Questão de Português — Tipos de Discurso (Direto, Indireto e Indireto Livre) — VUNESP 2026
Português›Tipos de Discurso (Direto, Indireto e Indireto Livre)
Código
vu166800
Banca
VUNESP
Órgão
FICSAE
Ano
2026
Cargo
Vest ( )
Leia o trecho de O alienista, de Machado de Assis, para responder a questão
Mas um dardo atravessou o coração de D. Evarista. Conteve-se, entretanto; limitou-se a dizer ao marido que, se ele não ia, ela não iria também, porque não havia de meter-se sozinha pelas estradas.
— Irá com sua tia, redarguiu o alienista.
Note-se que D. Evarista tinha pensado nisso mesmo; mas não quisera pedi-lo nem insinuá-lo, em primeiro lugar porque seria impor grandes despesas ao marido, em segundo lugar porque era melhor, mais metódico e racional que a proposta viesse dele.
— Oh! mas o dinheiro que será preciso gastar! suspirou D. Evarista sem convicção.
— Que importa? Temos ganho muito, disse o marido. Ainda ontem o escriturário prestou-me contas. Queres ver?
E levou-a aos livros. D. Evarista ficou deslumbrada. Era uma via láctea de algarismos. E depois levou-a às arcas, onde estava o dinheiro. Deus! eram montes de ouro, eram mil cruzados sobre mil cruzados, dobrões sobre dobrões; era a opulência. Enquanto ela comia o ouro com os seus olhos negros, o alienista fitava-a, e dizia-lhe ao ouvido com a mais pérfida das alusões:
— Quem diria que meia dúzia de lunáticos...
D. Evarista compreendeu, sorriu e respondeu com muita resignação:
— Deus sabe o que faz!
(O alienista, 2014.)
Em uma passagem do texto, o pensamento de um dos personagens irrompe no fluxo da narrativa, sem que o narrador anuncie esse pensamento ou identifique a quem ele pertence. Em outras palavras, a voz interna de um personagem é incorporada à voz do narrador, mesclando-se a ela, como se verifica em:
A“porque não havia de meter-se sozinha pelas estradas.”.
B“Note-se que D. Evarista tinha pensado nisso mesmo”.
C“— Oh! mas o dinheiro que será preciso gastar”.
D“ela comia o ouro com os seus olhos negros”.
E“Deus! eram montes de ouro, eram mil cruzados sobre mil cruzados”.
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GabaritoE — “Deus! eram montes de ouro, eram mil cruzados sobre mil cruzados”.
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Discurso indireto livre: a voz da personagem fundida à do narrador
Gabarito: letra E. A alternativa E é a única em que o pensamento de D. Evarista irrompe no fluxo narrativo sem nenhuma marca de introdução — não há verbo dicendi, travessão, aspas ou conjunção anunciando a fala. O trecho "Deus! eram montes de ouro, eram mil cruzados sobre mil cruzados" surge diretamente no meio da narração em 3ª pessoa, mesclando a voz interna da personagem à do narrador, exatamente o que caracteriza o discurso indireto livre. Como se lê no texto:
"E levou-a aos livros. D. Evarista ficou deslumbrada. Era uma via láctea de algarismos. E depois levou-a às arcas, onde estava o dinheiro. Deus! eram montes de ouro, eram mil cruzados sobre mil cruzados, dobrões sobre dobrões; era a opulência."
O trecho destacado não é precedido por nenhum verbo de elocução (como "pensou", "disse") nem por travessão ou aspas; a exclamação "Deus!" e a enumeração dos valores são a reação interior de D. Evarista, incorporada ao discurso do narrador sem aviso.
O comando: identificar o discurso indireto livre
A questão pede que você reconheça o trecho em que "a voz interna de um personagem é incorporada à voz do narrador, mesclando-se a ela". Isso é a definição clássica de discurso indireto livre: o narrador (3ª pessoa) deixa, por um instante, que o pensamento da personagem (1ª pessoa, mas sem marcas explícitas) flua dentro da narração. Não se trata de compreensão literal nem de inferência — é uma questão de classificação de discurso, que exige conhecer as marcas de cada tipo.
A técnica: procurar a ausência de marcas
Para resolver, você precisa distinguir os três tipos de discurso:
Discurso direto: a fala é transcrita com verbos dicendi (disse, perguntou), travessão, aspas ou dois-pontos. Ex.: "— Irá com sua tia, redarguiu o alienista."
Discurso indireto: o narrador reproduz a fala com suas palavras, geralmente com conjunção "que" ou "se" e verbo dicendi. Ex.: "Note-se que D. Evarista tinha pensado nisso mesmo" (aqui o narrador relata o pensamento, mas com verbo "Note-se" e estrutura de relato).
Discurso indireto livre: não há verbo dicendi, nem travessão, nem aspas, nem conjunção. O pensamento da personagem aparece diretamente no fluxo narrativo, muitas vezes com exclamações ou interrogações, como em "Deus! eram montes de ouro...".
A pegadinha da banca é oferecer trechos de discurso direto (com travessão, como na C) e de discurso indireto (com verbo dicendi, como na B) para você confundir. A chave é procurar a ausência de marcas — se há travessão, aspas ou verbo de elocução, não é indireto livre.
Análise das alternativas
Tipo de Discurso
Marca Característica
Exemplo do Texto
Direto
Travessão, aspas ou verbo dicendi (disse, perguntou)
“— Oh! mas o dinheiro que será preciso gastar” (alternativa C)
Indireto
Verbo dicendi + conjunção "que" ou "se" (narrador relata)
“Note-se que D. Evarista tinha pensado nisso mesmo” (alternativa B)
Indireto Livre
Ausência de marcas; voz da personagem mesclada à do narrador, com exclamações ou interrogações
“Deus! eram montes de ouro, eram mil cruzados sobre mil cruzados” (alternativa E)
Discurso indireto livre: Voz da personagem (Sem verbo dicendi, Sem travessão/aspas, Sem conjunção "que"); Mescla com o narrador (Fluxo narrativo em 3ª pessoa, Exclamações/interrogações); Exemplo ("Deus! eram montes de ouro")
Alternativa A — ❌ Incorreta
"porque não havia de meter-se sozinha pelas estradas."
Este trecho é parte da fala de D. Evarista em discurso direto, introduzida pelo verbo "dizer" e pelo travessão no início do diálogo: "limitou-se a dizer ao marido que, se ele não ia, ela não iria também, porque não havia de meter-se sozinha pelas estradas." A fala é claramente atribuída à personagem, com verbo dicendi ("dizer") e estrutura de citação. Não há mescla com a voz do narrador — é a fala transcrita. Erro: contradiz o texto (é discurso direto, não indireto livre).
Alternativa B — ❌ Incorreta
"Note-se que D. Evarista tinha pensado nisso mesmo"
Aqui o narrador relata o pensamento da personagem, mas com uma marca explícita de discurso indireto: o verbo "Note-se" (imperativo do narrador) e a estrutura "que D. Evarista tinha pensado" — uma oração subordinada substantiva com conjunção "que". O narrador está informando o que ela pensou, não deixando o pensamento fluir livremente. É discurso indireto clássico. Erro: contradiz o texto (é discurso indireto, não indireto livre).
Alternativa C — ❌ Incorreta
"— Oh! mas o dinheiro que será preciso gastar"
Este trecho é discurso direto: está entre travessões, que marcam a fala da personagem. O travessão é uma marca explícita de que a personagem está falando diretamente, sem mediação do narrador. Não há mescla de vozes — a fala é claramente de D. Evarista, transcrita. Erro: contradiz o texto (é discurso direto, não indireto livre).
Alternativa D — ❌ Incorreta
"ela comia o ouro com os seus olhos negros"
Este trecho é narração pura, em 3ª pessoa, descrevendo a ação de D. Evarista. Não há pensamento da personagem, nem voz interna — é o narrador descrevendo a cena. A expressão "comia o ouro com os olhos" é metafórica, mas pertence ao narrador, não à personagem. Erro: fora do escopo (não há discurso da personagem, é descrição do narrador).
Alternativa E — ✅ Correta
"Deus! eram montes de ouro, eram mil cruzados sobre mil cruzados"
Este é o discurso indireto livre. O trecho aparece logo após a narração "E depois levou-a às arcas, onde estava o dinheiro", sem nenhum verbo dicendi, travessão ou aspas. A exclamação "Deus!" e a enumeração "eram montes de ouro, eram mil cruzados..." são o pensamento de D. Evarista, que irrompe no fluxo narrativo. O narrador, que vinha em 3ª pessoa ("levou-a", "estava"), deixa a voz da personagem emergir sem aviso, mesclando-se a ela. É exatamente o que o enunciado descreve. Correta.
Conclusão
A questão testa sua capacidade de identificar o discurso indireto livre pela ausência de marcas de introdução. A alternativa E é a única que apresenta o pensamento da personagem sem verbo dicendi, travessão ou aspas, fundindo-se à narração. As demais ou são discurso direto (A, C), indireto (B) ou narração pura (D).
PEGA ESSA DICA!
Ao identificar discurso indireto livre, procure por exclamações, interrogações ou expressões de emoção que aparecem sem aviso no meio da narração em 3ª pessoa. Se houver travessão, aspas ou verbo de elocução, não é indireto livre.