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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2025

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu218233
Banca
VUNESP
Órgão
FICSAE
Ano
2025
Cargo
Vest ( )

Passaram-se semanas. Jerônimo tomava agora, todas as manhãs, uma xícara de café bem grosso, à moda da Ritinha, e tragava dois dedos de parati1 “pra cortar a friagem”.

 

Uma transformação, lenta e profunda, operava-se nele, dia a dia, hora a hora, reviscerando-lhe o corpo e alando-lhe os sentidos, num trabalho misterioso e surdo de crisálida. A sua energia afrouxava lentamente: fazia-se contemplativo e amoroso.

 

A vida americana e a natureza do Brasil patenteavam-lhe agora aspectos imprevistos e sedutores que o comoviam; esquecia-se dos seus primitivos sonhos de ambição; para idealizar felicidades novas, picantes e violentas; tornava- -se liberal, imprevidente e franco, mais amigo de gastar que de guardar; adquiria desejos, tomava gosto aos prazeres, e volvia-se preguiçoso resignando-se, vencido, às imposições do sol e do calor, muralha de fogo com que o espírito eternamente revoltado do último tamoio entrincheirou a pátria contra os conquistadores aventureiros. [...]

 

E o curioso é que quanto mais ia ele caindo nos usos e costumes brasileiros, tanto mais os seus sentidos se apuravam, posto que em detrimento das suas forças físicas. Tinha agora o ouvido menos grosseiro para a música, compreendia até as intenções poéticas dos sertanejos, quando cantam à viola os seus amores infelizes; seus olhos, dantes só voltados para a esperança de tornar à terra, agora, como os olhos de um marujo, que se habituaram aos largos horizontes de céu e mar, já se não revoltavam com a turbulenta luz, selvagem e alegre, do Brasil, e abriam-se amplamente defronte dos maravilhosos despenhadeiros ilimitados e das cordilheiras sem fim, donde, de espaço a espaço, surge um monarca gigante, que o sol veste de ouro e ricas pedrarias refulgentes e as nuvens tocam de alvos turbantes de cambraia2, num luxo oriental de arábicos príncipes voluptuosos.

 

(O cortiço, 2011.)

 

1 parati: cachaça.

 

2 cambraia: tecido fino, branco, de algodão.

Leia o trecho do romance O cortiço, de Aluísio Azevedo (1857-1913), para responder à questão.     Zoomorfismo é um recurso utilizado pela literatura naturalista, no qual os seres humanos são comparados com animais e os aspectos corpóreos dos personagens são privilegiados, em detrimento de sua racionalidade. Configura um exemplo explícito de zoomorfismo a passagem:
  1. A“Uma transformação, lenta e profunda, operava-se nele, dia a dia, hora a hora, reviscerando-lhe o corpo e alando- -lhe os sentidos, num trabalho misterioso e surdo de crisálida” (2o parágrafo).
  2. B“A sua energia afrouxava lentamente: fazia-se contemplativo e amoroso. A vida americana e a natureza do Brasil patenteavam-lhe agora aspectos imprevistos e sedutores que o comoviam” (2o parágrafo).
  3. C“tornava-se liberal, imprevidente e franco, mais amigo de gastar que de guardar; adquiria desejos, tomava gosto aos prazeres, e volvia-se preguiçoso resignando-se, vencido, às imposições do sol e do calor” (2o parágrafo).
  4. D“Tinha agora o ouvido menos grosseiro para a música, compreendia até as intenções poéticas dos sertanejos, quando cantam à viola os seus amores infelizes” (3o parágrafo).
  5. E“surge um monarca gigante, que o sol veste de ouro e ricas pedrarias refulgentes e as nuvens tocam de alvos turbantes de cambraia, num luxo oriental de arábicos príncipes voluptuosos” (3o parágrafo).
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GabaritoA — “Uma transformação, lenta e profunda, operava-se nele, dia a dia, hora a hora, reviscerando-lhe o corpo e alando- -lhe os sentidos, num trabalho misterioso e surdo de crisálida” (2o parágrafo).

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Zoomorfismo: a comparação com animal no texto naturalista

Gabarito: letra A. A alternativa A é a única que apresenta zoomorfismo explícito, pois compara Jerônimo a uma crisálida — estágio larval de um inseto —, privilegiando o aspecto corpóreo e instintivo da transformação, em detrimento da racionalidade. Como se lê no 2º parágrafo: "Uma transformação, lenta e profunda, operava-se nele, dia a dia, hora a hora, reviscerando-lhe o corpo e alando-lhe os sentidos, num trabalho misterioso e surdo de crisálida". A palavra "crisálida" é a pista decisiva: ela nomeia o estágio de metamorfose de um inseto, e o narrador a usa para descrever a mudança física e sensorial de Jerônimo.

O comando pede que você identifique o exemplo explícito de zoomorfismo. Zoomorfismo é um recurso do Naturalismo em que o ser humano é comparado a um animal, com ênfase nos aspectos biológicos, instintivos e corpóreos, em vez da razão. A banca não quer que você deduza nada além do texto: quer que você reconheça a comparação direta entre o personagem e um animal (ou ser de outra espécie).

No trecho, a transformação de Jerônimo é descrita como um processo de metamorfose — exatamente o que ocorre com uma crisálida, que se transforma em borboleta. O narrador diz que o trabalho é "misterioso e surdo", reforçando o caráter involuntário e biológico da mudança, típico do determinismo naturalista. As demais alternativas descrevem mudanças de comportamento, percepções sensoriais ou paisagens, mas nenhuma compara o personagem a um animal.

A técnica para resolver: sublinhe no enunciado a definição de zoomorfismo ("comparados com animais") e, em cada alternativa, pergunte: há um animal ou ser de outra espécie sendo usado para caracterizar o humano? Se não houver, a alternativa não é zoomorfismo, ainda que seja metafórica ou descritiva.

Zoomorfismo (Naturalismo)
  • 1Definição
    • Humano comparado a animal
    • Privilegia o corpóreo/instintivo
    • Em detrimento da razão
  • 2Como identificar
    • Procurar nome de animal ou estágio
    • Ex.: crisálida, lobo, serpente
  • 3Figuras que confundem
    • Personificação (sol "veste")
    • Metáfora (monarca, príncipes)
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Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO

"Uma transformação, lenta e profunda, operava-se nele, dia a dia, hora a dia, reviscerando-lhe o corpo e alando-lhe os sentidos, num trabalho misterioso e surdo de crisálida"

A palavra crisálida é o núcleo do zoomorfismo: ela designa o estágio de pupa de um inseto, e o narrador a usa para metaforizar a transformação de Jerônimo. O verbo "reviscerando" (reconstruindo as vísceras) e "alando" (dando asas) reforçam a imagem do corpo em metamorfose, como o de um inseto. É a única passagem em que o personagem é diretamente associado a um animal.

Alternativa B — ❌ Incorreta

"A sua energia afrouxava lentamente: fazia-se contemplativo e amoroso. A vida americana e a natureza do Brasil patenteavam-lhe agora aspectos imprevistos e sedutores que o comoviam"

Aqui há descrição de mudança psicológica e emocional ("contemplativo", "amoroso", "comoviam"), mas nenhuma comparação com animal. O erro é de fuga ao tema: fala de transformação, mas não de zoomorfismo.

Alternativa C — ❌ Incorreta

"tornava-se liberal, imprevidente e franco, mais amigo de gastar que de guardar; adquiria desejos, tomava gosto aos prazeres, e volvia-se preguiçoso resignando-se, vencido, às imposições do sol e do calor"

Descreve mudanças de comportamento e caráter (liberal, imprevidente, preguiçoso), mas sem qualquer referência a animal. O erro é de fuga ao tema: o trecho fala de transformação moral, não de zoomorfismo.

Alternativa D — ❌ Incorreta

"Tinha agora o ouvido menos grosseiro para a música, compreendia até as intenções poéticas dos sertanejos, quando cantam à viola os seus amores infelizes"

Fala de apuração dos sentidos (ouvido) e de compreensão estética, mas não há comparação com animal. O erro é de fuga ao tema: o trecho trata de percepção e cultura, não de zoomorfismo.

Alternativa E — ❌ Incorreta

"surge um monarca gigante, que o sol veste de ouro e ricas pedrarias refulgentes e as nuvens tocam de alvos turbantes de cambraia, num luxo oriental de arábicos príncipes voluptuosos"

Aqui há personificação (o sol "veste", as nuvens "tocam") e metáforas (monarca, príncipes), mas não há comparação com animal. O erro é de troca de figura: a banca oferece uma passagem com outras figuras de linguagem para confundir quem não sabe distinguir zoomorfismo de personificação ou metáfora.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão entre zoomorfismo e outras figuras (personificação, metáfora). A única passagem com animal explícito é a que traz "crisálida".

PEGA ESSA DICA!

Ao procurar zoomorfismo, procure nomes de animais ou de estágios de vida animal (crisálida, lobo, serpente etc.). Se não houver, não é zoomorfismo.

Gabarito: letra A.

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