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Questão de Português — Elementos da Comunicação e Funções da Linguagem — VUNESP 2026

PortuguêsElementos da Comunicação e Funções da Linguagem
Código
vu166507
Banca
VUNESP
Órgão
MPE SP
Ano
2026
Cargo
AuxP

Desculpa-me!

 

Vou contar-vos uma coisa que me sucedeu ontem: é um dos episódios mais interessantes de minha vida de escritor.

 

Aposto que nunca vistes escrever sem tinta!

 

Pois lede estas primeiras páginas, compreendereis como aquele milagre é possível no século atual, no século do progresso.

 

Eis o caso.

 

Foi ontem, por volta das dez horas. Estava em casa de um amigo, e aí mesmo dispunha-me a escrever a minha revista.

 

Sentei-me à mesa, e, com todo o desplante¹ de um homem, que não sabe o que tem a dizer, ia dar começo ao meu folhetim, quando...

 

Talvez não acrediteis.

 

Tomei a pena e levei-a ao tinteiro; mas ela estremeceu toda, coitadinha, e saiu intacta² e pura. Não trazia nem uma ninhada³ de tinta. Fiz nova experiência, e foi debalde⁴.

 

O caso tornava-se grave, e já ia saindo do meu sério, quando a pena deu um passo, creio que temerou a garganta, e pediu a palavra.

Estava perdido!

 

Tinha uma pena oradora, tinha discussões parlamentares, discurso de cinco e seis horas. Que elementos para ao trabalhar!

 

Nada; era preciso pôr um termo a semelhante abuso, e tomar uma resolução pronta e imediata.

 

Comecei por bater o pé, e passar uma repreensão severa nos meus dois empregados, que assim se esqueciam dos seus deveres.

 

O meio era bom, e surtiu o desejado efeito como sempre.

 

Entramos em explicações; e no fim de contas soube a causa dessa dissidência.

 

A pena se tinha declarado em oposição aberta; o tinteiro era ministerial de fato. Em ambos tão decididos nas suas opiniões, que não havia meio de fazê-los voltar atrás.

 

(José de Alencar, Ao correr da pena. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br. Adaptado)

 

¹ Desplante: atrevimento, ousadia.
² Intacta: intacta.
³ Ninhada: nada.
⁴ Debalde: inutilmente.

Leia o trecho da crônica de José de Alencar a seguir para responder a questão seguinte:   O narrador começa a crônica com a forma “Desculpai-me!” e, no 4º parágrafo em verde, emprega a frase “Eis o caso.”.   Tais usos têm como efeito
  1. Adeixar os leitores horrorizados.
  2. Bpreparar os leitores para o relato.
  3. Cmostrar descaso pelos leitores, apesar de levar-lhes informações importantes.
  4. Dconfidenciar seus medos aos leitores.
  5. Epropor aos leitores participação no relato, como se eles fossem personagens.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoB — preparar os leitores para o relato.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

O efeito de "Desculpai-me!" e "Eis o caso." na crônica

Gabarito: letra B. As expressões "Desculpai-me!" e "Eis o caso." têm como efeito preparar os leitores para o relato, funcionando como uma espécie de chamada de atenção que abre o canal de comunicação com o interlocutor — típico da função fática da linguagem. O narrador pede desculpas antecipadamente e anuncia que vai contar um caso, criando expectativa e predispondo o leitor a acompanhar a narrativa que se segue.

O comando da questão

O enunciado pergunta: "Tais usos têm como efeito". Isso é uma questão de compreensão e interpretação de texto, focada no efeito de sentido produzido por duas expressões específicas. Não se trata de gramática normativa, mas de análise do discurso: o que o autor pretende ao usar essas formas? A resposta deve ser buscada no contexto em que elas aparecem e na função que exercem na estrutura da crônica.

O texto e o movimento argumentativo

O narrador inicia com "Desculpai-me!" — um pedido de desculpas antecipado, antes mesmo de contar o que aconteceu. Isso já sinaliza que ele vai narrar algo e quer a benevolência do leitor. Em seguida, no 4º parágrafo, ele diz "Eis o caso." — uma expressão que anuncia que a narrativa vai começar. Veja o trecho:

"Vou contar-vos uma coisa que me sucedeu ontem: é um dos episódios mais interessantes de minha vida de escritor."

E depois:

"Eis o caso."

Essas expressões funcionam como marcadores de abertura: o narrador prepara o terreno para o relato, estabelecendo um contrato de leitura com o interlocutor. Ele não está apenas informando; está criando expectativa e convidando o leitor a acompanhar a história. Isso é a essência da função fática: manter o canal de comunicação aberto e verificar se o interlocutor está pronto para receber a mensagem.

A técnica: função fática × função apelativa

A função fática da linguagem é aquela que enfatiza o canal de comunicação, ou seja, o contato entre emissor e receptor. Ela se manifesta em expressões como "alô", "está me ouvindo?", "entendeu?", "pois é", "veja bem" — que servem para iniciar, manter ou encerrar uma conversa. No texto, "Desculpai-me!" e "Eis o caso." têm exatamente esse papel: abrem o diálogo com o leitor, pedem atenção e anunciam o que virá.

Já a função apelativa (ou conativa) é centrada no receptor e busca influenciar seu comportamento, como em ordens, pedidos, conselhos. Embora "Desculpai-me!" seja um pedido, ele não visa a uma ação do leitor, mas sim a obter sua atenção e simpatia — o que é fático. A alternativa E tenta confundir isso, sugerindo que o narrador propõe participação ativa, mas o texto não traz isso.

Análise das alternativas

1Foco no canal
2Abre/mantém o contato
3"Desculpai-me!"
4"Eis o caso."
5Função apelativa
Foco no receptor
Busca influenciar ação
Ordem, pedido, conselho
Função fática
LEVELsoulevel.com.br
Função fática: Foco no canal; Abre/mantém o contato; "Desculpai-me!"; "Eis o caso."; Função apelativa (Foco no receptor, Busca influenciar ação, Ordem, pedido, conselho)

Alternativa A — ❌ Incorreta

Erro: extrapolação. O texto não traz nenhum elemento que cause horror nos leitores. O narrador conta um episódio curioso e bem-humorado (a pena que se recusa a escrever), sem qualquer tom de terror ou susto. A expressão "Desculpai-me!" é um pedido de desculpas, não uma ameaça. A banca tenta atrair o candidato com uma emoção forte, mas o texto não a sustenta.

Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Correta. As expressões "Desculpai-me!" e "Eis o caso." têm como efeito preparar os leitores para o relato. O narrador pede desculpas antecipadamente (criando expectativa) e anuncia o caso ("Eis o caso."), funcionando como marcadores de abertura que predispõem o leitor a acompanhar a narrativa. Isso é confirmado pelo trecho:

"Vou contar-vos uma coisa que me sucedeu ontem: é um dos episódios mais interessantes de minha vida de escritor."

O narrador anuncia que vai contar algo interessante, e as expressões em questão reforçam esse anúncio, preparando o terreno para o relato.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Erro: acrescentar opinião. O texto não demonstra descaso pelos leitores. Pelo contrário, o narrador se dirige diretamente a eles ("Desculpai-me!", "Aposto que nunca vistes"), o que indica consideração e proximidade. A ideia de "descaso" é uma opinião que não está no texto; é uma interpretação negativa que o candidato pode projetar, mas que não é sustentada.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Erro: extrapolação. O narrador não confidencia medos aos leitores. Ele conta um episódio engraçado e inusitado, sem qualquer tom de confissão íntima ou revelação de temores. A expressão "Desculpai-me!" é um pedido de desculpas, não uma confissão de medo. A banca tenta explorar a ideia de "confidência", mas o texto não a apoia.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Erro: troca de conceito (função apelativa × fática). O narrador não propõe participação dos leitores como se fossem personagens. Ele apenas anuncia o relato e chama a atenção — o que é função fática, não apelativa. Não há convite para que o leitor aja ou entre na história; o leitor é apenas expectador do relato. A alternativa confunde o efeito de preparar com o de convocar.

Conclusão

A questão testa a capacidade de identificar o efeito de sentido de expressões no texto. A alternativa B é a única que corresponde exatamente ao que as expressões fazem: preparar o leitor para o relato. As demais ou extrapolam (A, D), acrescentam opinião (C) ou confundem funções (E).

PEGA ESSA DICA!

Ao analisar o efeito de expressões, pergunte-se: "O que o autor quer fazer com o leitor?" Se ele quer chamar atenção e abrir o canal, é função fática. Se quer influenciar uma ação, é apelativa. Isso resolve a maioria das questões.

Gabarito: letra B

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