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Questão de Português — Outras Questões de Semântica — VUNESP 2026

PortuguêsOutras Questões de Semântica
Código
vu166513
Banca
VUNESP
Órgão
MPE SP
Ano
2026
Cargo
AuxP

Desculpa-me!

 

Vou contar-vos uma coisa que me sucedeu ontem: é um dos episódios mais interessantes de minha vida de escritor.

 

Aposto que nunca vistes escrever sem tinta!

 

Pois lede estas primeiras páginas, compreendereis como aquele milagre é possível no século atual, no século do progresso.

 

Eis o caso.

 

Foi ontem, por volta das dez horas. Estava em casa de um amigo, e aí mesmo dispunha-me a escrever a minha revista.

 

Sentei-me à mesa, e, com todo o desplante¹ de um homem, que não sabe o que tem a dizer, ia dar começo ao meu folhetim, quando...

 

Talvez não acrediteis.

 

Tomei a pena e levei-a ao tinteiro; mas ela estremeceu toda, coitadinha, e saiu intacta² e pura. Não trazia nem uma ninhada³ de tinta. Fiz nova experiência, e foi debalde⁴.

 

O caso tornava-se grave, e já ia saindo do meu sério, quando a pena deu um passo, creio que temerou a garganta, e pediu a palavra.

Estava perdido!

 

Tinha uma pena oradora, tinha discussões parlamentares, discurso de cinco e seis horas. Que elementos para ao trabalhar!

 

Nada; era preciso pôr um termo a semelhante abuso, e tomar uma resolução pronta e imediata.

 

Comecei por bater o pé, e passar uma repreensão severa nos meus dois empregados, que assim se esqueciam dos seus deveres.

 

O meio era bom, e surtiu o desejado efeito como sempre.

 

Entramos em explicações; e no fim de contas soube a causa dessa dissidência.

 

A pena se tinha declarado em oposição aberta; o tinteiro era ministerial de fato. Em ambos tão decididos nas suas opiniões, que não havia meio de fazê-los voltar atrás.

 

(José de Alencar, Ao correr da pena. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br. Adaptado)

 

¹ Desplante: atrevimento, ousadia.
² Intacta: intacta.
³ Ninhada: nada.
⁴ Debalde: inutilmente.

Leia o trecho da crônica de José de Alencar a seguir para responder a questão seguinte:   Na passagem “Sentei-me à mesa, e, com todo o desplante de um homem, que não sabe o que tem a dizer, ia dar começo ao meu folhetim, quando...” (em verde), o sinal de reticências indica corretamente
  1. Aesclarecimento.
  2. Bquestionamento.
  3. Cdescaso.
  4. Dcomentário.
  5. Esuspense.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoE — suspense.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Reticências: o efeito de suspense na crônica de Alencar

Gabarito: letra E. As reticências em “ia dar começo ao meu folhetim, quando...” indicam suspense, pois interrompem a frase no momento exato em que o narrador está prestes a iniciar a escrita, criando uma expectativa sobre o que acontecerá em seguida. Essa interrupção proposital é o recurso clássico de suspense: o leitor fica aguardando o desfecho, que só será revelado nos parágrafos seguintes.

O comando pede que você identifique o efeito de sentido produzido pelo sinal de pontuação no contexto específico. Não se trata de uma regra gramatical isolada, mas de interpretação textual: as reticências podem indicar hesitação, citação incompleta, ironia, ou, como aqui, suspense. A chave é observar o que a interrupção provoca no leitor e como ela se conecta ao restante do texto.

No trecho, o narrador descreve a cena: ele se senta à mesa, pronto para escrever, e então... as reticências cortam a ação. O leitor fica com a pergunta: “o que aconteceu?”. Essa expectativa é o suspense. O texto imediatamente depois confirma: “Talvez não acrediteis.” e “Tomei a pena e levei-a ao tinteiro; mas ela estremeceu toda...”. Ou seja, a interrupção não é um simples acaso; ela prepara o leitor para o episódio extraordinário que virá.

A técnica para resolver: pergunte-se qual é o efeito da interrupção no leitor. Se a frase é cortada no clímax de uma ação, o efeito é suspense. Se fosse uma hesitação, o narrador estaria indeciso, mas aqui ele está decidido a escrever. Se fosse uma citação incompleta, haveria um texto sendo citado, o que não ocorre. A interrupção cria uma pausa dramática que antecipa o inusitado: a pena que se recusa a escrever.

PEGA ESSA DICA!

Ao analisar o efeito das reticências, pergunte: “o que o leitor sente ao ser interrompido?”. Se a interrupção gera expectativa, é suspense; se gera dúvida sobre o que dizer, é hesitação; se omite parte de uma fala, é citação incompleta.

Alternativa A — ❌ Incorreta

Esclarecimento não é o efeito aqui. Esclarecer seria explicar algo, e as reticências não explicam nada; elas interrompem a ação. O trecho não traz qualquer informação adicional que esclareça o leitor — pelo contrário, esconde o que virá.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Questionamento seria indicado por ponto de interrogação, não por reticências. O narrador não faz uma pergunta; ele descreve uma ação interrompida. Não há qualquer tom interrogativo no trecho.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Descaso seria uma atitude de indiferença, mas o narrador está claramente envolvido e surpreso com o que acontece. As reticências aqui não transmitem desprezo ou falta de interesse; transmitem expectativa.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Comentário seria uma observação à parte, mas as reticências não introduzem um comentário; elas cortam a narrativa no ponto crucial. O narrador não faz uma pausa para comentar algo; ele é interrompido pelo acontecimento.

Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO

As reticências em “quando...” criam suspense porque interrompem a frase no exato momento em que o narrador vai começar a escrever. O leitor fica ansioso para saber o que aconteceu, e o texto logo revela: a pena se recusa a escrever. Essa interrupção proposital é o recurso clássico de suspense, como se o narrador dissesse “e então... algo inesperado aconteceu”.

Gabarito: letra E — as reticências indicam suspense, pois interrompem a ação no clímax, criando expectativa no leitor.

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