Questão de Português — Vícios de Linguagem (Pleonasmo, Ambiguidade, Cacofonia, etc.) — VUNESP 2026
Português›Vícios de Linguagem (Pleonasmo, Ambiguidade, Cacofonia, etc.)
Código
vu166510
Banca
VUNESP
Órgão
MPE SP
Ano
2026
Cargo
AuxP
Desculpa-me!
Vou contar-vos uma coisa que me sucedeu ontem: é um dos episódios mais interessantes de minha vida de escritor.
Aposto que nunca vistes escrever sem tinta!
Pois lede estas primeiras páginas, compreendereis como aquele milagre é possível no século atual, no século do progresso.
Eis o caso.
Foi ontem, por volta das dez horas. Estava em casa de um amigo, e aí mesmo dispunha-me a escrever a minha revista.
Sentei-me à mesa, e, com todo o desplante¹ de um homem, que não sabe o que tem a dizer, ia dar começo ao meu folhetim, quando...
Talvez não acrediteis.
Tomei a pena e levei-a ao tinteiro; mas ela estremeceu toda, coitadinha, e saiu intacta² e pura. Não trazia nem uma ninhada³ de tinta. Fiz nova experiência, e foi debalde⁴.
O caso tornava-se grave, e já ia saindo do meu sério, quando a pena deu um passo, creio que temerou a garganta, e pediu a palavra.
Estava perdido!
Tinha uma pena oradora, tinha discussões parlamentares, discurso de cinco e seis horas. Que elementos para ao trabalhar!
Nada; era preciso pôr um termo a semelhante abuso, e tomar uma resolução pronta e imediata.
Comecei por bater o pé, e passar uma repreensão severa nos meus dois empregados, que assim se esqueciam dos seus deveres.
O meio era bom, e surtiu o desejado efeito como sempre.
Entramos em explicações; e no fim de contas soube a causa dessa dissidência.
A pena se tinha declarado em oposição aberta; o tinteiro era ministerial de fato. Em ambos tão decididos nas suas opiniões, que não havia meio de fazê-los voltar atrás.
Leia o trecho da crônica de José de Alencar a seguir para responder a questão seguinte: Assinale a alternativa que apresenta um vício de linguagem caracterizado por uma construção sintática que contraria a norma-padrão de regência.
AVou contar a vocês uma coisa que me aconteceu ontem.
BA pena e o tinteiro mantinham-se tão certos de suas opiniões.
CPois leiam agora estas primeiras páginas do meu relato.
DFoi ontem, por volta das dez horas. Tinha ido na casa de um amigo.
ESentei-me à mesa e ia começar o meu folhetim, quando…
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GabaritoD — Foi ontem, por volta das dez horas. Tinha ido na casa de um amigo.
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Regência verbal: o solecismo de regência na alternativa D
Gabarito: letra D. A alternativa D apresenta o vício de linguagem conhecido como solecismo de regência, pois a construção "Tinha ido na casa de um amigo" contraria a norma-padrão, que exige a preposição "a" — "ir a algum lugar". O texto-base, no trecho "Estava em casa de um amigo", não apresenta o erro, mas a alternativa D o introduz ao reescrever a passagem com regência inadequada.
O comando da questão é direto: pede-se a alternativa que apresenta um vício de linguagem caracterizado por construção sintática que contraria a norma-padrão de regência. Isso significa que a resposta deve conter um erro de regência verbal ou nominal — ou seja, o uso de uma preposição inadequada após um verbo ou nome. Não se trata de ambiguidade, pleonasmo ou cacofonia, mas especificamente de solecismo de regência, um dos tipos de solecismo (erro de sintaxe).
O texto-base é uma crônica de José de Alencar em que o narrador conta a história de uma pena que se recusa a escrever. O trecho relevante para a questão é:
"Foi ontem, por volta das dez horas. Estava em casa de um amigo, e aí mesmo dispunha-me a escrever a minha revista."
A alternativa D reescreve essa passagem como "Tinha ido na casa de um amigo". O verbo "ir", na norma-padrão, rege a preposição "a" quando indica destino: "ir a algum lugar". A forma "ir na casa" é uma construção coloquial, comum na fala, mas que contraria a regência culta. O correto seria "ir à casa" (a + a). Portanto, a alternativa D apresenta exatamente o vício pedido: um erro de regência verbal.
A técnica para resolver questões de regência é identificar o verbo e verificar qual preposição ele exige. No caso de "ir", a regência é "ir a". Outros verbos com regência semelhante: "chegar a", "voltar a", "comparecer a". A banca explora a diferença entre a norma culta e o uso coloquial, que muitas vezes emprega "em" no lugar de "a" para indicar destino.
Solecismo de regência: Erro de sintaxe (Preposição inadequada, Regência verbal ou nominal); Verbo "ir" (Regência: "ir a", "Ir na casa" (coloquial)); Outros verbos (Chegar a, Voltar a, Comparecer a)
Alternativa A — ❌ Incorreta
A alternativa A diz: "Vou contar a vocês uma coisa que me aconteceu ontem." O verbo "contar" rege a preposição "a" quando indica a quem se conta: "contar a alguém". A construção está correta. Não há erro de regência. A alternativa é uma paráfrase correta do trecho "Vou contar-vos uma coisa que me sucedeu ontem", apenas adaptando a pessoa do discurso.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A alternativa B diz: "A pena e o tinteiro mantinham-se tão certos de suas opiniões." O verbo "manter-se" não exige preposição; "certo" rege a preposição "de" — "certo de algo". A construção está correta. Não há erro de regência. A alternativa parafraseia o trecho "Em ambos tão decididos nas suas opiniões", mas com outra estrutura, sem vício.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A alternativa C diz: "Pois leiam agora estas primeiras páginas do meu relato." O verbo "ler" é transitivo direto, não exige preposição: "ler algo". A construção está correta. Não há erro de regência. A alternativa parafraseia o trecho "Pois lede estas primeiras páginas", apenas atualizando a forma verbal.
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa D diz: "Foi ontem, por volta das dez horas. Tinha ido na casa de um amigo." O verbo "ir" rege a preposição "a" quando indica destino: "ir a algum lugar". A forma "ir na casa" (em + a) é um solecismo de regência, pois contraria a norma-padrão. O correto seria "ir à casa" (a + a). Este é exatamente o vício de linguagem pedido: construção sintática que contraria a regência. A alternativa reescreve o trecho do texto "Estava em casa de um amigo" com o erro de regência.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A alternativa E diz: "Sentei-me à mesa e ia começar o meu folhetim, quando…" O verbo "sentar" rege a preposição "a" — "sentar-se à mesa" (a + a). O verbo "começar" é transitivo direto, não exige preposição: "começar algo". A construção está correta. Não há erro de regência. A alternativa parafraseia o trecho "Sentei-me à mesa, e, com todo o desplante de um homem, que não sabe o que tem a dizer, ia dar começo ao meu folhetim", mas sem o vício.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a diferença entre a norma culta e o uso coloquial. A forma "ir na casa" é comum na fala, mas contraria a regência padrão. O candidato que não domina a regência do verbo "ir" pode não identificar o erro.
PEGA ESSA DICA!
Ao resolver questões de regência, identifique o verbo e pergunte: "ir aonde?" — a resposta exige a preposição "a". Desconfie de construções com "em" para indicar destino, pois a norma culta prefere "a".
Gabarito: letra D. A alternativa D é a única que apresenta um erro de regência verbal, o solecismo de regência, ao empregar "ir na casa" em vez de "ir à casa". As demais alternativas estão corretas quanto à regência.