Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2026
Português›Interpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu166797
Banca
VUNESP
Órgão
FICSAE
Ano
2026
Cargo
Vest ( )
Leia o trecho de O alienista, de Machado de Assis, para responder a questão
Mas um dardo atravessou o coração de D. Evarista. Conteve-se, entretanto; limitou-se a dizer ao marido que, se ele não ia, ela não iria também, porque não havia de meter-se sozinha pelas estradas.
— Irá com sua tia, redarguiu o alienista.
Note-se que D. Evarista tinha pensado nisso mesmo; mas não quisera pedi-lo nem insinuá-lo, em primeiro lugar porque seria impor grandes despesas ao marido, em segundo lugar porque era melhor, mais metódico e racional que a proposta viesse dele.
— Oh! mas o dinheiro que será preciso gastar! suspirou D. Evarista sem convicção.
— Que importa? Temos ganho muito, disse o marido. Ainda ontem o escriturário prestou-me contas. Queres ver?
E levou-a aos livros. D. Evarista ficou deslumbrada. Era uma via láctea de algarismos. E depois levou-a às arcas, onde estava o dinheiro. Deus! eram montes de ouro, eram mil cruzados sobre mil cruzados, dobrões sobre dobrões; era a opulência. Enquanto ela comia o ouro com os seus olhos negros, o alienista fitava-a, e dizia-lhe ao ouvido com a mais pérfida das alusões:
— Quem diria que meia dúzia de lunáticos...
D. Evarista compreendeu, sorriu e respondeu com muita resignação:
— Deus sabe o que faz!
(O alienista, 2014.)
A partir das informações presentes no trecho do conto, D. Evarista é caracterizada como
Ahumilde e trabalhadora.
Bdissimulada e interesseira.
Cdesconfiada e ciumenta.
Dsincera e espontânea.
Eimpulsiva e impetuosa.
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GabaritoB — dissimulada e interesseira.
Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.
Caracterização de D. Evarista em "O Alienista"
Gabarito: letra B. D. Evarista é caracterizada como dissimulada e interesseira porque o texto mostra que ela esconde seus desejos (não pede a viagem diretamente, mas quer que o marido a proponha) e se encanta com a riqueza (fica "deslumbrada" com os livros de contas e "come o ouro com os olhos"). A passagem que ancora essa leitura é o trecho em que o narrador explica: "D. Evarista tinha pensado nisso mesmo; mas não quisera pedi-lo nem insinuá-lo".
O comando pede uma interpretação — "é caracterizada como" —, ou seja, exige que você deduza traços de personalidade a partir das ações e falas da personagem, não que localize uma descrição literal. A resposta não está escrita diretamente ("D. Evarista é dissimulada"), mas é uma inferência legítima ancorada em pistas textuais. Vamos ver como o texto autoriza cada traço.
O trecho é uma cena de negociação silenciosa: D. Evarista quer viajar, mas não pede. O narrador revela o jogo de interesses:
"D. Evarista tinha pensado nisso mesmo; mas não quisera pedi-lo nem insinuá-lo, em primeiro lugar porque seria impor grandes despesas ao marido, em segundo lugar porque era melhor, mais metódico e racional que a proposta viesse dele."
Aqui está a dissimulação: ela esconde a intenção e manipula a situação para que o marido tome a iniciativa. Não é sinceridade — é estratégia. Em seguida, ao ver as contas e o dinheiro:
"D. Evarista ficou deslumbrada. Era uma via láctea de algarismos... Enquanto ela comia o ouro com os seus olhos negros"
Aqui está o interesse material: a reação dela à riqueza é de encantamento e cobiça — "comia o ouro com os olhos". A resposta final, "Deus sabe o que faz!", dita "com muita resignação", é irônica: ela aceita a viagem (e o dinheiro) sem demonstrar o entusiasmo que sente, mantendo a aparência de submissão.
A técnica decisiva é testar cada alternativa perguntando: o texto autoriza este traço, ou exige acrescentar algo de fora? A alternativa correta é a única que se sustenta inteiramente nas pistas do texto — nem mais, nem menos.
Alternativa A — ❌ Incorreta
Humilde e trabalhadora. O texto não mostra D. Evarista trabalhando, nem a descreve como humilde. Ela se preocupa com as despesas, mas isso é estratégia (para não parecer interesseira), não humildade. A alternativa extrapola: inventa um traço (trabalhadora) que não tem nenhuma base no trecho.
Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Dissimulada e interesseira. A dissimulação está no fato de ela esconder o desejo de viajar e manipular o marido para que ele proponha: "não quisera pedi-lo nem insinuá-lo... era melhor... que a proposta viesse dele". O interesse está na reação à riqueza: "ficou deslumbrada", "comia o ouro com os seus olhos negros". A resposta "Deus sabe o que faz!" com "resignação" é a máscara final — ela aceita o que queria, sem demonstrar. Tudo isso está no texto, não é suposição.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Desconfiada e ciumenta. Não há nenhuma pista de ciúme ou desconfiança em relação ao marido. Ela não questiona a fidelidade dele nem demonstra suspeita. A alternativa tangencia: fala de sentimentos que não aparecem na cena — é uma extrapolação pura.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Sincera e espontânea. O texto mostra exatamente o oposto: ela esconde o que pensa e sente. O narrador afirma que ela "não quisera pedi-lo nem insinuá-lo" — isso é o contrário de sinceridade. A alternativa contradiz o texto: inverte o traço central da personagem.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Impulsiva e impetuosa. D. Evarista age com cálculo e controle, não com impulsividade. Ela planeja a estratégia de deixar o marido propor a viagem. A alternativa contradiz o texto: atribui um comportamento que a cena desmente.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a extrapolação com um fato verdadeiro — D. Evarista realmente se preocupa com as despesas ("Oh! mas o dinheiro que será preciso gastar!"). Isso pode levar você a marcá-la como "humilde" (A), mas o texto revela que essa preocupação é encenação: ela já tinha pensado na viagem e só queria que o marido propusesse. O interesse dela é material, não econômico.
PEGA ESSA DICA!
Em questões de caracterização de personagem, desconfie de adjetivos absolutos ("sincera", "humilde", "impulsiva") e procure a contradição entre o que a personagem diz e o que o narrador revela sobre o que ela pensa. O narrador de Machado é irônico: ele mostra o jogo por trás das aparências.
Conclusão: a resposta correta é a letra B, pois é a única que se sustenta nas pistas do texto — a dissimulação (esconder o desejo) e o interesse (encantar-se com o ouro). As demais ou extrapolam (A, C), ou contradizem o texto (D, E).