Questão de Português — Figuras de Linguagem — VUNESP 2026
Português›Figuras de Linguagem
Código
vu166881
Banca
VUNESP
Órgão
UNIFIMES
Ano
2026
Cargo
Vest ( )
Para responder a questão seguinte, analise um trecho da obra “Poema Sujo”, de Ferreira Gullar, escrita em 1975 e publicada pela primeira vez em 1978. O poema, que foi escrito em um momento de exílio político, apresenta traços de toda a trajetória poética de Gullar e é permeado de memórias biográficas.
(Para ser cantada com a música da Bachiana nº 3, Tocata, de Villa Lobos)
lá vai o trem com o menino lá vai a vida a rodar lá vai ciranda e destino cidade e noite a girar lá vai o trem sem destino pro dia novo encontrar correndo vai pela terra vai pela serra vai pelo mar cantando pela serra do luar correndo entre as estrelas a voar no ar piuí piuí piuí no ar piuí piuí piuí adeus meu grupo escolar adeus meu anzol de pescar adeus menina que eu quis amar que o trem me leva e nunca mais vai parar VAARÃ VAARÃ VAARÃ VAARÃ tuc tchuc tuc tchuc tuc tchuc brisa branca brisa fria cinzentura quase dia IUÍ IUÍ IUÍ IUÍ IUÍ tuc tchuc tuc tchuc tuc tchuc lará lará larará
(Poema sujo, 1978.)
A Gramática Básica do Português Contemporâneo — organizada por Cilene da Cunha Pereira com base na Nova Gramática da Língua Portuguesa, de Celso Cunha — define que “a onomatopeia consiste no emprego de palavras imitativas, isto é, as que procuram reproduzir aproximadamente certos sons ou ruídos”. No poema, esse recurso estilístico é usado para
Asubstituir a palavra “trem”, garantindo a coesão do texto poético por meio da referenciação pronominal.
Binterromper a progressão narrativa e deslocar o foco do leitor para a sonoridade da linguagem.
Cproduzir um efeito rítmico e musical, anulando o olhar infantil para a memória recuperada pelo eu lírico.
Dincorporar ao texto poético o ruído do trem e reforçar a ideia de movimento contínuo que o atravessa.
Eatribuir leveza e humor a algumas passagens e suavizar o tom nostálgico que permeia o poema.
Revelar gabarito e comentário▾
GabaritoD — incorporar ao texto poético o ruído do trem e reforçar a ideia de movimento contínuo que o atravessa.
Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.
Onomatopeia no poema: o ruído do trem e o movimento contínuo
Gabarito: letra D. A onomatopeia, no poema, serve para incorporar ao texto poético o ruído do trem e reforçar a ideia de movimento contínuo que o atravessa. Isso se prova diretamente no texto: as expressões "piuí piuí piuí", "tuc tchuc tuc tchuc" e "VAARÃ VAARÃ" imitam os sons do trem em movimento, e essa sonoridade se soma aos versos que descrevem o deslocamento incessante, como "lá vai o trem sem destino / pro dia novo encontrar" e "que o trem me leva e nunca mais vai parar". A onomatopeia não é mero ornamento: ela materializa o som do trem e, pela repetição, reforça a continuidade do movimento que perpassa todo o poema.
O comando da questão pede que se identifique a função da onomatopeia no poema, ou seja, o efeito de sentido que ela produz. Não se trata de reconhecer a definição (já dada no enunciado), mas de aplicá-la ao texto, percebendo como o recurso sonoro se integra ao tema e à tese do poema. A banca testa, portanto, a capacidade de relacionar o recurso estilístico ao conteúdo e à atmosfera do texto.
O poema de Ferreira Gullar, escrito no exílio, apresenta um eu lírico que se despede da infância e da terra natal, embarcando em um trem que "nunca mais vai parar". O movimento do trem é o fio condutor da narrativa lírica: ele carrega o menino, a vida, a ciranda, o destino, a cidade e a noite. As onomatopeias "piuí", "tuc tchuc", "VAARÃ" reproduzem os sons reais do trem (o apito, o barulho das rodas nos trilhos, o ronco da máquina) e, por sua repetição, criam um ritmo que imita o movimento contínuo e acelerado do veículo. Assim, o recurso não apenas "ilustra" o som, mas integra o leitor à experiência sensorial do deslocamento, reforçando a ideia de um movimento que não cessa.
A técnica para resolver é: teste cada alternativa perguntando: o texto autoriza esta função para a onomatopeia? A correta é a que encontra suporte direto nos versos; as demais ou extrapolam (atribuem funções que o texto não sustenta), ou restringem o alcance do recurso, ou contradizem o que o poema efetivamente faz.
Onomatopeia no poema
1Função no texto
Incorpora o ruído do trem
Reforça o movimento contínuo
2Efeitos que NÃO produz
Não substitui a palavra "trem" (coesão)
Não interrompe a progressão narrativa
Não anula o olhar infantil
Não atribui leveza/humor
LEVEL · soulevel.com.br
Alternativa A — ❌ Incorreta
A onomatopeia não substitui a palavra "trem" nem atua como elemento de coesão referencial. As expressões "piuí", "tuc tchuc" etc. são palavras imitativas que reproduzem sons, não pronomes ou sinônimos que retomam o substantivo "trem". O texto mantém a palavra "trem" explícita em vários versos ("lá vai o trem com o menino", "lá vai o trem sem destino"), e as onomatopeias aparecem como interjeições sonoras, não como referentes. A alternativa confunde onomatopeia com coesão referencial — erro de troca de conceito.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A onomatopeia não interrompe a progressão narrativa; pelo contrário, ela integra-se ao fluxo do poema, reforçando o movimento que é o próprio tema. Os versos "correndo vai pela terra / vai pela serra / vai pelo mar" e "que o trem me leva e nunca mais vai parar" mostram que a narrativa lírica é contínua e progressiva, e as onomatopeias, longe de quebrar esse fluxo, acompanham e intensificam o ritmo do deslocamento. A alternativa extrapola ao atribuir uma função de "interrupção" que o texto não evidencia.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A onomatopeia produz efeito rítmico e musical, é verdade, mas a segunda parte da alternativa — "anulando o olhar infantil para a memória recuperada pelo eu lírico" — contradiz o texto. O poema é permeado de memórias da infância ("adeus meu grupo escolar", "adeus meu anzol de pescar", "adeus menina que eu quis amar"), e a onomatopeia não anula esse olhar; ela convive com ele, criando uma atmosfera em que o som do trem se mistura às lembranças. A alternativa restringe o efeito do recurso e inverte a relação: em vez de anular, a onomatopeia reforça a emoção da despedida, pois o som do trem que parte é o som da separação.
Alternativa D — ✅ Correta
Esta é a única alternativa inteiramente sustentada pelo texto. As onomatopeias "piuí piuí piuí", "tuc tchuc tuc tchuc" e "VAARÃ VAARÃ" reproduzem, respectivamente, o apito, o barulho das rodas e o ronco do trem. Elas incorporam o ruído do trem ao poema, e sua repetição ao longo do texto reforça a ideia de movimento contínuo, como se vê nos versos:
"lá vai o trem sem destino / pro dia novo encontrar" "que o trem me leva e nunca mais vai parar"
A onomatopeia, portanto, não é um adorno: ela materializa o som do trem e, pela repetição, reforça a continuidade do movimento que perpassa todo o poema. A alternativa parafraseia com fidelidade o efeito do recurso no texto.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A onomatopeia não atribui leveza e humor ao poema, nem suaviza o tom nostálgico. O poema tem um tom nostálgico e melancólico (a despedida da infância, do grupo escolar, da menina amada), e as onomatopeias, ao reproduzirem o som do trem, intensificam essa atmosfera de partida e perda, não a suavizam. A alternativa extrapola ao atribuir uma função de "humor" que não encontra respaldo no texto — o poema não apresenta elementos cômicos ou leves.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre o efeito sonoro da onomatopeia e outros recursos (coesão, ritmo, humor), exigindo que o candidato identifique a função específica no poema. A alternativa C, por exemplo, acerta ao mencionar o "efeito rítmico e musical", mas erra ao afirmar que isso "anula" o olhar infantil — uma restrição indevida.
PEGA ESSA DICA!
Ao resolver questões sobre figuras de linguagem, grife no texto as ocorrências do recurso e pergunte: que efeito de sentido elas produzem? A resposta correta é a que descreve esse efeito com base nos versos, não a que traz uma definição genérica ou uma função que o texto não confirma.