Questão de Português — Conjunção — VUNESP 2026
- Código
- vu166859
- Banca
- VUNESP
- Órgão
- Faculdade Moinhos
- Ano
- 2026
- Cargo
- Vest ( )
Para responder a questão, leia a crônica “Retrato de um escritor” do escritor e médico Moacyr Scliar (1937-2011), publicada originalmente em 12.04.1986.
Na noite de sábado, 22 de março, entrei num quarto do Hospital Moinhos de Vento e o que vi confrangeu1-me instantaneamente o coração: ali estava, morrendo, o meu amigo Josué Guimarães. Imediatamente, e como por efeito de mágica — desta mágica da imaginação da qual Josué tinha um soberbo domínio —, minha memória recuou no passado e recordei a primeira vez que o vi, em 1962. [...]
Como Jorge Amado e Erico Verissimo, escritores de cuja estirpe fazia parte, era um contador de histórias autêntico, naquele sentido de que contar uma história não é simplesmente informar o leitor de algo que se passou, na realidade ou na imaginação; contar uma história é um ato de empatia, uma silenciosa e distante comunhão entre o escritor e seu leitor. [...]
Mais tarde, naquela noite de 22 de março, quando voltei para casa, olhei minhas prateleiras cheias de livros. Quanta coisa a gente escreve. Quanta coisa a gente lê. Nos agarramos (e os escritores mais que todo mundo) desesperadamente às palavras, como se as palavras pudessem nos proteger. É um empreendimento inútil, este de escrever, e no entanto inevitável. Escrevemos, porque nada mais podemos fazer, a não ser escrever. Sabendo da morte de Josué, a minha primeira reaçã&o foi cair em profunda depressão; a segunda, sentar-me à máquina.
Era o que ele faria, é o que alguém fará por mim um dia. E no meu caso, médico que sou, a impotência é dupla; não só são inúteis minhas palavras contra a morte, como também são terrivelmente devastadores os sinais que ela me faz, escondida nas sombras que rodeiam os leitos dos moribundos. Padeço dessa dupla e esmagadora solidão, a da literatura e a da medicina confrontada com a morte.
Eu deveria terminar com as palavras clássicas, dizendo que Josué morreu, mas que sua lembrança vive em seus livros e em todos nós. Mas é preciso coragem para acreditar nisto, uma coragem que eu, um cético, não tenho. Invoco então o espírito de Josué, invoco aquela intrepidez que eu tanto admirava e peço que ele me faça acreditar — acreditar que a morte não é assim tão terrível, que é possível enfrentar o fim com serenidade. Mesmo que estejamos apenas armados de nossas pobres, tristes e tão humanas ferramentas, estas palavras que aqui findam. Estas palavras com que fez nosso encanto. Obrigado, Josué. Obrigado e até sempre.
(Moacyr Scliar. A poesia das coisas simples: crônicas, 2012.)
1 confranger: angustiar.
“nada mais podemos fazer, a não ser escrever”
No contexto em que se insere, a locução sublinhada introduz
- Auma causa.
- Buma comparação.
- Cuma ressalva.
- Duma consequência.
- Euma finalidade.