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Questão de Português — Figuras de Linguagem — VUNESP 2026

PortuguêsFiguras de Linguagem
Código
vu166508
Banca
VUNESP
Órgão
MPE SP
Ano
2026
Cargo
AuxP

Desculpa-me!

 

Vou contar-vos uma coisa que me sucedeu ontem: é um dos episódios mais interessantes de minha vida de escritor.

 

Aposto que nunca vistes escrever sem tinta!

 

Pois lede estas primeiras páginas, compreendereis como aquele milagre é possível no século atual, no século do progresso.

 

Eis o caso.

 

Foi ontem, por volta das dez horas. Estava em casa de um amigo, e aí mesmo dispunha-me a escrever a minha revista.

 

Sentei-me à mesa, e, com todo o desplante¹ de um homem, que não sabe o que tem a dizer, ia dar começo ao meu folhetim, quando...

 

Talvez não acrediteis.

 

Tomei a pena e levei-a ao tinteiro; mas ela estremeceu toda, coitadinha, e saiu intacta² e pura. Não trazia nem uma ninhada³ de tinta. Fiz nova experiência, e foi debalde⁴.

 

O caso tornava-se grave, e já ia saindo do meu sério, quando a pena deu um passo, creio que temerou a garganta, e pediu a palavra.

Estava perdido!

 

Tinha uma pena oradora, tinha discussões parlamentares, discurso de cinco e seis horas. Que elementos para ao trabalhar!

 

Nada; era preciso pôr um termo a semelhante abuso, e tomar uma resolução pronta e imediata.

 

Comecei por bater o pé, e passar uma repreensão severa nos meus dois empregados, que assim se esqueciam dos seus deveres.

 

O meio era bom, e surtiu o desejado efeito como sempre.

 

Entramos em explicações; e no fim de contas soube a causa dessa dissidência.

 

A pena se tinha declarado em oposição aberta; o tinteiro era ministerial de fato. Em ambos tão decididos nas suas opiniões, que não havia meio de fazê-los voltar atrás.

 

(José de Alencar, Ao correr da pena. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br. Adaptado)

 

¹ Desplante: atrevimento, ousadia.
² Intacta: intacta.
³ Ninhada: nada.
⁴ Debalde: inutilmente.

Leia o trecho da crônica de José de Alencar a seguir para responder a questão seguinte:   O texto deixa claro que a pena e o tinteiro
  1. Adeixavam de cumprir os seus deveres, por isso foram repreendidos pelo narrador.
  2. Btinham opiniões políticas semelhantes, o que causava certa preocupação no narrador.
  3. Cqueriam ajudar na escrita do novo folhetim, no entanto isso incomodava o narrador.
  4. Destavam brigando por motivos banais, por isso foram ignorados pelo narrador.
  5. Etrocavam ofensas mutuamente, fato que veio a fortalecer o bom humor do narrador.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoA — deixavam de cumprir os seus deveres, por isso foram repreendidos pelo narrador.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

A pena e o tinteiro: personificação e a repreensão do narrador

Gabarito: letra A. A alternativa A é a única inteiramente sustentada pelo texto: o narrador repreende a pena e o tinteiro porque eles deixaram de cumprir seus deveres — a pena não escreve (sai "intacta e pura", sem tinta) e o tinteiro não fornece tinta. Como se lê no trecho: "Comecei por bater o pé, e passar uma repreensão severa nos meus dois empregados, que assim se esqueciam dos seus deveres." A repreensão é consequência direta do descumprimento do dever de escrever.

O comando pede compreensão literal ("O texto deixa claro"), ou seja, a resposta deve ser uma paráfrase fiel do que está escrito, sem deduções. A banca explora a personificação (figura de linguagem que atribui ações humanas a seres inanimados) para criar distratores que acrescentam informações que o texto não traz — como opiniões políticas, brigas banais ou troca de ofensas.

O texto narra um episódio fantástico: a pena se recusa a escrever, "estremeceu toda, coitadinha, e saiu intacta e pura. Não trazia nem uma ninhada de tinta." O narrador, então, repreende "os meus dois empregados" — a pena e o tinteiro — que "assim se esqueciam dos seus deveres". A causa da "dissidência" é revelada ao final: "A pena se tinha declarado em oposição aberta; o tinteiro era ministerial de fato." A palavra-chave é "deveres": o texto afirma que eles se esqueceram dos deveres, e a repreensão foi a resposta a esse esquecimento.

A técnica para resolver é simples: teste cada alternativa perguntando se o texto a autoriza literalmente. A alternativa correta deve ser uma paráfrase direta, sem acrescentar nada. As incorretas, em geral, extrapolam — inventam motivações (política, brigas, ofensas) que o texto não menciona. A personificação é o disfarce: como a pena e o tinteiro "falam" e "têm opiniões", o candidato é tentado a imaginar conflitos que não estão escritos.

NÃO CAIA NESSA!

A banca usa a personificação para sugerir que a pena e o tinteiro têm opiniões políticas, brigam ou trocam ofensas, mas o texto apenas afirma que eles deixaram de cumprir seus deveres. A alternativa A é a única que se limita ao que está escrito.

PEGA ESSA DICA!

Grife o comando: "O texto deixa claro" pede compreensão literal, não inferência. Se a alternativa exigir que você "complete" com algo que não está no texto, ela está errada.

Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A alternativa A é uma paráfrase fiel do trecho: "Comecei por bater o pé, e passar uma repreensão severa nos meus dois empregados, que assim se esqueciam dos seus deveres." O texto afirma que a pena e o tinteiro se esqueceram dos deveres (a pena não escreve, o tinteiro não fornece tinta) e que, por isso, foram repreendidos. A relação de causa e consequência está explícita: o esquecimento dos deveres → a repreensão. Nenhuma informação extra é acrescentada.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Erro: extrapolação. O texto diz que "A pena se tinha declarado em oposição aberta; o tinteiro era ministerial de fato", mas isso é uma metáfora para a recusa em funcionar — não significa que eles tinham opiniões políticas semelhantes. Pelo contrário, "oposição aberta" e "ministerial" indicam posições opostas (a pena contra, o tinteiro a favor do governo). Além disso, o texto não diz que isso causava "preocupação" no narrador; ele apenas se irrita com a recusa. A alternativa inverte a relação e acrescenta um sentimento não mencionado.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Erro: contradiz o texto. O texto afirma que a pena e o tinteiro não queriam ajudar na escrita — a pena sai "intacta e pura", sem tinta, e o narrador precisa repreendê-los. A alternativa diz que eles "queriam ajudar", o que é o oposto do que está escrito. Além disso, o narrador não se sente "incomodado" com a ajuda; ele se incomoda com a recusa em trabalhar.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Erro: extrapolação e contradição. O texto não diz que a briga era por "motivos banais" — a causa é a recusa em cumprir deveres, o que para o narrador é grave ("O caso tornava-se grave"). E o narrador não os ignorou: ele "passou uma repreensão severa". A alternativa contradiz o texto ao afirmar que foram ignorados.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Erro: extrapolação. O texto não menciona "ofensas mútuas" nem que isso "fortaleceu o bom humor" do narrador. Pelo contrário, o narrador "ia saindo do meu sério" e precisou "tomar uma resolução pronta e imediata". A alternativa inventa um diálogo agressivo e um sentimento de bom humor que não existem no texto.

Conclusão: a única alternativa que se limita ao que o texto afirma é a A. As demais ou extrapolam (B, E), ou contradizem (C, D). Lembre-se: em compreensão literal, a resposta mora no texto — se você precisar imaginar algo para a alternativa fazer sentido, ela está errada.

Gabarito: letra A

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