Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2025
Português›Interpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu218125
Banca
VUNESP
Órgão
FECAP
Ano
2025
Cargo
CEMETIEM ( )
Refazenda
Gilberto Gil
Abacateiro, acataremos teu ato
Nós também somos do mato como o pato e o leão
Aguardaremos, brincaremos no regato1
Até que nos tragam frutos teu amor, teu coração
Abacateiro, teu recolhimento é justamente o significado
Da palavra temporão
Enquanto o tempo não trouxer teu abacate
Amanhecerá tomate e anoitecerá mamão
Abacateiro, sabes ao que estou me referindo
Porque todo tamarindo tem
O seu agosto azedo, cedo, antes que o janeiro
Doce manga venha ser também
Abacateiro, serás meu parceiro solitário
Nesse itinerário da leveza pelo ar
Abacateiro, saiba que na Refazenda
Tu me ensina a fazer renda, que eu te ensino a namorar
Refazendo tudo
Refazenda
Refazenda toda
Guariroba2
(https://www.letras.mus.br/)
1 regato: riacho
2 Guariroba: palmeira nativa do Paraguai e do Brasil, muito cultivada pelo palmito amargo.
Nessa canção, o eu lírico faz uma metáfora com o abacateiro para se expressar sobre
Ao respeito ao espaço natural de cada um.
Ba rotina de plantio e colheita da vida rural.
Ca importância do tempo e dos ciclos da vida.
Da expectativa de reencontrar um grande amor.
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GabaritoC — a importância do tempo e dos ciclos da vida.
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A metáfora do abacateiro: tempo e ciclos da vida
Gabarito: letra C. O eu lírico usa o abacateiro como metáfora para falar da importância do tempo e dos ciclos da vida — a espera paciente pelo fruto que só amadurece no momento certo. A passagem que ancora essa leitura é o verso "Enquanto o tempo não trouxer teu abacate / Amanhecerá tomate e anoitecerá mamão", que liga diretamente a maturação do fruto à passagem do tempo, e também "teu recolhimento é justamente o significado / Da palavra temporão", em que o adjetivo "temporão" (que vem fora da estação) reforça a ideia de que cada coisa tem seu tempo.
O comando: interpretar a metáfora
O enunciado pede que se identifique sobre o que o eu lírico se expressa por meio da metáfora do abacateiro. Isso é uma tarefa de interpretação — não basta localizar uma informação literal; é preciso depreender o sentido figurado que o texto constrói. A metáfora é uma comparação implícita: o abacateiro não é apenas uma árvore, mas um símbolo de algo maior. A questão testa se o candidato consegue abstrair o tema central a partir das imagens poéticas.
O texto: o abacateiro como símbolo do tempo
A canção "Refazenda", de Gilberto Gil, estabelece um diálogo do eu lírico com o abacateiro. Logo no início, há uma identificação com a natureza: "Nós também somos do mato como o pato e o leão". Mas o núcleo da metáfora está na relação entre o abacateiro e o tempo de maturação:
"Abacateiro, teu recolhimento é justamente o significado / Da palavra temporão"
Aqui, o "recolhimento" da árvore (sua espera, sua calma) é associado a "temporão" — algo que acontece fora do tempo esperado. O eu lírico não cobra pressa; ao contrário, aceita o ritmo natural:
"Enquanto o tempo não trouxer teu abacate / Amanhecerá tomate e anoitecerá mamão"
Ou seja: enquanto o abacate não amadurece, outras frutas (tomate, mamão) ocupam o tempo. Há uma sucessão de ciclos — cada fruta tem sua estação. O mesmo ocorre na estrofe do tamarindo:
"Porque todo tamarindo tem / O seu agosto azedo, cedo, antes que o janeiro / Doce manga venha ser também"
Aqui, o "agosto azedo" (tempo de acidez) precede o "janeiro doce" (tempo de doçura). A mensagem é clara: tudo tem seu momento, e a paciência é parte do processo. O eu lírico, então, propõe uma troca simbólica: "Tu me ensina a fazer renda, que eu te ensino a namorar" — uma união entre o saber da natureza e o saber humano, ambos regidos pelo tempo.
A técnica: separar o tema central das ideias periféricas
A armadilha desta questão é a tangência: alternativas que tocam assuntos presentes no texto, mas que não captam o eixo central. Para resolver, pergunte: qual é a ideia que perpassa todas as estrofes? Não é a natureza em si, nem a rotina rural, nem o amor — é a noção de tempo e de ciclos. O abacateiro é o veículo da metáfora; o tema é a espera e a maturação.
Metáfora do abacateiro
1Símbolo do tempo
Espera paciente
Maturação no momento certo
2Ciclos da vida
"Temporão" (fora de estação)
Agosto azedo → janeiro doce
3Ideias periféricas (armadilhas)
Espaço natural (não está no texto)
Rotina rural (não está no texto)
Reencontro amoroso (não está no texto)
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Alternativa A — ❌ Incorreta
"o respeito ao espaço natural de cada um" — Tangencia o texto. Há uma identificação com a natureza ("Nós também somos do mato"), mas o texto não discute espaço ou limites entre seres. O foco não é respeitar o espaço do outro, e sim respeitar o tempo de cada coisa. A alternativa extrapola ao transformar a comunhão com a natureza em uma tese sobre "espaço natural" — ideia que não está no texto.
Alternativa B — ❌ Incorreta
"a rotina de plantio e colheita da vida rural" — Fuga ao tema. O texto menciona frutas e árvores, mas não descreve atividades agrícolas (plantar, colher, cuidar da terra). A linguagem é poética e simbólica, não referencial. A alternativa restringe o sentido ao pé da letra, ignorando a dimensão metafórica. Não há "rotina" no texto — há espera e ciclos.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
"a importância do tempo e dos ciclos da vida" — É a única que sintetiza o tema central. O texto inteiro é construído sobre a ideia de que cada ser (abacateiro, tamarindo, manga) tem seu tempo de amadurecer. A passagem decisiva:
"Enquanto o tempo não trouxer teu abacate / Amanhecerá tomate e anoitecerá mamão"
Aqui, o "tempo" é o agente que traz o fruto; antes disso, outras frutas preenchem o ciclo. A palavra "temporão" (fora de estação) e a oposição "agosto azedo" × "janeiro doce" reforçam a mesma ideia: a vida tem fases, e cada uma tem seu valor. A alternativa é uma paráfrase fiel do sentido figurado.
Alternativa D — ❌ Incorreta
"a expectativa de reencontrar um grande amor" — Extrapolação. O texto menciona "namorar" no último verso ("que eu te ensino a namorar"), mas isso é uma troca simbólica com a árvore, não uma expectativa amorosa concreta. Não há nenhuma referência a um "reencontro" ou a um amor perdido. A alternativa inventa uma narrativa romântica que o texto não sustenta — é uma leitura fora do escopo.
Fechamento
A regra de ouro: em questões de metáfora, procure o que o símbolo representa, não o que ele é literalmente. O abacateiro não é o tema; o tema é o tempo. Teste cada alternativa perguntando: "essa ideia perpassa o texto inteiro ou é só um detalhe?" — a correta é a que abrange o todo.