Questão de Português — Tipologia e Gênero Textual — VUNESP 2026
Português›Tipologia e Gênero Textual
Código
vu166734
Banca
VUNESP
Órgão
Insper
Ano
2026
Cargo
Vest ( )
Estou farto do lirismo comedido Do lirismo bem-comportado Do lirismo funcionário público com livro de ponto [expediente protocolo e manifestações de apreço [ao sr. diretor
Estou farto do lirismo que para e vai averiguar no [dicionário o cunho vernáculo de um vocábulo
Abaixo os puristas Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis
Estou farto do lirismo namorador Político Raquítico Sifilítico De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora de [si mesmo.
De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário do
[amante exemplar com cem modelos de cartas e as
[diferentes maneiras de agradar às mulheres, etc.
Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbados
O lirismo difícil e pungente dos bêbados
O lirismo dos clowns de Shakespeare
— Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.
Manuel Bandeira. Libertinagem & Estrela da manhã, 2008.
Leia o poema “Poética”, de Manuel Bandeira, publicado em 1930 no livro Libertinagem, para responder à questão. Ao referir-se a um “lirismo comedido”, “bem-comportado” e “que para e vai averiguar no dicionário o cunho vernáculo de um vocábulo”, o eu lírico faz uma crítica ao movimento
Aparnasiano.
Bromântico.
Csimbolista.
Dmodernista.
Ebarroco.
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GabaritoA — parnasiano.
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Poética de Bandeira: a crítica ao Parnasianismo
Gabarito: letra A. O eu lírico critica o Parnasianismo ao rejeitar o “lirismo comedido”, “bem-comportado” e “que para e vai averiguar no dicionário o cunho vernáculo de um vocábulo”. Essas expressões apontam para o culto à forma, à precisão vocabular e à objetividade — marcas centrais da estética parnasiana, que o Modernismo de Bandeira combate. A passagem que ancora a resposta está no início do poema:
“Estou farto do lirismo comedido / Do lirismo bem-comportado / Do lirismo funcionário público com livro de ponto”
E, logo adiante, o verso que explicita a crítica ao purismo linguístico:
“Estou farto do lirismo que para e vai averiguar no dicionário o cunho vernáculo de um vocábulo”
O que o eu lírico recusa é exatamente a obsessão parnasiana pela palavra exata, pelo vocabulário “nobre” e pela construção formal impecável — o “lirismo funcionário público”, burocrático, sem liberdade criativa.
O comando da questão
A questão pede que você identifique o movimento literário criticado pelo eu lírico. Isso é uma tarefa de compreensão + conhecimento literário: você precisa (1) entender o que o texto diz e (2) relacionar essas características a uma escola literária. Não é uma questão de inferência complexa — a crítica está explícita nas palavras “comedido”, “bem-comportado” e na imagem do dicionário. O desafio é não confundir com outros movimentos que também valorizam a forma ou a emoção.
O texto e a tese
O poema “Poética” é um manifesto modernista: Bandeira defende um lirismo livre, espontâneo, “dos loucos”, “dos bêbados”, e ataca tudo o que considera artificial e engessado. A tese central é a libertação da poesia — como ele mesmo conclui: “Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.”
Os alvos da crítica são:
O lirismo comedido e bem-comportado → a contenção formal, a ausência de ousadia.
O lirismo funcionário público → a poesia burocrática, sem vida, presa a regras.
O lirismo que consulta o dicionário → o purismo vocabular, a busca pelo “cunho vernáculo”, ou seja, pela palavra erudita e correta segundo a norma.
Essas três características são a própria definição do Parnasianismo: uma poesia que valoriza a forma perfeita, a rima rica, o vocabulário seleto e a impessoalidade. O Parnasianismo brasileiro, com Olavo Bilac à frente, era exatamente isso — e foi o principal alvo dos modernistas de 1922.
A técnica para resolver
Quando a questão pergunta “a crítica é feita a qual movimento?”, você deve procurar no texto as marcas estilísticas que caracterizam o movimento criticado. Aqui, as pistas são:
“comedido” e “bem-comportado” → contenção, disciplina formal.
“funcionário público com livro de ponto” → rotina, burocracia, falta de inspiração.
“averiguar no dicionário o cunho vernáculo” → preocupação com a palavra exata, com o vocabulário correto.
Essas pistas apontam diretamente para o Parnasianismo, que era o movimento dominante na poesia brasileira antes do Modernismo e que os modernistas rejeitavam.
Análise das alternativas
Crítica do eu lírico: Alvo: Parnasianismo (Culto à forma, Precisão vocabular, Impessoalidade); Marcas no texto ("Lirismo comedido", "Bem-comportado", "Funcionário público com livro de ponto", "Averiguar no dicionário o cunho vernáculo"); Movimento do eu lírico (Modernismo, Defende libertação da poesia)
Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO
O Parnasianismo é o movimento que mais se encaixa na descrição: culto à forma, precisão vocabular, objetividade e impessoalidade. O eu lírico critica exatamente esse tipo de poesia — a que se preocupa com o “cunho vernáculo” (a palavra correta, erudita) e com o “bem-comportamento” formal. A alternativa está inteiramente sustentada pelo texto.
Alternativa B — ❌ Incorreta
O Romantismo valoriza a emoção, a subjetividade e a liberdade criativa — características opostas ao que o eu lírico critica. O texto não menciona sentimentalismo, idealização ou nacionalismo, que são marcas românticas. A alternativa extrapola o texto, pois não há pistas que apontem para o Romantismo.
Alternativa C — ❌ Incorreta
O Simbolismo também valoriza a sugestão, a musicalidade e o mistério — mas o eu lírico não critica isso. Ele critica o excesso de formalismo e a preocupação com a palavra exata, que são mais parnasianas do que simbolistas. A alternativa confunde as escolas, pois o Simbolismo não é o alvo da crítica.
Alternativa D — ❌ Incorreta
O Modernismo é o movimento do qual o eu lírico faz parte — ele defende a liberdade poética, não a critica. O poema é um manifesto modernista, portanto não pode estar criticando o próprio movimento. A alternativa contradiz o texto, pois o eu lírico está a favor do Modernismo.
Alternativa E — ❌ Incorreta
O Barroco é um movimento muito anterior, marcado pelo conflito entre o sagrado e o profano, pelo cultismo e pelo conceptismo. Embora o Barroco também tenha uma certa preocupação formal, o texto não faz referência a elementos barrocos (como o dualismo, a religiosidade ou o exagero ornamental). A alternativa tangencia o tema, pois não há pistas no texto que apontem para o Barroco.
Conclusão
A questão testa sua capacidade de relacionar características textuais a escolas literárias. A chave é identificar as marcas do Parnasianismo — formalismo, precisão vocabular, impessoalidade — e perceber que o eu lírico as rejeita em nome da liberdade poética. As demais alternativas ou extrapolam (Romantismo, Barroco) ou confundem (Simbolismo) ou contradizem (Modernismo) o texto.
PEGA ESSA DICA!
Ao identificar a escola criticada, procure no texto adjetivos e imagens que caracterizem o movimento. “Comedido”, “bem-comportado” e “dicionário” são pistas fortes de Parnasianismo.