade é mecanismo próprio do mau instinto
de quem não tem predador natural.
Se todos têm suas próprias razões no que fazem e estão
tão mergulhados de interesse nelas, não se trata de liberdade de pensamento e é difícil imaginar reflexão de boa-fé.
Existem ficções e existem fatos concretos. Embora pouco
praticada entre nós, a psico-história da política costuma ser
mais hábil para entender os venenos sutis que alimentam a
ambição dos que são notícia.
Anda, evidente, muito mal conduzida nossa democracia.
Mas isso não significa que tenha morrido. Lembra mais a lenda brasileira de que ninguém presta e não vai dar em nada.
Lenda que impulsiona o caráter arbitrário do tipo que manda
ver. Um costume primitivo, institucional, cuja dimensão ainda
não compreendemos inteiramente. É onde estacionou a curva da civilização brasileira e dali jamais passou. Ali onde o
mundo em que são cometidos crimes e as aberrações legais
ameaça ficar parecido com o mundo onde deveria ser possível corrigir suas consequências.
Ao tratar da democracia no último parágrafo, o autor sugere que ela
Adestruiu, com rigor, as bases de um costume tradicional e institucionalizado.
Binexistiu, de fato, na sociedade brasileira, considerando a civilização do país.
Cchancela a premissa corrente de que ninguém presta na sociedade brasileira.
Dresiste na sociedade brasileira, apesar da limitação da civilização brasileira.
Ecorresponde a um conceito de caráter arbitrário cuja dimensão é desconhecida.
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GabaritoD — resiste na sociedade brasileira, apesar da limitação da civilização brasileira.
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Democracia: resistência apesar da limitação
Gabarito: letra D. O autor sugere que a democracia resiste na sociedade brasileira, apesar da limitação da civilização brasileira. A passagem que ancora essa leitura está no último parágrafo: "Anda, evidente, muito mal conduzida nossa democracia. Mas isso não significa que tenha morrido". O conectivo "mas" instaura uma oposição entre o diagnóstico negativo ("muito mal conduzida") e a conclusão de que ela não morreu — ou seja, ela resiste, ainda que doente.
A questão pede compreensão ("o autor sugere"), mas exige captar a relação de oposição que o texto estabelece. A chave está em perceber que o autor não afirma que a democracia acabou, inexistiu ou foi destruída; ele apenas diagnostica uma doença — e doença pressupõe vida, não morte.
Alternativa A — ❌ Incorreta
Erro: contradiz o texto. A alternativa diz que a democracia "destruiu, com rigor, as bases de um costume tradicional e institucionalizado". O texto, porém, afirma o contrário: "Mas isso não significa que tenha morrido". Não há destruição; há adoecimento. Além disso, o "costume primitivo, institucional" é citado como algo que impulsiona o caráter arbitrário, não como algo destruído pela democracia.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Erro: extrapolação. A alternativa afirma que a democracia "inexistiu, de fato, na sociedade brasileira". O texto diz que ela está "muito mal conduzida", mas não que nunca existiu. A expressão "não significa que tenha morrido" pressupõe que ela existe — apenas está doente. Inexistir seria o mesmo que morrer, o que o autor nega explicitamente.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Erro: troca de sujeito. A alternativa diz que a democracia "chancela a premissa corrente de que ninguém presta". No texto, a "lenda" de que "ninguém presta e não vai dar em nada" é apresentada como algo que impulsiona o caráter arbitrário — não como algo chancelado pela democracia. O autor critica essa lenda, não a atribui à democracia como uma chancela.
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa é uma paráfrase fiel do último parágrafo. O texto diz:
"Anda, evidente, muito mal conduzida nossa democracia. Mas isso não significa que tenha morrido."
A palavra "mas" marca a oposição: mesmo doente, mal conduzida, a democracia resiste. E a limitação da civilização brasileira está expressa em: "É onde estacionou a curva da civilização brasileira e dali jamais passou". Ou seja, a civilização brasileira é limitada (estacionou), mas a democracia não morreu — ela resiste apesar dessa limitação. Exatamente o que a alternativa D afirma.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Erro: restringe o alcance. A alternativa diz que a democracia "corresponde a um conceito de caráter arbitrário cuja dimensão é desconhecida". No texto, o caráter arbitrário é atribuído ao "tipo que manda ver" (impulsionado pela lenda), não à democracia em si. Além disso, o texto diz que a dimensão do costume primitivo "ainda não compreendemos inteiramente" — não que a dimensão da democracia seja desconhecida. A alternativa desloca o adjetivo e o substantivo para outro referente.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a oposição entre "adoecer" e "morrer". O candidato que lê rápido pode achar que "mal conduzida" = "morta" e cair na B ou na A. A palavra "mas" é a chave: ela nega a morte e afirma a resistência.
PEGA ESSA DICA!
Em questões de compreensão, grife os conectivos (mas, porém, portanto, porque). Eles revelam a relação lógica entre as ideias — aqui, a oposição entre o diagnóstico negativo e a conclusão de que a democracia não morreu.