Leia o trecho de O alienista, de Machado de Assis, para responder a questão
Mas um dardo atravessou o coração de D. Evarista. Conteve-se, entretanto; limitou-se a dizer ao marido que, se ele não ia, ela não iria também, porque não havia de meter-se sozinha pelas estradas.
— Irá com sua tia, redarguiu o alienista.
Note-se que D. Evarista tinha pensado nisso mesmo; mas não quisera pedi-lo nem insinuá-lo, em primeiro lugar porque seria impor grandes despesas ao marido, em segundo lugar porque era melhor, mais metódico e racional que a proposta viesse dele.
— Oh! mas o dinheiro que será preciso gastar! suspirou D. Evarista sem convicção.
— Que importa? Temos ganho muito, disse o marido. Ainda ontem o escriturário prestou-me contas. Queres ver?
E levou-a aos livros. D. Evarista ficou deslumbrada. Era uma via láctea de algarismos. E depois levou-a às arcas, onde estava o dinheiro. Deus! eram montes de ouro, eram mil cruzados sobre mil cruzados, dobrões sobre dobrões; era a opulência. Enquanto ela comia o ouro com os seus olhos negros, o alienista fitava-a, e dizia-lhe ao ouvido com a mais pérfida das alusões:
— Quem diria que meia dúzia de lunáticos...
D. Evarista compreendeu, sorriu e respondeu com muita resignação:
— Deus sabe o que faz!
(O alienista, 2014.)
Em “Enquanto ela comia o ouro com os seus olhos negros, o alienista fitava-a”, há duas orações. A relação entre elas é de
Asimultaneidade.
Bcausa.
Cconsequência.
Dproporcionalidade.
Efinalidade.
Revelar gabarito e comentário▾
GabaritoA — simultaneidade.
Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.
A relação de simultaneidade em "Enquanto ela comia o ouro..."
Gabarito: letra A. A conjunção "enquanto" estabelece entre as duas orações uma relação de simultaneidade (tempo): as duas ações — "ela comia o ouro" e "o alienista fitava-a" — ocorrem ao mesmo tempo. Como se lê no trecho:
"Enquanto ela comia o ouro com os seus olhos negros, o alienista fitava-a"
A conjunção "enquanto" é uma conjunção subordinativa temporal, e o valor semântico que ela imprime é o de tempo simultâneo — as duas ações se desenvolvem paralelamente, sem que uma seja causa, consequência, proporção ou finalidade da outra.
O comando da questão
O enunciado pergunta: "A relação entre elas é de...". Isso é uma questão de compreensão do valor semântico do conectivo — não de interpretação profunda, mas de reconhecer o sentido que a conjunção "enquanto" carrega no contexto. Para resolver, você precisa saber que "enquanto" é uma conjunção temporal e que, no trecho, as ações são simultâneas.
O texto e o movimento argumentativo
No trecho de O alienista, D. Evarista "come o ouro com os olhos" (isto é, admira o dinheiro) e, ao mesmo tempo, o alienista a observa. A cena é descrita como um quadro: as duas ações acontecem juntas, no mesmo instante. O conectivo "enquanto" é a marca dessa simultaneidade — ele não introduz causa (não diz porque ela comia o ouro ele a fitava), nem consequência (não diz que ele a fitava por isso), nem proporção (não diz que à medida que ela comia, ele fitava mais), nem finalidade (não diz que ele a fitava para que ela comesse).
A técnica que decide
A chave é identificar o valor semântico da conjunção. Veja o quadro:
Conjunção
Valor semântico
Exemplo
enquanto
Tempo (simultaneidade)
"Enquanto chovia, ficamos em casa."
porque
Causa
"Não saí porque chovia."
logo
Consequência
"Choveu, logo ficamos em casa."
à medida que
Proporção
"À medida que chovia, o rio subia."
para que
Finalidade
"Levei guarda-chuva para que não me molhasse."
No trecho, "enquanto" não pode ser trocado por "porque", "logo", "à medida que" ou "para que" sem alterar o sentido. A única paráfrase fiel seria: "No momento em que ela comia o ouro, o alienista fitava-a" — o que confirma a simultaneidade.
Análise das alternativas
Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A relação é de simultaneidade: as duas ações ocorrem ao mesmo tempo. A conjunção "enquanto" é temporal e, no contexto, indica que "comer o ouro" e "fitá-la" são ações paralelas. O texto não estabelece qualquer outra relação entre elas — apenas as apresenta como contemporâneas.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Erro: troca de conceito. A relação de causa exigiria que uma oração fosse o motivo da outra (ex.: "Ela comia o ouro porque o alienista fitava-a"). No trecho, não há nexo causal: o alienista não a fitava por causa de ela comer o ouro, nem ela comia porque ele a fitava. As ações são independentes, apenas simultâneas.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Erro: troca de conceito. A relação de consequência exigiria que uma oração fosse o efeito da outra (ex.: "Ela comeu o ouro, de modo que o alienista a fitou"). Não há essa relação: o texto não diz que o fitar foi consequência do comer, nem o contrário. A simultaneidade não implica consequência.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Erro: generalização indevida. A relação de proporcionalidade é marcada por conjunções como "à medida que", "ao passo que", "quanto mais... mais". Embora "enquanto" possa, em alguns contextos, ter valor proporcional (ex.: "Enquanto mais estudava, mais aprendia"), no trecho não há essa gradação: não se diz que o fitar aumentava ou diminuía conforme o comer. O valor é puramente temporal.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Erro: troca de conceito. A relação de finalidade exigiria que uma oração expressasse o objetivo da outra (ex.: "Ela comia o ouro para que o alienista a fitasse"). Não há intenção ou propósito no trecho — as ações são simultâneas, não uma em função da outra.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a polissemia de "enquanto", que pode ter valor proporcional em outros contextos. Mas aqui o sentido é temporal — a pista é que as ações são descritas como um quadro simultâneo, sem gradação ou dependência.
PEGA ESSA DICA!
Ao identificar o valor de uma conjunção, teste a substituição por outra do mesmo tipo. Se "enquanto" puder ser trocado por "no momento em que" sem alterar o sentido, é temporal (simultaneidade). Se couber "à medida que", é proporcional.
Conclusão: a única relação que o texto autoriza é a de simultaneidade — as duas ações ocorrem ao mesmo tempo, sem causa, consequência, proporção ou finalidade. Por isso, o gabarito é a letra A.