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Questão de Português — Figuras de Linguagem — VUNESP 2026

PortuguêsFiguras de Linguagem
Código
vu166731
Banca
VUNESP
Órgão
Insper
Ano
2026
Cargo
Vest ( )

Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem-comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto
[expediente protocolo e manifestações de apreço
[ao sr. diretor

 

Estou farto do lirismo que para e vai averiguar no
[dicionário o cunho vernáculo de um vocábulo

 

Abaixo os puristas
Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis

 

Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora de
[si mesmo.

 

De resto não é lirismo

Será contabilidade tabela de co-senos secretário do

[amante exemplar com cem modelos de cartas e as

[diferentes maneiras de agradar às mulheres, etc.

 

Quero antes o lirismo dos loucos

O lirismo dos bêbados

O lirismo difícil e pungente dos bêbados

O lirismo dos clowns de Shakespeare

 

— Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.

 

Manuel Bandeira. Libertinagem & Estrela da manhã, 2008.

Leia o poema “Poética”, de Manuel Bandeira, publicado em 1930 no livro Libertinagem, para responder à questão.     Na primeira estrofe, a expressão “funcionário público com livro de ponto” representa
  1. Ao interlocutor do eu lírico.
  2. Ba personagem central do poema.
  3. Cuma figura rejeitada pelo eu lírico.
  4. Dum comportamento valorizado pelo eu lírico.
  5. Eo agente desencadeador do desabafo do eu lírico.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — uma figura rejeitada pelo eu lírico.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

A expressão "funcionário público com livro de ponto" no poema "Poética"

Gabarito: letra C. A expressão "funcionário público com livro de ponto" representa uma figura rejeitada pelo eu lírico, pois integra a lista de lirismos dos quais o eu lírico declara estar farto. A passagem que ancora essa leitura é o verso inicial do poema: "Estou farto do lirismo comedido / Do lirismo bem-comportado / Do lirismo funcionário público com livro de ponto". O eu lírico não apenas descreve esse tipo de lirismo, mas o enumera entre aqueles que rejeita, como se vê na repetição anafórica de "Estou farto do lirismo...".

O comando da questão é de compreensão/recorrência: pergunta-se o que a expressão "representa" no texto, ou seja, qual é o papel semântico que ela desempenha na argumentação do poema. Não se pede uma inferência sofisticada, mas a identificação de uma relação explícita: a expressão é um dos alvos da crítica do eu lírico. A resposta, portanto, deve ser encontrada na leitura direta da primeira estrofe, sem necessidade de recorrer a elementos externos ao texto.

O poema "Poética", de Manuel Bandeira, é um manifesto estético: o eu lírico rejeita um tipo de poesia que considera burocrática, purista, convencional e submissa, e defende, em contrapartida, um lirismo livre, "dos loucos", "dos bêbados", "dos clowns de Shakespeare". A primeira estrofe é dedicada a listar os lirismos que o eu lírico repudia: o "comedido", o "bem-comportado" e o "funcionário público com livro de ponto". A imagem do funcionário público, com seu "livro de ponto", "expediente", "protocolo" e "manifestações de apreço ao sr. diretor", metaforiza a poesia submetida a regras, horários e hierarquias — exatamente o oposto da "libertação" que o eu lírico busca no final do poema.

A armadilha central desta questão é a tentação de extrapolar o sentido da expressão, atribuindo-lhe um papel que o texto não autoriza. As alternativas A, B, D e E cometem esse erro ao transformar a expressão em algo que ela não é no poema: um interlocutor, a personagem central, um comportamento valorizado ou o agente do desabafo. A expressão é, na verdade, um termo de uma enumeração de coisas rejeitadas — um objeto da crítica, não um sujeito ativo. A técnica para resolver é simples: localizar a expressão no texto e verificar qual é a relação que o eu lírico estabelece com ela. A repetição de "Estou farto do lirismo..." antes de cada item da lista deixa claro que todos eles são alvos da mesma rejeição.

"Estou farto do lirismo comedido\n Do lirismo bem-comportado\n Do lirismo funcionário público com livro de ponto"

A citação mostra que "funcionário público com livro de ponto" é o terceiro item de uma série introduzida pelo verbo "Estou farto". O eu lírico está farto, ou seja, cansado, enojado, rejeitando esses tipos de lirismo. A expressão, portanto, representa uma figura rejeitada — algo que o eu lírico não quer para a sua poesia. As demais alternativas falham porque atribuem à expressão um papel que ela não desempenha na estrutura argumentativa do poema.

1Papel no poema
Objeto da crítica do eu lírico
Terceiro item da enumeração
2Verbo que introduz
"Estou farto do lirismo..."
Rejeição, saturação
3O que metaforiza
Poesia burocrática
Submetida a regras e hierarquias
4Oposto defendido
Lirismo livre ("dos loucos", "dos bêbados")
"Funcionário público com livro de ponto"
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"Funcionário público com livro de ponto": Papel no poema (Objeto da crítica do eu lírico, Terceiro item da enumeração); Verbo que introduz ("Estou farto do lirismo...", Rejeição, saturação); O que metaforiza (Poesia burocrática, Submetida a regras e hierarquias); Oposto defendido (Lirismo livre ("dos loucos", "dos bêbados"))

Alternativa A — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que a expressão representa "o interlocutor do eu lírico". Erro: extrapolação. O texto não estabelece nenhum diálogo com o "funcionário público"; ele é apenas um termo de comparação para qualificar um tipo de lirismo. O eu lírico não se dirige a ele, não o invoca, não conversa com ele. A expressão é um objeto de crítica, não um interlocutor. Não há no poema nenhum vocativo ou marca de interlocução que sustente essa leitura.

Alternativa B — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que a expressão representa "a personagem central do poema". Erro: extrapolação. O poema não tem personagens; é um texto lírico que expressa a visão de mundo do eu lírico. O "funcionário público" é uma imagem metafórica usada para descrever um tipo de poesia, não uma figura que protagoniza ações. A personagem central do poema é o próprio eu lírico, que expõe suas preferências estéticas. A expressão é um elemento secundário dentro da argumentação, não o foco narrativo.

Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A alternativa afirma que a expressão representa "uma figura rejeitada pelo eu lírico". Correta. O verbo "Estou farto" (repetido três vezes na primeira estrofe) expressa rejeição, e a expressão "funcionário público com livro de ponto" é um dos objetos dessa rejeição. O eu lírico está farto do lirismo que se comporta como um funcionário público: burocrático, submetido a regras e hierarquias. Essa leitura é confirmada pelo final do poema, quando o eu lírico afirma: "Não quero mais saber do lirismo que não é libertação". O lirismo "funcionário público" é exatamente o tipo de lirismo que não é libertação, pois está preso a convenções. A expressão, portanto, representa algo que o eu lírico rejeita.

Alternativa D — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que a expressão representa "um comportamento valorizado pelo eu lírico". Erro: contradiz o texto. O eu lírico está "farto" desse tipo de lirismo, ou seja, ele o desvaloriza, não o valoriza. A palavra "farto" indica saturação, cansaço, repulsa. Valorizar seria o oposto: apreciar, admirar, desejar. A alternativa inverte completamente o sentido do texto, transformando uma crítica em elogio. O eu lírico valoriza, na verdade, o "lirismo dos loucos", "dos bêbados", "dos clowns de Shakespeare" — não o lirismo burocrático.

Alternativa E — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que a expressão representa "o agente desencadeador do desabafo do eu lírico". Erro: extrapolação. O desabafo do eu lírico é desencadeado por um conjunto de fatores — todo o lirismo convencional que ele critica —, não especificamente pelo "funcionário público". A expressão é apenas um exemplo dentro de uma lista maior de coisas que o incomodam. Além disso, o texto não apresenta a expressão como uma causa do desabafo, mas como um alvo dele. O eu lírico não diz "por causa do funcionário público, estou farto"; ele diz "estou farto do lirismo funcionário público". A relação é de objeto, não de causa.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a tentação de extrapolar o papel da expressão, oferecendo alternativas que a transformam em sujeito ativo (interlocutor, personagem, agente) ou em algo valorizado. A chave é perceber que a expressão é um objeto da crítica do eu lírico, introduzido pela repetição de "Estou farto do lirismo...".

PEGA ESSA DICA!

Ao ler um poema, identifique o verbo que introduz a expressão e a relação que o eu lírico estabelece com ela. Se o verbo é "estou farto de", a expressão é algo rejeitado. Se fosse "quero", seria algo desejado. O verbo é a bússola do sentido.

Conclusão: a questão testa a capacidade de localizar a função de uma expressão dentro da argumentação do poema. A expressão "funcionário público com livro de ponto" é um dos alvos da crítica do eu lírico, que está "farto" desse tipo de lirismo. As alternativas A, B, D e E falham porque atribuem à expressão um papel que o texto não autoriza: interlocutor, personagem, valor ou causa. A única leitura sustentada pelo texto é a da alternativa C: a expressão representa uma figura rejeitada pelo eu lírico.

Gabarito: letra C.

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