Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2026
- Código
- vu166878
- Banca
- VUNESP
- Órgão
- UNIFIMES
- Ano
- 2026
- Cargo
- Vest ( )
1 O jornalista Humberto Werneck lançou seu “O pai dos burros — Dicionário de lugares-comuns e frases feitas” (Arquipélago Editorial). Dono de um dos grandes textos da imprensa brasileira, ele passou quase 40 anos colecionando os clichês que sujam as páginas de jornais, revistas, livros. Aquelas palavras que, de tanto ouvi-las, são as primeiras a aparecer na nossa cabeça, na ponta dos nossos dedos. É automático. Chegam antes do pensamento. De certo modo, são as palavras que nos libertam para não pensar. Foram ditas muitas vezes antes, não causarão nenhuma reação inesperada. Não provocarão nada, nem de bom, nem de ruim. Tanto faz dizer que “a vida imita a arte” ou que “o futebol é uma caixinha de surpresas”. É um dizer que nada muda, é um imenso nada.
Por que então os clichês são tão populares? Por que são seguros, é o que disseram gente brilhante como H.L. Mencken e Hannah Arendt. Ao repetir uma ideia velha, o que foi dito e redito por tantos antes de nós, nada sai do nosso controle. Também nada acontece. Uma nova ideia é sempre um risco, não sabemos aonde ela vai nos levar. E, na falta de ousadia, o que nos sobra é medo.
Li todas as 208 páginas, os 4640 clichês, para conhecer as palavras das quais deveria fugir. Desde então, adquiri um incômodo que não sai de mim. Ao colecionar lugares-comuns, Werneck espera nos instigar a pensar antes de sair escrevendo — ou falando. Se o jogo de palavras vier muito fácil, é porque já foi dito tantas vezes que abriu um escaninho no nosso cérebro. Basta apertar uma tecla invisível e sai de lá pronto. Não custa nada, nem mesmo um esforço mínimo. “O tempo é o senhor da razão”, “a esperança é a última que morre”, “nunca antes na história deste país”... Os clichês estão sempre sendo produzidos, até mesmo como estratégia de marketing.
Há os clichês coletivos, que estão no dicionário do Werneck, e acredito que cada um de nós tem um repertório próprio. Expressões que repetimos nos nossos textos, nos nossos discursos, na nossa autodefesa permanente — não apenas diante de outros, mas também no banco dos réus do nosso tribunal pessoal. Ideias que já testamos e sabemos que tipo de reação provocam, um repertório confiável de velhos truques.
5 Criamos nosso próprio mundo de palavras e de pensamentos. Na busca de um lugar seguro, não copiamos apenas os outros, mas a nós mesmos, infinitas vezes. Se é fácil rir das frases feitas a que a maioria se agarra para não mergulhar no desconhecido, também é fácil observar que muitos dos que riem não ousam ir além dos comportamentos clichês em sua própria vida.
Foi seguindo o fio dessa meada (olha o clichê aí!) que fui me tornando incomodada e um pouco melancólica. Tento policiar-me para escrever sem usar fórmulas, ainda que minhas. Forçar-me a buscar jeitos novos, ser uma parte diferente de mim em cada texto. Nem sempre consigo. Mas tento me obrigar a tentar. Depois de tantos anos escrevendo na imprensa, é fácil ser uma cópia de mim mesma.
Sei disso e tento manter-me inquieta. Quando vou me tornando um tatu-bola, enrodilhada em mim mesma, sou eu também que me cutuco com um pedaço de pau para sair da toca. Sei que apenas chegando perto de mim mesma é que posso alcançar a possibilidade de ser outra. E de fazer do velho em mim algo novo.
[...]
Clichês são letra morta. Palavras que nasceram luminosas e morrem pela repetição, já que a morte de uma palavra é seu esvaziamento de sentido. Agarrar-se aos lugares-comuns para não ousar arriscar-se ao novo é matar a possibilidade antes de ela existir. É matar-se um pouco a cada dia ao matar nossa expressão no mundo. De homens, nos reduzimos a papagaios. Como naquelas reuniões de empresa em que as pessoas se digladiam numa guerra de jargões corporativos que nada dizem delas, mas fingem dizer. [...]
Quando nos expressamos por palavras, temos sempre a possibilidade de nascer. E se renunciamos ao nascimento, ao trocar a possibilidade do novo pelos chavões, aceitamos a morte antes de viver? Fiquei pensando nisso. Parece-me que os lugares comuns vão muito além das palavras. A gente pode transformar nossa vida inteira num clichê. Não basta apenas pensar antes de escrever, na tentativa de criar algo nosso. É preciso pensar para viver algo nosso — antes de repetir a vida de outros.
(A menina quebrada e outras colunas de Eliane Brum, 2013.)
- Acritica os clichês por serem uma manifestação cultural e por evidenciarem a leitura de mundo de quem os usa.
- Belogia os clichês por traduzirem ideias que todos conhecemos e por serem uma garantia de interação sem conflitos.
- Celogia os clichês por serem seguros e poderem ser usados de modo cuidadoso em situações consideradas socialmente mais arriscadas.
- Dcritica os clichês por impedirem seus falantes de produzirem ideias novas e de viverem de um modo mais genuíno.
- Ecritica os clichês por serem um recurso acessível, mais utilizado por pessoas que têm pouca criatividade ou escolaridade.