Vou contar-vos uma coisa que me sucedeu ontem: é um dos episódios mais interessantes de minha vida de escritor.
Aposto que nunca vistes escrever sem tinta!
Pois lede estas primeiras páginas, compreendereis como aquele milagre é possível no século atual, no século do progresso.
Eis o caso.
Foi ontem, por volta das dez horas. Estava em casa de um amigo, e aí mesmo dispunha-me a escrever a minha revista.
Sentei-me à mesa, e, com todo o desplante¹ de um homem, que não sabe o que tem a dizer, ia dar começo ao meu folhetim, quando...
Talvez não acrediteis.
Tomei a pena e levei-a ao tinteiro; mas ela estremeceu toda, coitadinha, e saiu intacta² e pura. Não trazia nem uma ninhada³ de tinta. Fiz nova experiência, e foi debalde⁴.
O caso tornava-se grave, e já ia saindo do meu sério, quando a pena deu um passo, creio que temerou a garganta, e pediu a palavra.
Estava perdido!
Tinha uma pena oradora, tinha discussões parlamentares, discurso de cinco e seis horas. Que elementos para ao trabalhar!
Nada; era preciso pôr um termo a semelhante abuso, e tomar uma resolução pronta e imediata.
Comecei por bater o pé, e passar uma repreensão severa nos meus dois empregados, que assim se esqueciam dos seus deveres.
O meio era bom, e surtiu o desejado efeito como sempre.
Entramos em explicações; e no fim de contas soube a causa dessa dissidência.
A pena se tinha declarado em oposição aberta; o tinteiro era ministerial de fato. Em ambos tão decididos nas suas opiniões, que não havia meio de fazê-los voltar atrás.
Leia o trecho da crônica de José de Alencar a seguir para responder a questão seguinte:
Considere as frases a seguir, reescritas a partir de informações do texto:
Era preciso pôr um termo ______ situação abusiva, e tomar uma resolução pronta e imediata.
Comecei por bater o pé, e repreendi severamente ______ meus dois empregados.
Entramos em explicações; e no fim de contas disseram ______ mim a causa dessa dissidência.
Em conformidade com a norma-padrão, as lacunas devem ser preenchidas, na ordem em que aparecem, com:
Aàquela … aqueles … a
Bàquela … àqueles … à
Caquela … aqueles … à
Daquela … àqueles … a
Eàquela … aqueles … à
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GabaritoA — àquela … aqueles … a
Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.
Crase: preposição + pronome demonstrativo e artigo
Gabarito: letra A. A sequência correta é àquela … aqueles … a, porque a primeira lacuna exige a fusão da preposição a (exigida por "pôr termo a") com o pronome demonstrativo aquela; a segunda exige apenas o pronome aqueles, sem crase, pois é masculino e o verbo "repreender" é transitivo direto; a terceira exige apenas a preposição a, pois "disseram a mim" não admite artigo. A resposta se prova pela regência de cada verbo e pela natureza dos termos seguintes.
O comando
A questão pede que você preencha lacunas em frases reescritas a partir do texto, respeitando a norma-padrão. Isso é uma questão de gramática aplicada ao texto: você precisa analisar a regência de cada verbo/nome e a presença ou ausência de artigo após a preposição. Não é interpretação de sentido, mas aplicação de regras de crase.
O texto
O trecho de José de Alencar narra a "revolta" da pena e do tinteiro. As frases reescritas aproveitam informações do texto, mas o foco não é o conteúdo, e sim a estrutura sintática das reescrituras. Por isso, a resposta não depende de interpretar a crônica, mas de aplicar as regras de crase a cada lacuna.
A técnica: três passos para cada lacuna
Para cada lacuna, faça duas perguntas:
O termo anterior exige a preposição "a"? (regência verbal ou nominal)
O termo seguinte admite artigo feminino "a" ou é pronome demonstrativo que começa com "a"?
Se as duas respostas forem sim, há crase. Se apenas uma for sim, não há crase. Vamos aplicar isso a cada lacuna.
Primeira lacuna: "pôr um termo ______ situação abusiva"
Quem põe termo, põe termo a alguma coisa. O verbo "pôr" exige a preposição a.
O termo seguinte é "situação abusiva", que é feminino e admite artigo a. Mas a frase usa "aquela" (pronome demonstrativo), que também começa com "a".
Preposição a + pronome aquela = àquela (crase obrigatória).
Segunda lacuna: "repreendi severamente ______ meus dois empregados"
O verbo "repreender" é transitivo direto: repreende-se alguém. Não exige preposição.
O termo seguinte é "meus dois empregados", masculino plural. Mesmo que houvesse preposição, não haveria artigo feminino.
Portanto, sem crase: apenas aqueles.
Terceira lacuna: "disseram ______ mim a causa dessa dissidência"
O verbo "dizer" exige a preposição a quando o complemento é pessoa: dizer a alguém.
O termo seguinte é "mim", pronome pessoal reto, que não admite artigo. Logo, não há crase: apenas a.
A pegadinha da banca
A banca quer que você confunda aqueles (masculino, sem crase) com àqueles (com crase, que só ocorreria se houvesse preposição + pronome masculino, o que não é o caso). Também quer que você confunda a preposição a com a crase à antes de "mim". Lembre-se: crase é a fusão de preposição a + artigo a ou preposição a + pronome demonstrativo a. Se não houver artigo ou pronome demonstrativo feminino, não há crase.
Análise das alternativas
Crase
1Ocorre quando
Preposição "a" (regência)
+ Artigo feminino "a" ou pronome demonstrativo "a..."
2Não ocorre antes de
Palavra masculina
Pronome pessoal (mim, você)
3Análise das lacunas
"pôr termo a" + "aquela" → àquela
"repreender" (VTD) + "aqueles" → sem crase
"dizer a" + "mim" → sem crase
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Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A sequência àquela … aqueles … a está correta. Na primeira lacuna, há crase porque "pôr termo a" exige preposição e "aquela" é pronome demonstrativo feminino. Na segunda, não há crase porque "repreender" é transitivo direto e "aqueles" é masculino. Na terceira, não há crase porque "mim" não admite artigo, apenas a preposição exigida por "dizer a".
Alternativa B — ❌ Incorreta
A sequência àquela … àqueles … à erra na segunda e na terceira lacuna. àqueles seria usado se houvesse preposição a + pronome aqueles, mas "repreender" não exige preposição. à antes de "mim" é impossível, pois "mim" não admite artigo. A banca tenta seduzir com a crase em todas as lacunas, mas a regência não permite.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A sequência aquela … aqueles … à erra na primeira e na terceira lacuna. aquela sem crase ignora a preposição exigida por "pôr termo a". à antes de "mim" é impossível, como vimos. A alternativa acerta apenas a segunda lacuna.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A sequência aquela … àqueles … a erra na primeira e na segunda lacuna. aquela sem crase ignora a preposição. àqueles é usado com preposição, mas "repreender" não exige. A terceira lacuna está correta, mas as duas primeiras derrubam a alternativa.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A sequência àquela … aqueles … à erra apenas na terceira lacuna. As duas primeiras estão corretas, mas à antes de "mim" é impossível. A banca coloca a crase onde não pode, para testar se você sabe que pronome pessoal não admite artigo.
Conclusão
A resposta é a letra A. A regra de ouro: crase só ocorre quando há preposição "a" + artigo feminino "a" ou pronome demonstrativo que comece com "a". Antes de palavra masculina ou de pronome pessoal, nunca há crase. Aplicando isso a cada lacuna, você elimina as distratoras e chega ao gabarito com segurança.
PEGA ESSA DICA!
Para cada lacuna, pergunte: "o verbo/nome exige preposição a?" e "o termo seguinte é feminino e admite artigo?". Se as duas respostas forem sim, use crase. Se uma delas for não, não use.